“Uma
Piccola” História de Família
Livro 1 - Parte 1 - Recomeço
CAPÍTULO 01 - EGO GRECUS-ROMANUS FUIT
Tudo começou muito bem na Itália Meridional dos Homo Erectos
meus antepassados. Estou falando dos primeiros indícios de presença humana no
sul italiano, que ocorreram há muito
tempo atrás. Foi no antiquíssimo período chamado de Paleolítico Inferior, há
cerca de 250 mil anos. Isso é tanto tempo que, de tudo que existiu naquela
época, restam somente simples vestígios. Porém através deles sabe-se que o
“Homo Sapiens Mezzogionense” habitava agradáveis proximidades de rios e lagos,
que formavam o habitat ideal para suas atividades de coleta e de caça de
animais selvagens hoje extintos. E assim
foi durante milhares de anos, desde esses primeiros traços desgastados de
presença humanoide, no “pré-mezzogiorno”, quando a vida, se não era
paradisíaca, era muito melhor, se comparada aos tempos que se seguiram.
Depois desses vestígios longevos, pulando milhares de anos,
paramos no início da Idade do Ferro. Ainda faltavam 1200 anos para Jesus Cristo
nascer e aí se iniciam as primeiras agruras na região. Foi nessa época que começaram a aumentar os
deslocamentos de diversos povos em torno do Mediterrâneo, invadindo as terras
do sul.
Os primeiros “imigrantes invasores” a chegar ao meridiano da
Península, foram os etruscos, vindos do norte pelo Mar Tirreno. Logo a seguir, entre
os anos 800 e 500 antes de Cristo, vieram os fenícios estabelecendo as primeiras
colônias no Mediterrâneo Ocidental. Depois disso as invasões não pararam mais.
Até que, no final do Século VIII, a.C., fugindo de invasores
em uma de suas várias diásporas, vieram os gregos. Quase sem resistência adentraram no sul da Itália e fundaram sua
Magna Grécia espalhada pelos territórios da Campânia, da Púlia, da Basilicata,
da Calábria e, por fim, da Sicília. A colonização grega perdurou por cerca de 300
anos, entre o final do VIII até meados do VI Século a.C. Nessa longa
permanência no “mezzogiono”, fundaram nada
menos do que quarenta cidades entre Nápoles e Siracusa,
Quando eu era criança, meu tio Biase contava com orgulho, a grandiosidade
da Magna Grécia, destacando detalhes da arte, cultura, ciência, política e
administração deixadas como herança em nossos “paesi”. Por isso, até a adolescência, eu dizia às
namoradinhas que era descendente dos gregos da Magna Grécia. Nenhuma delas
sabia que “país era aquele”, mas me sentia um Sócrates, ao dizer isso.
Só muito depois fiquei sabendo que, em todos esses períodos,
já viviam por essas regiões montanhosas um povo itálico; os Lucanos, um povo
“brigante”. Deles pouco sei até hoje, mas posso imaginar que suas relações com os povos invasores eram bastante
conflitantes. Hoje posso deduzir que, “piano, pianino”, a difícil convivência
com permanentes invasões, foi incorporando os hábitos e costumes estrangeiros.
Assim, ainda antes de Cristo nascer, devagarinho, foram incorporando a cultura dos invasores e transformando
todas as regiões meridionais em uma
mistura multicultural, que também, muito pianinho, transformou a Lucânia na
Basilicata dos dias de hoje.
Então, finalmente vieram os Romanos nos anos 300 a.C.. Ficaram
por lá por uns novecentos anos, enquanto durou o grande Império Romano, que dominou
todo o sul da Europa, o norte da África e Oriente Médio. Por séculos,
disseminou por todo seu Império o Latim,
formando línguas inteiras, as neolatinas, e espalhou palavras dentro de todos
os idiomas ocidentais.
“Ego, romanus sum!”, era a expressão de orgulho da Grande
Itália da Antiguidade e todos os itálicos se sentiam romanos.
O fim do Império Romano Ocidental, trouxe os bárbaros de
toda espécie e os bizantinos estavam entre os primeiros a chegar. Todos permaneceram
por quase toda a Península até o fim da Idade Média. E depois disso, na chamada
Era Moderna, apareciam no sul os Lombardos, Normandos, Aragoneses... e as
guerras, as mudanças de poder sem fim, que transformaram a “Bota” em uma colcha
de retalhos formada de “paesi” invadidos, transformados em diversas regiões
chamadas de “Reino”.
Essa é a História de
muitos séculos. Os territórios criados, principalmente os do sul, foram sempre dominados,
por guerras e invasões de tribos estrangeiras. Até meados do Século XIX, o tão
próximo “ottocento”, ainda havia austríacos, franceses e espanhóis invadindo,
lutando, enviando tropas, ditando leis, prendendo e fuzilando quem se opunha.
Enfim, o sul ainda era um verdadeiro “imbróglio”.
Foram os normandos que começaram em 1130, quando foi criado
o Reino da Sicília, com o Papa Inocêncio II conferindo a Ruggero II d'Altavilla
o título de “Rex Siciliae dall'antipapa Anacleto II”. Abrangendo todo o sul da
Itália e da Sicília o novo reino permaneceu por séculos como o maior dos
antigos territórios unificados da Itália. No transcorrer dos anos, os
historiadores, os políticos e os reis, estes últimos investidos de poderes “jus
Invadendi”, foram modificando a geografia ou simplesmente inventando nomes.
Assim constam da história do sul da península itálica, o Reino da Sicília,
Reino de Pulha, Reino de Nápoles, Reino de Trinacria, Reino da Sardenha (e
Córsega). Somente em 1816, Ferdinando I de Bourbon unificou todos os
“reinados”, formando o Reino das Duas Sicílias. Esse reino foi suprimido 1861,
pela Casa de Saboia, em prol do “Resorgimento”, a unificação italiana, formando
o que se chamou Reino da Itália.
Mas nada disso impediu a sempre presente vontade de ressurgir
como uma só nação. Esse desejo já nascia
junto com a queda do Império Romano Ocidental, no longínquo ano de 476.
“Risorgimento” era, portanto uma ideia antiga, ainda que frágil e difícil de
ser aceita pela diversidade das várias regiões, sempre invadidas por diferentes povos ao longo do
tempo. Entretanto a utopia da unificação sustentava-se no que restava do
compartilhamento de tradições culturais, na herança do aparato jurídico romano
e, principalmente, na mesma fé religiosa.
No final do Século XV, grandes pensadores já refletiram e
demonstraram em livros, a necessidade política de uma autonomia e da unificação
nacional. Porém, somente entre 1790 e 1815
o ideário da Revolução Francesa, trazido pela ocupação napoleônica,
surgiu e desenvolveu certa politização popular e tornou mais abrangente o
desejo da unificação nacional.
O Ressurgimento, entretanto, sofreu um duro golpe no Congresso
de Viena em 1815. Nele, os interesses da Áustria foram privilegiados
e a Itália foi dividida em oito Estados sem verdadeira autonomia. A
partir daí, iniciaram-se na Península as
guerras pela unificação, eclodidas em todas as regiões. Somente cinquenta anos
depois, em 1861 a maior parte de oito Estados conseguiu uma união política, com
a criação do Reino da Itália. Assim, finalmente completava-se o ideal do “Risorgimento”.
Todavia, ao fim daquelas guerras pela Unificação Italiana, a
economia do país se encontrava gravemente debilitada, diante do alto
crescimento populacional, causador de um generalizado desemprego,
principalmente no sul da Península, onde viviam meus ancestrais. Nas terras meridionais
tudo era pior; a História, a água, o solo, o clima...
- "No “mezzogiorno”, tudo é diferente”, diziam meus parentes.
Esse pessimismo endêmico vinha de antigas gerações da
Lucânia, Campania, Basilicata, Calábria
e até da Sicília. Na verdade, todo o sul italiano era “diferente” desde tempos
imemoriais, onde sempre viveu uma gente sofrida por carências de toda espécie,
mas que estranhamente superava todas as dificuldades da vida difícil, com
alegria e festas. Em atividades normais, era visível, em suas fisionomias, a
tristeza de morar em região tão pobre e sem recursos. Mas em festas de
nascimento, aniversário, casamento e até dias santos, as famílias dançavam e
cantavam alegres em torno de mesas de comida de inesperada fartura.
Pois é, o sul italiano era diferente, triste e alegre ao
mesmo tempo, desde tempos antigos, bem
antes da invenção de escrita. Mas mesmo recentemente na chegada do Século XX, qualquer estrangeiro
que lá viesse pela vez primeira, condoía-se e se espantava com o que via:
- "Quem viajar por aquelas terras, se deparará com
tanta gente digna de piedade, que poderá dizer que a morte é para eles um
descanso, mas, apesar disso, fazem festa, cantam e dançam”.
Isso não era uma figura de linguagem e nem uma interpretação
exagerada, era a real impressão de qualquer viajante chegado do norte
industrializado. E essa impressão antiga fixou-se no inconsciente coletivo dos
italianos setentrionais. Até hoje, mesmo que em menor escala, continua a ser atribuindo aos povos do sul, uma imagem
diferente de pobreza, pouca instrução e muitas festas.
Entretanto como nação, a Itália entrou de quatro no Século XIX e durante
os cem anos desse século, uma grande diáspora a fez perder milhões de nomes e
sobrenomes para todos os pontos do planeta, de Nova York, lá no norte e Buenos
Aires, no fim do mundo.
Mas nada impediu que os italianos se destacassem onde quer
que estivessem. Desde a pedra de Pedro, ao Renascimento e até o Descobrimento
da América. Mesmo antes e depois disso, a Itália sempre foi grande no âmbito da
Cultura. A Península continuou, como sempre,
marcando a História Ocidental com fatos significativos em todas as áreas
do conhecimento, nas artes, nos esportes, nas ciências, na política, no comércio
e na religião. Por onde passaram, os imigrantes deixaram seus sobrenomes
italianos em destaque.
Os italianos e seus descendentes verdadeiramente fizeram a
América do polo norte ao polo sul. Mas isso era de direito desde o início.
Afinal foi o genovês Cristóvão Colombo quem “descobriu” o Continente e foi o
florentino Américo Vespúcio quem o “batizou” com seu nome. Mas destacar-se fora
de casa, não foi tão fácil como possa parecer.
Devo parar por aqui.
Não era minha intenção, como possa parecer, reescrever a
História da Itália Meridional. Principalmente porque me faltam conhecimentos
para me atrever a fazer isso. Porém acabei escrevendo muito mais do que pretendia. Portanto, considero não
valer a pena tornar estas páginas ainda mais sombrias, pormenorizando os
desastres ecológicos, as catástrofes bélicas
e as grandes pragas que fizeram
parte dos diversos períodos do “mezzogiorno” e, de resto, de quase toda a
Europa.
Minha intenção é mostrar que a simples narração das
constantes invasões, é suficiente para retratar o verdadeiro quadro negro que
se abateu na terra natal e origem da minha família. A História justifica a
emigração de tantas famílias. Assim, além das invasões, torna-se desnecessário dizer
que a imigração também é consequência de uma pobreza permanente e do descaso com
que a própria administração Meridional, assim como a Setentrional, sempre dedicaram
ao povo do “mezzogiorno”.
Toda minha narração é baseada na premissa de que a pobreza
sempre foi ignorada na Itália. As elites no poder cuidavam de guerrear por
territórios e a população, composta basicamente por camponeses, era deixada à
sua própria sorte, em miséria permanente. E isso, por si só, pode justificar o atraso com que a Itália chegou à
Era Industrial.
A pobreza, sempre
presente, tem até uma tipologia própria em cada época e descrita pelos
historiadores: Na Idade Média os pobres que circulavam por todos os cantos “escolhiam
sua pobreza por imitação a Cristo, que foi pobre por escolha”. No início da
Revolução Industrial, surgiu um outro tipo de pobre, o que se recusava ao
trabalho servil e preferia se tornar ladrão ou vigarista. Em paralelo a estes
últimos, havia o pobre que embora também adotasse o direito de não trabalhar
para patrões, procurava obter terras para cultivar e se preocupava em construir
um bom futuro para suas famílias.
Foram estes últimos pobres, impedidos de realizar seus
sonhos em suas terras, que partiram para outros lugares com suas famílias.
Foram estes, os sem opção e sem esperança, que formaram as ondas, cada vez
maiores, rumo a outras terras que o mundo tem. E até às primeiras décadas do
Século XX, totalizaram vinte e oito milhões, os imigrantes que deixaram a Itália
para sobreviver com dignidade “lontano”.
E para encerrar essa narração inicial, irei transcrever as
palavras de um italiano, emigrante
anônimo, ditas na segunda metade do Século XIX, já subindo com a família
ao navio que os levaria. Respondia ao questionamento de um Ministro de Estado:
- “Que entendeis por uma Nação, Senhor Ministro? É a massa
dos infelizes? Plantamos e ceifamos o trigo, mas nunca provamos pão branco.
Cultivamos a videira, mas não bebemos o vinho. Criamos animais, mas não comemos
a carne. E apesar disso, vós nos aconselhais a não abandonarmos a nossa Pátria?
Mas, é uma Pátria a terra onde não se consegue viver do próprio trabalho”?
Já em meio aos anos 1800, os Cosentino, os Ielpo, os Laitano
e os Cozza já buscavam melhores oportunidades nos arredores da “cosentina” Cosenza
calabresa e da lucana Basilicata, onde viviam. Mas no final do Século XIX,
partiram rumo ao Brasil.
Era assim que minha “ piccola storia” de Família deveria
começar.
Mateus Cosentino
Sampa – 07.07.2017
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