sexta-feira, 5 de janeiro de 2024


 

“Uma Piccola” História de Família

Livro 1 - Parte 1 - Recomeço


CAPÍTULO 01 - EGO GRECUS-ROMANUS FUIT

 


A Itália é uma Península que avança mediterraneamente  adentro, formando a figura de uma bota, prestes a chutar umas três ilhas. Essa narração agressiva, digna de um jogo de “calcio”, não é muito apropriada para falar de vinte e oito milhões pessoas que, por falta de outra opção, se viram obrigadas a procurar outras pátrias. Porque, vamos aqui falar do gigantesco “bota-fora” que foi a Imigração que trouxe uma multidão de italianos ao Brasil e outros lugares. Entre eles estava toda a minha família. 

 

Tudo começou muito bem na Itália Meridional dos Homo Erectos meus antepassados. Estou falando dos primeiros indícios de presença humana no sul italiano, que ocorreram há  muito tempo atrás. Foi no antiquíssimo período chamado de Paleolítico Inferior, há cerca de 250 mil anos. Isso é tanto tempo que, de tudo que existiu naquela época, restam somente simples vestígios. Porém através deles sabe-se que o “Homo Sapiens Mezzogionense” habitava agradáveis proximidades de rios e lagos, que formavam o habitat ideal para suas atividades de coleta e de caça de animais selvagens hoje  extintos. E assim foi durante milhares de anos, desde esses primeiros traços desgastados de presença humanoide, no “pré-mezzogiorno”, quando a vida, se não era paradisíaca, era muito melhor, se comparada aos tempos que se seguiram.

 

Depois desses vestígios longevos, pulando milhares de anos, paramos no início da Idade do Ferro. Ainda faltavam 1200 anos para Jesus Cristo nascer e aí se iniciam as primeiras agruras na região.  Foi nessa época que começaram a aumentar os deslocamentos de diversos povos em torno do Mediterrâneo, invadindo as terras do sul.

 

Os primeiros “imigrantes invasores” a chegar ao meridiano da Península, foram os etruscos, vindos do norte pelo Mar Tirreno. Logo a seguir, entre os anos 800 e 500 antes de Cristo, vieram os fenícios estabelecendo as primeiras colônias no Mediterrâneo Ocidental. Depois disso as invasões não pararam mais.

 

Até que, no final do Século VIII, a.C., fugindo de invasores em uma de suas várias diásporas, vieram os gregos. Quase sem resistência  adentraram no sul da Itália e fundaram sua Magna Grécia espalhada pelos territórios da Campânia, da Púlia, da Basilicata, da Calábria e, por fim, da Sicília. A colonização grega perdurou por cerca de 300 anos, entre o final do VIII até meados do VI Século a.C. Nessa longa permanência no “mezzogiono”,  fundaram nada menos do que quarenta cidades entre Nápoles e Siracusa,

 

Quando eu era criança, meu tio Biase contava com orgulho, a grandiosidade da Magna Grécia, destacando detalhes da arte, cultura, ciência, política e administração deixadas como herança em nossos “paesi”.  Por isso, até a adolescência, eu dizia às namoradinhas que era descendente dos gregos da Magna Grécia. Nenhuma delas sabia que “país era aquele”, mas me sentia um Sócrates, ao dizer isso.   

 

Só muito depois fiquei sabendo que, em todos esses períodos, já viviam por essas regiões montanhosas um povo itálico; os Lucanos, um povo “brigante”. Deles pouco sei até hoje, mas posso imaginar que suas relações  com os povos invasores eram bastante conflitantes. Hoje posso deduzir que, “piano, pianino”, a difícil convivência com permanentes invasões, foi incorporando os hábitos e costumes estrangeiros. Assim,  ainda  antes de Cristo nascer, devagarinho,  foram incorporando a cultura dos invasores e transformando todas as regiões meridionais em  uma mistura multicultural, que também, muito pianinho, transformou a Lucânia na Basilicata dos dias de hoje.

 

Então, finalmente vieram os Romanos nos anos 300 a.C.. Ficaram por lá por uns novecentos anos, enquanto durou o grande Império Romano, que dominou todo o sul da Europa, o norte da África e Oriente Médio. Por séculos, disseminou  por todo seu Império o Latim, formando línguas inteiras, as neolatinas, e espalhou palavras dentro de todos os idiomas ocidentais.

 

“Ego, romanus sum!”, era a expressão de orgulho da Grande Itália da Antiguidade e todos os itálicos se sentiam romanos.

 

O fim do Império Romano Ocidental, trouxe os bárbaros de toda espécie e os bizantinos estavam entre os primeiros a chegar. Todos permaneceram por quase toda a Península até o fim da Idade Média. E depois disso, na chamada Era Moderna, apareciam no sul os Lombardos, Normandos, Aragoneses... e as guerras, as mudanças de poder sem fim, que transformaram a “Bota” em uma colcha de retalhos formada de “paesi” invadidos, transformados em diversas regiões chamadas de “Reino”.

 

Essa é a História  de muitos séculos. Os territórios criados, principalmente os do sul, foram sempre dominados, por guerras e invasões de tribos estrangeiras. Até meados do Século XIX, o tão próximo “ottocento”, ainda havia austríacos, franceses e espanhóis invadindo, lutando, enviando tropas, ditando leis, prendendo e fuzilando quem se opunha. Enfim, o sul ainda era um verdadeiro “imbróglio”.

 

Foram os normandos que começaram em 1130, quando foi criado o Reino da Sicília, com o Papa Inocêncio II conferindo a Ruggero II d'Altavilla o título de “Rex Siciliae dall'antipapa Anacleto II”. Abrangendo todo o sul da Itália e da Sicília o novo reino permaneceu por séculos como o maior dos antigos territórios unificados da Itália. No transcorrer dos anos, os historiadores, os políticos e os reis, estes últimos investidos de poderes “jus Invadendi”, foram modificando a geografia ou simplesmente inventando nomes. Assim constam da história do sul da península itálica, o Reino da Sicília, Reino de Pulha, Reino de Nápoles, Reino de Trinacria, Reino da Sardenha (e Córsega). Somente em 1816, Ferdinando I de Bourbon unificou todos os “reinados”, formando o Reino das Duas Sicílias. Esse reino foi suprimido 1861, pela Casa de Saboia, em prol do “Resorgimento”, a unificação italiana, formando o que se chamou Reino da Itália. 

 

Mas nada disso impediu a sempre presente vontade de ressurgir como uma só nação. Esse desejo  já nascia junto com a queda do Império Romano Ocidental, no longínquo ano de 476. “Risorgimento” era, portanto uma ideia antiga, ainda que frágil e difícil de ser aceita pela diversidade das várias regiões, sempre  invadidas por diferentes povos ao longo do tempo. Entretanto a utopia da unificação sustentava-se no que restava do compartilhamento de tradições culturais, na herança do aparato jurídico romano e, principalmente, na mesma fé religiosa.

 

No final do Século XV, grandes pensadores já refletiram e demonstraram em livros, a necessidade política de uma autonomia e da unificação nacional. Porém, somente entre 1790 e 1815  o ideário da Revolução Francesa, trazido pela ocupação napoleônica, surgiu e desenvolveu certa politização popular e tornou mais abrangente o desejo da unificação nacional.  

 

O Ressurgimento, entretanto, sofreu um duro golpe no Congresso de Viena em 1815. Nele, os interesses da Áustria foram  privilegiados  e a Itália foi dividida em oito Estados sem verdadeira autonomia. A partir daí, iniciaram-se  na Península as guerras pela unificação, eclodidas em todas as regiões. Somente cinquenta anos depois, em 1861 a maior parte de oito Estados conseguiu uma união política, com a criação do Reino da Itália. Assim, finalmente completava-se o ideal do “Risorgimento”.

 

Todavia, ao fim daquelas guerras pela Unificação Italiana, a economia do país se encontrava gravemente debilitada, diante do alto crescimento populacional, causador de um generalizado desemprego, principalmente no sul da Península, onde viviam meus ancestrais. Nas terras meridionais tudo era pior; a História, a água, o solo, o clima...

 

- "No “mezzogiorno”, tudo é diferente”, diziam  meus parentes.

 

Esse pessimismo endêmico vinha de antigas gerações da Lucânia, Campania, Basilicata,  Calábria e até da Sicília. Na verdade, todo o sul italiano era “diferente” desde tempos imemoriais, onde sempre viveu uma gente sofrida por carências de toda espécie, mas que estranhamente superava todas as dificuldades da vida difícil, com alegria e festas. Em atividades normais, era visível, em suas fisionomias, a tristeza de morar em região tão pobre e sem recursos. Mas em festas de nascimento, aniversário, casamento e até dias santos, as famílias dançavam e cantavam alegres em torno de mesas de comida de inesperada fartura.

 

Pois é, o sul italiano era diferente, triste e alegre ao mesmo tempo, desde tempos  antigos, bem antes da invenção de escrita. Mas mesmo recentemente  na chegada do Século XX, qualquer estrangeiro que lá viesse pela vez primeira, condoía-se e se espantava com o que via:

 

- "Quem viajar por aquelas terras, se deparará com tanta gente digna de piedade, que poderá dizer que a morte é para eles um descanso, mas, apesar disso, fazem festa, cantam e dançam”.

 

Isso não era uma figura de linguagem e nem uma interpretação exagerada, era a real impressão de qualquer viajante chegado do norte industrializado. E essa impressão antiga fixou-se no inconsciente coletivo dos italianos setentrionais. Até hoje, mesmo que em menor escala, continua a ser  atribuindo aos povos do sul, uma imagem diferente de pobreza, pouca instrução e muitas festas. 

 

Entretanto como nação,  a Itália entrou de quatro no Século XIX e durante os cem anos desse século, uma grande diáspora a fez perder milhões de nomes e sobrenomes para todos os pontos do planeta, de Nova York, lá no norte e Buenos Aires, no fim do mundo.

 

Mas nada impediu que os italianos se destacassem onde quer que estivessem. Desde a pedra de Pedro, ao Renascimento e até o Descobrimento da América. Mesmo antes e depois disso, a Itália sempre foi grande no âmbito da Cultura. A Península continuou, como sempre,  marcando a História Ocidental com fatos significativos em todas as áreas do conhecimento, nas artes, nos esportes, nas ciências, na política, no comércio e na religião. Por onde passaram, os imigrantes deixaram seus sobrenomes italianos em destaque.

 

Os italianos e seus descendentes verdadeiramente fizeram a América do polo norte ao polo sul. Mas isso era de direito desde o início. Afinal foi o genovês Cristóvão Colombo quem “descobriu” o Continente e foi o florentino Américo Vespúcio quem o “batizou” com seu nome. Mas destacar-se fora de casa, não foi tão fácil como possa parecer.

 

Devo parar por aqui.

 

Não era minha intenção, como possa parecer, reescrever a História da Itália Meridional. Principalmente porque me faltam conhecimentos para me atrever a fazer isso. Porém acabei escrevendo muito  mais do que pretendia. Portanto, considero não valer a pena tornar estas páginas ainda mais sombrias, pormenorizando os desastres ecológicos, as catástrofes bélicas  e as grandes pragas que fizeram parte dos diversos períodos do “mezzogiorno” e, de resto, de quase toda a Europa.

 

Minha intenção é mostrar que a simples narração das constantes invasões, é suficiente para retratar o verdadeiro quadro negro que se abateu na terra natal e origem da minha família. A História justifica a emigração de tantas famílias. Assim, além das invasões, torna-se desnecessário dizer que a imigração também é consequência de uma pobreza permanente e do descaso com que a própria administração Meridional, assim como a Setentrional, sempre dedicaram ao povo do  “mezzogiorno”.

 

Toda minha narração é baseada na premissa de que a pobreza sempre foi ignorada na Itália. As elites no poder cuidavam de guerrear por territórios e a população, composta basicamente por camponeses, era deixada à sua própria sorte, em miséria permanente. E isso, por si só, pode  justificar o atraso com que a Itália chegou à Era Industrial.   

 

A pobreza,  sempre presente, tem até uma tipologia própria em cada época e descrita pelos historiadores: Na Idade Média os pobres que circulavam por todos os cantos “escolhiam sua pobreza por imitação a Cristo, que foi pobre por escolha”. No início da Revolução Industrial, surgiu um outro tipo de pobre, o que se recusava ao trabalho servil e preferia se tornar ladrão ou vigarista. Em paralelo a estes últimos, havia o pobre que embora também adotasse o direito de não trabalhar para patrões, procurava obter terras para cultivar e se preocupava em construir um bom futuro para suas famílias.

 

Foram estes últimos pobres, impedidos de realizar seus sonhos em suas terras, que partiram para outros lugares com suas famílias. Foram estes, os sem opção e sem esperança, que formaram as ondas, cada vez maiores, rumo a outras terras que o mundo tem. E até às primeiras décadas do Século XX, totalizaram vinte e oito milhões, os imigrantes que deixaram a Itália para sobreviver com dignidade “lontano”.

 

E para encerrar essa narração inicial, irei transcrever as palavras de um italiano, emigrante  anônimo, ditas na segunda metade do Século XIX, já subindo com a família ao navio que os levaria. Respondia ao questionamento de um Ministro de Estado:

 

- “Que entendeis por uma Nação, Senhor Ministro? É a massa dos infelizes? Plantamos e ceifamos o trigo, mas nunca provamos pão branco. Cultivamos a videira, mas não bebemos o vinho. Criamos animais, mas não comemos a carne. E apesar disso, vós nos aconselhais a não abandonarmos a nossa Pátria? Mas, é uma Pátria a terra onde não se consegue viver do próprio trabalho”?

 

Já em meio aos anos 1800, os Cosentino, os Ielpo, os Laitano e os Cozza já buscavam melhores oportunidades nos arredores da “cosentina” Cosenza calabresa e da lucana Basilicata, onde viviam. Mas no final do Século XIX, partiram rumo ao Brasil.

 

Era assim que minha “ piccola storia” de Família deveria começar.

 

Mateus Cosentino

Sampa – 07.07.2017

 

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