sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

 

“Uma Piccola” História de Família

 

Livro 1 - Parte 1 - Recomeço

 

CAPÍTULO 03 - PIANO PIANO SI VA LONTANO

 

 


O vapor atracou no porto de Santos. Finalmente estava superado o mês inteiro de sofrimento atravessando o Atlântico nos péssimos alojamentos do Maranhão.  

 

Era o dia doze de abril de 1897. Giuseppe Laitano, Isabela, e as crianças Leonne, Leonardo e Maria, seus filhos, não imaginavam que estavam chegando a um país jovem e otimista. Mas ainda no canal de mar, por onde entrava o navio, puderam ver a orla de praias de uma cidade que parecia tão grande quanto as maiores que já tinham visto na sua Itália.

 

Na chegada ao porto de Santos, todos os imigrantes se mostravam dóceis e obedientes, acatando todas as ordens para seguirem os caminhos indicados. Diante dos gritos daqueles brutamontes que os conduziam, continham-se e se esforçavam para não demonstrar, na nova terra que os estava recebendo, a revolta vinda da miséria e abandono em que sempre viveram.

 

Quem os visse assim, não poderia imaginar que, em meio a pessoas tão pacíficas, muitas tentavam conter seu espírito “brigante”. Eles eram pobres, mal vestidos e até mal cheirosos, mas eram também orgulhosos, de serem “uomini d’onore”. 

 

Tinham aprendido que a lealdade e a solidariedade, eram os bens maiores que possuíam para proteger suas famílias e sua vizinhança das dificuldades em que viviam no “mezzogiorno”. Porém, estavam chegando a um novo país em busca de dias melhores. Era preciso não criar problemas.

 

Queriam apenas, trabalhar pacificamente, ganhar o pão de cada dia e escapar daqueles tempos difíceis de sua terra natal. Traziam o sonho de trabalhar em terras próprias e grande parte deles vinha com suas famílias, geralmente formadas por casal jovem e filhos pequenos, além de outros parentes e até agregados.

 

Todos estavam cansados da confusão nas décadas em que a Itália esteve brigando para nascer como nação unificada. Eram apenas camponeses, não conseguiam entender as coisas estranhas que lá aconteciam. Guerreavam todos contra todos. Tudo se complicara por lá. Por isso emigraram, deixando para trás os anos caóticos de guerras, miséria e perseguições.

 

Nada mais entendiam. Como a população de católicos fervorosos do “mezzogiorno”, poderia entender que até o Santo Papa Pio IX - o “beato franciscano” – se tornava prisioneiro em Roma, cidade invadida pelo próprio Rei da Itália, Vittorio Emanuelle II? Como aceitar que na Basilicata e Calábria alguns jovens, filhos seus e de vizinhos, se declarassem contra todos os padres, bispos e o Papa?  Por que os moços fugiam dos “carabinieri” e se escondiam nos bosques, para escapar da convocação de um “exército estrangeiro” que não sabiam de onde vinha, querendo obriga-los a ir guerrear e talvez morrer?

 

Para a geração dos meus bisavôs, testemunha desse grande caos, isso era muito confuso. Aquela gente humilde se assustava, não entendia e nem aceitava essa “anarquia”. Era o fim do mundo!

 

Chorar é a única coisa a se fazer quando não se sabe como agir. Mas aprenderam também a ter resignação para superar a “paúra” e o desconhecido. Aprenderam a ficar quietos, deslocando-se com movimentos lentos e sem olhar ninguém nos olhos. Mas traziam no fundo do peito uma pequena chama de orgulho escondida: A “onorabilità”.

 

Seus filhos - os meus avôs – cansados de guerra, criaram a coragem que não tinham e deram vazão ao que lhes restava desse “onore”. E aderiram à solução que há algum tempo já era o único caminho para muitos: Emigrar para a América.

 

Nos últimos anos do Século XIX, milhões já haviam partido para além mar. Não era uma confissão de derrota. Era a coragem de quem nada tinha, mas jamais iria desistir. Era o orgulho de ter a última esperança de realizar o sonho. Era o derradeiro sacrifício para manter acesa a chama e poder vencer.

 

Porém, apesar da esperança, tinham que manter a humildade. O silêncio e a aparente passividade eram as armas que tinham para serem aceitos. Praticamente todos tinham pouca instrução, mas traziam um padrão cultural superior ao da população local. O choque cultural era inevitável. Tentavam calar para serem aceitos. Mas ficar quieto não é coisa de italiano...

 

Assim, intencionalmente ou não, pacificamente ou não, ajudaram a introduzir no Brasil, correntes de pensamento e ações sociais da Europa contemporânea, desconhecida pela quase totalidade dos brasileiros, mesmo que a teoria fosse conhecida por uma insignificante minoria intelectual.

 

Esses imigrantes recém-chegados à sua nova morada procuravam se abrir com toda sinceridade somente entre seus “paisanos”. Entretanto, havia um pequeno grupo portador de ideologias radicais cujas práticas atravessaram o Atlântico, imigrando com eles.

 

Tanto era assim, que ali mesmo no desembarque do porto, alguns imigrantes solteiros já ficaram por lá mesmo. Foram chamados ao trabalho, para substituir brasileiros que se recusavam a trabalhar. Isso porque alguns estivadores do porto tentavam convencer os companheiros a cruzarem os braços, reivindicando trabalho diário de oito horas e melhores salários.

 

A polícia acabara de chegar. Giuseppe Laitano protegeu com o corpo a mulher e os filhos, da baderna que começava.

 

- “Manaja”, será que o mundo todo está maluco? Disse ele em voz alta para os outros imigrantes da fila. Saí do meu “paese” por causa da confusão e aqui é igual? “Porca miseria”!  

 

A maioria dos desembarcados, permaneceu passivamente quieta na fila para embarcar no trem. Ninguém demonstrou apoio à revolta impetuosa daquele pai de família protegendo os seus, como todos os outros pais também faziam. Nenhum deles queria confusão. Acabavam de chegar e não queriam se meter em confusão. Estavam todos mais interessados em encontrar seus assentos no trem.

 

Giuseppe Laitano calou-se e imitando seus paisanos, se pôs à procura de acomodar a família no trem. Acomodados, foram levados pela Estrada de Ferro Santos/Jundiaí - primeira ferrovia paulista - em uma subida de setecentos e cinquenta metros acima do nível do mar, para o Planalto de Piratininga, onde ficava a Capital do Estado de São Paulo.

 

Em pouco mais de duas horas chegaram à Estação Ferroviária do Brás. Ao desembarcarem do trem, foram conduzidos a pé, organizados em fila, para um local bem próximo. A família Laitano, como todos os outros, se admiraram ao ver diante de si um imponente conjunto de prédios.

 

Para quem imaginava estar indo para um país que era uma floresta tropical, ver um grande porto, um trem inglês subindo a serra, as cidades grandes... tudo era surpreendente. Não cansavam de se admirar.

 

Acabavam de entrar na Casa do Imigrante, a hospedaria destinada a receber, alimentar e encaminhar os recém-chegados do mundo inteiro a seus destinos finais. Imediatamente acolhidos e registrados, todos foram encaminhados para exame médico. Os que estavam bem de saúde foram descansar nos dormitórios, para seguirem viagem. Os que se apresentaram doentes iriam permanecer em quarentena.

 

Os Laitano mostraram-se saudáveis e, no dia seguinte, partiram por outra via férrea para seus destinos finais, conforme contrato realizado.  Nessa longa viagem, foram percebendo que deixavam as cidades para trás e iam adentrando a esperada floresta cortada por enormes plantações de café, onde iriam trabalhar.

 

Giuseppe Laitano tinha decorado o endereço de sua nova morada: Fazenda do Dr. Pedro Arbues da Silva, no município de Jaboticabal.

 

Na Casa do Imigrante ele havia assinado um contrato feito por aquele fazendeiro. Antes da assinatura e de receber sua via contratual, foram lidos - em italiano, embora escrito em português - os termos do documento que diziam:

 

”Por este contrato de empreitada, feito entre partes contratantes Giuseppe Laitano como empreiteiro, e Dr. Pedro Arbues da Silva, na qualidade de proprietário da fazenda Pau d’Alho, situada no município de Jaboticabal, fica estabelecido que o empreiteiro obriga-se a plantar 200.000 pés de café, com a distâncias de 16 palmos de um a outro. Concluída a plantação e a construção da casinha, o empreiteiro poderá plantar uma carreira de milho em cada rua de café. Nenhuma outra plantação será permitida no cafezal além do milho. O empreiteiro não poderá receber a seu serviço colonos e camaradas que tenham deixado o serviço da fazenda e se sujeita à fiscalização e ordens do administrador que não poderão ser contrárias às cláusulas deste contrato. O Dr. Pedro Arbues da Silva obriga-se a pagar ao empreiteiro 1$500 (um mil e quinhentos reis) por cada um pé de café em quatros anos, ou a quantia de 300.000$000 (trezentos contos de reis) pelo total dos 200.000 pés plantados. Os frutos produzidos durante os quatro anos pertencerão aos proprietários da fazenda. O empreiteiro fica com o direito a fornecer ao seu pessoal os gêneros que forem necessários”.

 

Por esse contrato Giuseppe Laitano se sujeitava a trabalhar por quatro anos. Mas valia a pena. Trezentos contos era uma quantia suficiente para comprar uma terra e finalmente ter sua própria plantação. Esse objetivo de vida era tão grande sonho de felicidade, que ao assinar, nem levou em conta que teria de abater daquele valor os custos da viagem de toda a família e todas as despesas de manutenção familiar dos quatro anos, incluindo aí a “construção da casinha”. Na hora nem pensou que estaria preso por quatro anos e sujeito aos maus tratos de um “administrador”, acostumado a cuidar de escravos. 

 

O homem sempre será o lobo do homem? Mesmo após os milênios de civilização, em que o nosso planeta finalmente chegava ao Século XX? A tecnologia humana das últimas décadas trazia tantas invenções que parecia milagroso tudo o que se presenciava. A gente comum, como meus parentes, assim como a grande maioria dos habitantes do planeta, se maravilhavam com coisas de engenhosidade inacreditável.

 

Havia carros se movendo sem precisar ser puxados por animais; uma lâmpada sem querosene, gás ou pavio, iluminava tudo através de uma tal de eletricidade; um simples fio era suficiente para transmitir num instante, mensagens de um Continente a outro; outra máquina gravava e reproduzia músicas e todos os sons; aparecia um incrível aparelho para conversar com pessoas à distância; uma caixinha fazia retratos perfeitos de tudo que ficava a sua frente; e em uma tela mágica se podia ver pessoas, bichos e outras coisas em movimento parecendo de verdade; e a coisa mais maravilhosa, eram aqueles enormes balões dirigíveis que permitiam aos homens voar!

 

Porém, esse fantástico desenvolvimento tecnológico não era correspondido com alguma mudança radical para melhorar o caráter dos seres humanos e da civilização em quem viviam. Estávamos passando de um sistema mercantilista, em meio a uma revolução industrial, quando os países não só mantinham como aumentavam suas guerras nacionais em busca de desenvolvimento e hegemonia de um sobre os outros, a qualquer custo.

 

Mas nosso planeta Terra sempre esteve maculado por uma imensa maioria de famélicos e miseráveis, com uma minoria de poderosos subjugando os que nada tinham. Inventam-se teorias raciais, sociais e até religiosas para justificar porque uns são privilegiados, enquanto outros são remediados e a grande maioria explorada sem piedade ou culpa.    

 

O engodo é a forma de caçar do lobo. Enganar para dominar é a forma de agir do ser humano. Mas se o destino da caça é imutável, o do homem pode mudar. Se a mudança para todos é inimaginável, para grupos menores imaginam-se ideologias possíveis. Para uma família, às vezes, basta um pouquinho de sorte, ajudada por muita força de vontade, muito trabalho e alguma criatividade.

 

O filho de Giuseppe Laitano, meu avô Leonne, pouco me falava da Itália e de seu passado no Brasil. Chegado aqui aos nove anos, pouca coisa deveria lembrar de seu país de origem e não deveria achar que tinha grandes coisas para contar de sua vida de agricultor. Minha mãe, sua filha, me transmitia algumas palavras de “albanês”, que ele ensinava aos filhos e que eu achava muito esquisitas.

 

Desde que mudamos para Sampa em 1952, mamãe, papai, eu e meus irmãos, quase sempre, íamos dois fins de semana ao mês a casa dele. Lá, antes do almoço com toda a família, meu Vô Leão me levava até ao bar da esquina, onde, me deixava dar “uma bicadinha” no conhaque de alcatrão e mel, que era seu aperitivo de fim de semana. Ali aprendi que comer, conversar e brigar, eram partes obrigatórias dos alegres almoços dominicais.

 

Sempre que ele podia, vinha nos visitar trazendo um saquinho de balas de mel para os netinhos. Pouco falava com os cinco netos e quando lhe pedíamos a benção, sentíamos a mão calejada que beijávamos.

 

Sua vida foi dura, mas acredito que tenha sido, na medida do possível, feliz.

 

Mateus Cosentino

Sampa – 09.07.2017

 

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