sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

 

“Uma Piccola” História de Família

 

Livro 1 - Parte 1 - Recomeço

 

CAPÍTULO 04 - MI NE VADO VIA



- É o fim do mundo, ninguém quer saber de nada! “Porco canne”! Nem mesmo o Rei respeitam mais! Não mataram Humberto Primo, não faz nem dois anos?

 

- “Eco”! E esse novo Rei,  Victorio Emanuele III, que não faz nada nessa vida?

 

- “Porca miséria”! O outro, pelo menos, era um rei bom.

 

Estamos em 1.902, já haviam se passado cinco anos desde que a família Laitano chegara ao Brasil. Vamos encontrar agora os Cosentino, outros meus antepassados, à procura de documentação para emigrar.

 

A cidade é Lagonegro, Itália. No salão do Comissariado de Imigração, dois homens humildes falavam de Humberto I, o segundo rei da Itália unificada havia quase trinta e cinco anos. Como sempre, reclamavam das suas atuais agruras, contrapostas às do passado, que já passou e por isso doem menos que as do presente em que se está vivendo e sofrendo.

 

De fato, Humberto I foi um rei popular, mesmo tendo reinado desastrosamente. Já era famoso aos vinte e dois anos como o heroico Comandante de Divisão, na Batalha de Custoza, travada durante a Primeira Guerra da Unificação Italiana, entre os exércitos do Império Austríaco e o do Reino da Sardenha. Depois, aos trinta e quatro anos de idade, com a morte do pai, assumiu o trono. Seu reinado caracterizou-se por diversas intervenções inconstitucionais em assuntos políticos da exclusiva alçada do Parlamento recém-formado. Apesar disso, ficou conhecido como “o Rei bom”, pelo apoio dado às populações nas inundações no Vêneto, no terremoto em Casamicciola e na catastrófica epidemia de cólera em Nápoles. Em 1.900, então com cinquenta e seis anos, em uma solenidade na cidade de Monza, foi assassinado, atingido por três tiros disparados por um anarquista fanático. Foi um déspota que obteve o apoio das pessoas humildes em um país então confuso e caótico.

 

- Pois é, conclui Matteo, morreu na santa inocência de sua bondade. É uma bagunça esta tal de Itália unida que inventaram. Ninguém se entende, é guerra atrás de guerra. E os “paesi” do norte ficam ricos enquanto a gente está sem trabalho, morrendo de fome.

 

- “Eco”, concorda o paisano, “qui, non si fá niente per noi”. Faz dois meses que estou esperando meu passaporte para a América e sempre me mandam voltar na outra semana. “Maledetto governo”!

 

- Comigo é igual. Já estou gastando um dinheiro que era para começar vida nova na América. Estou aqui, com minha mulher e meus dois filhinhos, nessa “maledetta città” de Lagonegro. É uma viagem que meu velho cavalo leva quatro horas, puxando a “carretina”, nos vinte e dois quilómetros desde “la nostra” Lauria.

 

- Não é muito tempo, considerando essa estrada montanhosa, de subidas e descidas num terreno cheio de pedras.

 

- Mas depois, ficamos “qui aspettando” tanto tempo, que vou ter que pousar num “albergo sporco” aqui perto, que cobra um absurdo.

 

- “Per que il passaporto” se tira aqui? Lagonegro não tem mar e nem mesmo um “vero” lago negro.

 

- É uma anarquia, “mannaggia mia”! “Siamo tutti rovinati”.

 

Matteo, para dar ênfase ao que dizia, apontava para seus dois filhos sentados no chão. O mais velho, Biase, tinha quase nove anos e o tempo todo queria levantar e brincar. Matteo o obrigava a ficar quieto dando-lhe uns cascudos na cabeça. A filha Domenica,  de sete anos era mais submissa e nem tirava os olhos do chão. Antonia, a esposa, sentada em um banco, não se mexia, nem parecia estar lá.

 

Seu interlocutor, Giovane Lombardi, era também de Lauria, mas ia para Nova Iorque, enquanto o primo ia para o Brasil. Eram primos, camponeses da Basilicata que haviam perdido quase todo seu patrimônio. O pouco dinheiro que ainda possuíam, vinha da venda das pequenas propriedades rurais herdadas de seus pais.

 

Toda a prole dos falecidos Biaggio Cosentino e Domenica Maria Lombardi, meus bisavôs,  já havia emigrado para o “Brasile”. Só faltava meu avô Matteo, o filho mais velho. Seus dois irmãos Giuseppe e Nicolla e também a irmã Therezza, já casada com Domingos Albanese,  já tinham ido na frente. Matteo, sendo o primogênito, ficara para liquidar os últimos negócios pendentes da família. O derradeiro Cosentino, filho de Biaggio, levaria as últimas economias da família para “fare l’America”.    

 

Antonia não era a mãe dos filhos de Matteo, seu esposo. Ele casara-se com ela há apenas três anos. Antonia era a irmã mais velha de Domenica Ielpo, a primeira esposa de Matteo e mãe de Biase e Domenica. Ela falecera há sete anos, em 1.895, aos dezenove anos de idade. Antonia, a atual esposa, era uma mulher pequena, frágil, muito tímida e já estava “ficando para titia”, quando se casou com o cunhado aos vinte e nove anos de idade.

 

Matteo e família viviam na casa de sua sogra, a viúva de Mansueto Ielpo, meu bisavô. A minha bisavó,  duas vezes sogra de Matteo, se chamava Magdalena. Ela ajudava  a fraca filha Antonia a cuidar dos enteados, enquanto o genro ia vendendo todos os seus bens.

 

Magdalena auxiliava sua filha Antonia, para ela também ter algum dinheiro próprio. Fez seu irmão Francescantonio Lauria penhorar o único imóvel a ele pertencente, localizado à Rua Muraccione nº 17.  As 160 liras que recebeu na penhora, devolveria em cinco anos de mensalidades a juros totais de 10%. Era assim mesmo; os que iam, vendiam todos seus pertences e os que ficavam, penhoravam todos os seus, até o que não podiam, para ajudar.

 

- Cosentino, Matteo e Cosentino Antonia!

 

- Giovanne, cuida das crianças que estão chamando a gente no balcão.

 

- Vão e fiquem tranquilos, caros.

 

Passando em meio às inúmeras pessoas à sua frente, Matteo e Antonia foram se chegando. Matteo achava que iria ouvir mais uma vez que deveria voltar na semana seguinte, trazendo mais algum documento inventado para unir aos tantos outros que já haviam deixado lá.

 

Ao chegarem ao local de onde os chamavam, se identificaram:

 

- Cosentino Matteo e Cosentino Antonia.

 

- Entrem  naquela fila lá Cosentino.

 

E lá se foram, para mais uma fila. Tinham apenas duas pessoas à frente. A vez deles chegou rapidamente.

 

- Assina aqui, disse um funcionário para Matteo, apontando com o dedo o local em um livro enorme e estendendo-lhe com a outra mão uma pena com tinta.

 

Isso era novidade, nunca tinham pedido sua assinatura de semianalfabeto. Quis perguntar alguma coisa, mas o funcionário repetiu, sem levantar a cabeça:

 

- Assina aqui.

 

Matteo desenhou seu nome no papel e olhou indagativamente para quem o mandara fazer isso, como se perguntasse se fizera certo. Antonia anotou seu “x”. Não que ela fosse totalmente analfabeta, mas fora instruída pelo marido a fazer assim, porque levava muito tempo assinando.

 

- Aqui estão os passaportes. Vejam se confere.

 

Matteo pegou aquela caderneta tremendo e a abriu. Normalmente lia mal, mas nervoso como estava não conseguia ler nada. As letras pareciam traços que se moviam dentro da caderneta segura pelas suas mãos trêmulas. Antonia nem abriu a sua.

 

- Confere?

 

- Sim, creio que confere, disse Matteo com uma voz não muito convicta.

 

- Então assina aqui onde tem um “x”.

 

Ele assinou a caderneta no local indicado e Antonia anotou seu “X” no “x”.

 

- Está tudo certo então. Esses passaportes são para o Brasil e valem para três anos. Entenderam?

 

- Sim senhor, obrigado.

 

- O próximo!

 

Matteo segurou a caderneta com as duas mãos, deu um fundo suspiro e, quando voltou ao mundo, viu seu primo gritando ao seu lado. Firmou a vista e viu Giovanne com a menina Domenica chorando no colo dele. O homem gesticulava muito com uma das mãos e falava muito rápido. Finalmente conseguiu se fazer entender: O menino Biase sumira!

 

- “Figlio d’un cane”! Foi só o que o pai conseguiu dizer.

 

Segurou Antonia, que quase desfalecia, pelos ombros. Mas quando já iam sair correndo a procura de um carabineiro, ouviram uma vozinha de criança às costas de Matteo:

 

- “Sono qui papá”.

 

Matteo virou e como bom “calabrês”, primeiro deu um tapa na cabeça do filho e depois quis saber onde ele esteve. Estivera o tempo todo grudado no traseiro do pai, que nem percebia a presença do filho, em meio a sua própria ansiedade e de toda a agitação local.

 

Enquanto as duas crianças choravam, os dois primos Matteo e Giovanne, começaram a gargalhar espalhafatosamente. Era uma explosão de alívio gerado pelo nervosismo, angústia e confusão em que estavam envolvidos. Algumas pessoas ao redor também riam apenas porque viram os dois a rir. Assim são os italianos, quase tudo vira festa.

 

- Mas cadê Antonia?

 

Não a viam. Seria outro sumiço? Não! Encontraram-na sentada num banco ali perto. Pálida, quase desfalecida, sem forças nem para levantar. Quando viu todos, esboçou um sorriso e desmaiou.

 

Somente, às seis horas da tarde, quando chegou à pensão e após colocar a mulher na cama e deixar os filhos irem brincar no quintal, foi que Matteo conseguiu finalmente ler calmamente o que estava escrito em seu passaporte.

 

“Regno D’Italia, Passaporto per l’estero Nº 739. Em nome de sua majestade Vittorio Emanuelle III, pela graça de Deus e pela vontade da Nação, Rei de Itália, é concedido este passaporte a Cosentino Matteo, filho de Biaggio e de Lombardi Domenica, nascido em 21 de novembro de 1.866, residente em Lauria, na província de Potenza, na condição de morador. Sinais do titular do passaporte: altura 1,66m, idade 35 anos, fronte fina, olhos castanhos, nariz arrebitado, boca fina, cabelos castanhos, sem barba, bigodes castanhos, cor branca, corpo fino e sinal de cicatriz no supercílio esquerdo. Acompanha o titular: Cosentino Biase, filho, 8 anos de idade, nascido a 21 de dezembro de 1.891 em Lauria. O presente passaporte é liberado para Santos, Brasil e válido por três anos. Liberado gratuitamente em conformidade com o artigo 6, vírgula 4, do Real Decreto de 31 de janeiro de 1.901. Prefeitura de Lagonegro, 2 de abril de 1.902. Assina o subprefeito”.

 

Leu também o  passaporte de Antonia que estava em ordem. Informava que sua acompanhante era “Cosentino Domenica, enteada, de 7 anos de idade, nascida a  16 de janeiro de 1.895 em Lauria”. E dentro da caderneta, de Antonia já estavam colocadas, bem dobradas, as Certidões de Nascimento dos pequenos. A da menina, dentro de seu passaporte e a do menino embaixo.

 

- “Dove stá” o registro do Biase, “porca miséria”!

 

- Está aí mesmo, Matteo, justo embaixo do meu Passaporte, disse Antonia, sem tirar a cabeça do travesseiro.

 

Matteo pegou a Certidão de seu primogênito, começou a ler: “Comuna de Lauria, Certidão de Nascimento lavrada em 24 de dezembro de 1.891”. Mas parou por aí. Lembrou-se de que ele, naquela data, tinha só vinte e cinco anos.

 

Relembrou que, o dia ali anotado não estava certo. A data era de três dias após o nascimento de Biase. Somente ficou sabendo do nascimento de seu primogênito, depois de acontecido. Ele estava longe de casa, em Potenza, a capital do Distrito. Fazia muito frio e não conseguia nenhuma condução para voltar. Em Lauria, esperaram esses três dias para que o tempo melhorasse e ele voltasse. Mas o tempo não melhorou.

 

Então Dona Sebastiana, de sessenta e seis anos, irmã do seu falecido sogro, meu bisavô Mansueto Ielpo



, compareceu sozinha, às 8:25 horas da manhã, na Casa Comunal de Lauria e declarou o nascimento do sobrinho-neto. Ocorrera, às 11:30 da manhã, há três dias. Declarou também que o pai estava longe e a criança não podia ser apresentada porque estava muito frio. Assim feito, o registro, foi lavrado e Dona Sebastiana, o “assinou” com seu “X” de analfabeta.

 

Matteo, se emocionando, recordou de que o filho Biase nascera grande e o parto foi complicado, pois sua mulher Domenica, a mãe de quinze anos, tinha o útero ainda infantil. A parteira aconselhou-a a não ter mais filhos, mas ela engravidou novamente três anos depois. Acabou falecendo, aos dezenove anos, em janeiro de 1.895, em consequência desse segundo parto. Sua filhinha recebeu o mesmo nome dela.

 

Desde então, Antonia, a irmã seis anos mais velha, passou a tomar conta dos órfãos de Domenica. Até que finalmente, depois de quatro anos, Matteo, casou-se  com ela. Meu avô tomou essa decisão não apenas em agradecimento pelo amor que Antonia dedicava às crianças, mas também pelo amor que acabou nascendo entre os dois.

 

- Mas chega de pensar nessas coisas, disse Matteo para si mesmo e, dando um grande suspiro, sentindo seus olhos  ficarem úmidos, desabafou:

 

- “Adesso mi ne vado via, a Brasile”.

 

Disse isso com a voz tão cheia de esperança e felicidade, como, se lá, fosse amigo do Imperador. Que importava para os que chegavam, se o Brasil de 1902 não era mais um Império e sim uma República? Matteo pouco sabia sobre aquele “paese lontano” em que iria morar.

 

A imigração era composta de pessoas humildes, simples camponeses meridionais, que não entendiam bem o que se passava à sua volta. Não percebiam muito claramente que a economia da península se desenvolvia apenas no norte. Mal entendiam que era o crescimento localizado da indústria setentrional, que levava embora a mão de obra camponesa do falido “mezzogiorno”.

 

Nem mesmo sobre o que acontecia em seu próprio país se interessavam. Nunca tiveram nem mesmo a oportunidade de aprender a ler. Nada tinham e nada poderiam esperar além lutar todos os seus dias para vencer a miséria e a fome. Onde achar tempo para saber o quê se passava na economia de seu próprio país? Então por que ficar perdendo tempo para tentar descobrir o quê encontrariam naquele fim de mundo chamado Brasil?

 

Em 1902, ano no qual a família de meu avô Matteo aportou em Santos, mais de um milhão de italianos já haviam feito essa viagem, somando-se aos muitos outros imigrantes de diversas nacionalidades.

 

Meu avô já tinha seus irmãos morando no Brasil e poderia ser mais bem informado sobre seu novo destino. Mas em suas correspondências pouco falavam do país que escolheram. Até os que já viviam aqui não entendiam quase nada sobre “questo Brasile” e para não assustar o mano velho, escreviam só as notícias boas sobre seus negócios e a família.

 

- “Tutto va benne qui, grazie a Dio. Ti aspettiamo breve”.  

 

Assim era o final de suas cartas e, por esse motivo, Matteo e família, não tinham nenhum conhecimento sobre esse tal Brasil, o país para onde estavam indo. Seu mundo era restrito às coisas que os cercavam em seu cotidiano. Tanto que, no alvorecer desse novo século em que viviam, ainda se surpreenderam com o que viam ao embarcar em Nápoles, no seu próprio país.

 

O Porto de Nápoles passava então  por uma efêmera condição de principal porto italiano no Mediterrâneo. Era a porta pela qual, naus de guerra embarcavam para as  Colônias Ultramarinas Africanas da Somália e  da Eritreia. Os emigrantes se admiravam com a imponência das naves de guerreiras que vislumbravam. E muitos ficavam no convés de seus navios comentando orgulhosos o aparato bélico da “Grande Itália”. Não tinham consciência ou quase se esqueciam de que uma das causas de estarem partindo, era o abandono a que eram deixados, também pelos gastos excessivos daquela aventura colonial italiana. Mas meu tio, o menino Biase de onze anos, ficou deslumbrado e marcado para sempre por aquela imagem de poder bélico naval. Mas por sua vez, o pai dele, tinha preocupações menos heroicas e mais imediatas.

 

A única coisa que aborrecia Matteo era achar que demorou muito até estar pronto para ”andare via”.

 

Enquanto o navio deixava o porto, lembrava-se de que há seis anos, quando seus irmãos se foram, a viagem era subsidiada pelos fazendeiros brasileiros e eles tiveram quatro anos para pagar suavemente trabalhando. Matteo não sabia, mas foi muito difícil para seus irmãos pagarem todas as dívidas que fizeram e se libertar do trabalho agrícola. Por isso, os que já estavam no Brasil, não queriam que Matteo sofresse mais quatro anos, preso aos trabalhos no cafezal. Assim, estavam esperando saldar todas as suas dívidas e acumular dinheiro para assumir uma nova dívida com a viagem de Matteo e família.

 

Mas em 1901 uma lei do Ministério das Relações Exteriores italiano, dificultou o subsídio para os que não  iriam trabalhar na agricultura por contrato e seus irmãos ainda não haviam conseguido juntar o valor necessário para o último mano viajar. E então, Matteo teve de pagar sua viagem de uma só vez.

 

Estavam todos alojados na terceira classe de um navio sujo e sem acomodações decentes.  O preço das passagens variava de acordo com a qualidade do transporte, da classe e da velocidade do Navio. Matteo economizara tudo o que podia. Mas, por isso, diariamente ele cuidava dos dois filhos,  Biase e de Domenica e também de Antonia, sua mulher, cujo estômago flutuava o tempo todo enjoado.

 

- “Maledetto Ministro Degli Affari Esteri”! – reclamava, Só estou indo pela insistência dos meus irmãos e pelas notícias de que os negócios da família estão  indo muito bem.

 

Matteo era um desses que reclamava de tudo. Porque era frio e porque era calor, porque chovia ou fazia sol ou até, como na viagem, porque todos os dias eram iguais.

 

- “Porco cane!” Já quase se arrependia de ter deixado Lauria, sua terra natal.

 

Aborrecido como estava, passados alguns dias, lamentaria também pelos sofrimentos da viagem. Porém, mais que o sofrimento que exagerava, lamentava desolado que a viagem marítima estava sendo uma enorme chatice. Um Italiano nunca acha que está tudo bem, é um traço cultural. Sempre que perguntado se está tudo bem com ele, a resposta mais provável que se ouvirá será:

 

- “Cosi, cosi”...

 

O irmão do meio, Giuseppe Cosentino, ainda solteiro, com 27 anos de idade, foi quem iniciou a imigração da família em 1.897. Contou em suas cartas que foi para o Brasil sem ter a menor ideia do que iria encontrar, foi com a cara, a coragem e um pouco de dinheiro, para enfrentar as cobras e outros bichos da floresta que cobria todo aquele país. Quase junto com Giuseppe, o outro irmão, o Niccola, então com 23 anos, o seguiu. Ficaram trabalhando na plantação de café por quatro anos, por força de contrato com o fazendeiro. Depois disso, juntaram todo o dinheiro que conseguiram guardar e montaram uma pequena fábrica de macarrão na cidadezinha em que foram morar.

 

Em uma de suas cartas para Matteo, Giuseppe Cosentino, em família chamado de Beppe, contou como foi sua viagem.

 

- “Ma per lui” não teve chatice. Matteo relembrava a história contada por seu irmão.

 

No porto de Santos, Giuseppe saiu do navio xingando uns anarquistas, que vieram com ele e passaram toda a viagem querendo mudar sua cabeça. Não que fosse papista, mas até quase se atracou com um “mascalzone” que ficava ofendendo o Papa o tempo todo. Acabou se  isolando daquele bando de anarquistas que de Santos iriam continuar viajando por terra, até o Paraná, onde fundariam uma colônia agrícola.   

 

- “Quello Beppe, almeno”, tinha tido uma viagem mais interessante que esta minha, pensava Matteo.

 

Outra característica italiana é achar que nada é mais divertido que um bate boca. Durante esta sua viagem sem graça, Matteo conversava muito com os compatriotas do sul da Itália. Mas a conversa era sempre triste e chorosa. Ninguém discutia, eram todos solidários e todos tinham muitas histórias tristes para contar e um certo medo do mesmo destino a que iriam todos chegar.

 

Não sabiam nada sobre o Brasil para onde iam, alguns já com promessa de “lavoro” na lavoura. Queriam quase todos ir para os "Stati Uniti", mas as cotas para entrada de imigrantes italianos àquele país, já estavam totalmente preenchidas. Só restavam outras opções para a América do Sul.

 

- Afinal América é América, diziam resignadamente, com a decisão de quem já havia partido e não tinha mais escolha.

 

Mateus Cosentino

Sampa – 10.07.2017

 

Licença Criativa - Esta obra está licenciada para Mateus Cosentino. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

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