sábado, 30 de dezembro de 2023

 


E LA NAVE VA

 


Digitalização de desenho a lápis de cor de Mateus Cosentino - 1959

 

                                       "Faça o seu melhor.

  Refaça.

  Retoque

  ainda que imperceptivelmente

  este retoque.

  Ao corrigir minha obra,

  - disse Yeats, -

  corrijo a mim mesmo".

 

                                  Marguerite Yourcenar



 

INTRODUÇÃO

 A maioria dos fatos familiares não consta de documentação escrita. Somente aparecem as grandes alegrias, como casamentos, nascimentos e aniversários, geralmente registrados com fotografias sem legenda. As tristezas dolorosas, como mortes doenças e tantas dores menores e até os “podres”, sempre que possível são escondidos e não exibidos fora do âmbito familiar.

Os registros mais abundantes na vida das famílias são cartoriais, obrigatórios no correr de toda a nossa existência. Também os fatos comerciais, como registros de firmas, correspondência, falências e até notas fiscais de compra e venda, registram uma parte diferente da história familiar.

 s sentimentos pessoais ficam permanentes apenas nas cartas familiares que antigamente tinha-se o costume de guardar.

 

Reconstruir uma história familiar é, acima de tudo, fazer um esforço de recordar o que trazemos na memória, que é sempre falha e parcial. Para dar continuidade às lembranças, é preciso usar muita imaginação.

 

Portanto contar uma história familiar é trabalho semelhante ao do arqueólogo. A partir de uma pequeníssima quantidade de “ossos”, tem que se usar todo engenho, arte e imaginação para apresentar o esqueleto completo do “dinossauro”.

 

Os poucos fatos de que dispomos, sejam em documentos ou na lembrança, servem de guias de ligação entre cada um deles e que podem nos levar a erros. Por isso, acima de tudo recriar nossa história familiar é mais um ato de amor do que uma biografia factual.

 

Logo na primeira tentativa, percebi as grandes lacunas de fatos, que impediriam uma ligação entre um e outro. Então imaginei enriquecer a narrativa preenchendo-a com o entorno histórico e cronológico do ambiente em que tentava recriar a vivência de meus familiares.

 

Minha “História Familiar” seria uma história composta de fatos verídicos da família e também de fatos históricos. Considerei ser necessária a inserção no contexto familiar, de fatos da historiografia documentada, mas mesmo assim a obra não seria definida como documentário e sim como obra de ficção. Porque, quando os inevitáveis “buracos negros” que aparecerem na narrativa familiar, não puderem ser preenchidos pela história oficial, ali será inserida uma narração criada pela imaginação. Só com esse procedimento seria possível dar uma lógica continuidade episódica à narração literária.

 

Espero que ninguém procure estabelecer o que é real e o que seja ficção no decorrer dessas páginas. Recomendo que se aceite tudo como “autoficção” e não como simples biografia.

 

NOTA:

Os textos em “italiano” estão escritos como o menino Mateus os ouvia de seus parentes ao falarem, misturando-os ao português e mesmo ao “caipirês”.

 

 

 

 

 

AGRADECIMENTOS

 

O amor que me faz escrever surgiu ao tomar conhecimento da completa coleta de documentação existente nos “baús” familiares, pacientemente arquivados por minha irmã Maristela Cosentino Liberato. Sem essa preciosa coletânea feita por minha irmã, nem teria tido a ideia de contar a história de nossas famílias.

 

Devo também ao meu irmão Antônio Mansueto Cosentino, minha introdução em 1987, à informática, pois quando viu escrevendo meus garranchos em um caderno, imediatamente colocou diante de mim um micro computador Exato Pró da Apple e o aplicativo CCE Super Texto. Além disso, deu-me auxílio técnico e científico para o aprendizado e manutenção do equipamento. O mano Márcio Cosentino permitiu a impressão de todo meu trabalho nos computadores da empresa onde trabalhava. Mauro Norberto Cosentino, outro irmão, juntou seu o interesse, incentivo e apoio aos que recebi de toda a família.

 

Mariana Laitano Cosentino, nossa mãe, então com 70 anos, foi preciosa fonte de informações, durante os onze meses que passei escrevendo os dois volumes do livro Mansueto, Mariana & Cia. Ltda., terminado em dezembro de 1988 (e com tiragem de 6 unidades).

 

Essa primeira versão da história familiar foi composta por transcrição de documentos, correspondência e memórias de família, intercalados por textos, devidamente destacados, das seguintes fontes:

 

1.     Jornal Cidade de Taquaritinga, Edição Especial nº 4791, Comemorativa do Centenário, de 01 de janeiro de 1981.

2.     Francisco de Assis Silva, História do Brasil: Império e República, Editora Moderna Ltda. – 1988.

3.     Coleção Nosso Século, 1900 a 1980 – em dez volumes da Editora Abril Cultural – Edição exclusiva para o Círculo do Livro – 1986.

4.     Enciclopédia Abril, Editora Abril Cultural- 2ª edição de 1976.

 

Como pode ser verificado, na época já havia computador, mas ainda não dispúnhamos da Internet.

 

Mansueto, Mariana & Cia. Ltda. foi apenas uma compilação de documentos de família e de fatos históricos relevantes que dariam a ambientação e cronologia aos fatos familiares. Esse trabalho foi feito para servir de base para uma futura “romanceação” da história familiar. Passaram-se dezessete anos de pesquisas ocasionais, até que em 2005 iniciei esta Piccola Storia de Família, com muitas interrupções e novos recomeços.

 

Nesse período realizei algumas visitas ao Museu da Imigração do Estado de São Paulo, localizado na sede da extinta Hospedaria dos Imigrantes, na Rua Visconde de Paranaíba, 1316, no tradicional bairro da Mooca, na cidade de São Paulo. Ali encontrei riquíssimas informações sobre a imigração das famílias Cosentino, Ielpe, Laitano e Cozza, além de diversas informações sobre outras famílias, suas viagens, os passageiros, as chegadas dos navios e tantas coisas mais.

 

Já no próprio Museu, obtive a informação de que poderia pesquisar os documentos sobre imigração em seu site na Internet. Foi então que o mundo se abriu para qualquer informação que precisasse. A fácil busca de tudo na Wikipédia, a “enciclopédia livre e colaborativa” me permitiu o conhecimento de muitos sites, que relaciono ao fim desta obra.

 

Entre tantas descobertas encontrei o precioso livro de Deliso Villa, de nome Storia Dimendicata, obra mais completa que conheço sobre a emigração italiana.  O livro é editado na Itália pelo Ente Vicentine nel Mondo. Entrei em contato com o editor para comprar o livro e fui informado que não estava a venda, era distribuído gratuitamente. Solicitei-o e pela simpatia e presteza com que fui atendido, pareceu-me que ficaram contentes em enviá-lo para o Brasil, tanto quanto eu que agradeço esse belo presente.

 

Em novembro de 2008, pesquisando na Wikipédia o tópico “Lauria”, uma pequena cidade no sul da Itália de onde vieram meus parentes Cosentino, encontrei entre algumas informações, a parte de um ensaio intitulado “Massacro a Lauria, la resistenza antigiacobina in Basilicata tra 1799 e 1806”. Tratava-se de uma reconstrução detalhada dos acontecimentos que se sucederam na cidade, durante a ocupação do Reino das Duas Sicílias pelas tropas jacobinas enviadas para exportar os princípios da Revolução Francesa. Partindo de documentos históricos não publicados, trazia uma revolta envolvendo diretamente camponeses, soldados, religiosos e intelectuais em uma luta de violentas consequências.

 

Pela importância que dei ao texto e para meu melhor entendimento, traduzi-o para o português e o enviei por e-mail ao autor, para saber sua opinião, esperando que o aprovasse. Explicava que a tradução visava introduzir naquele evento histórico como início da saga familiar um verdadeiro Cosentino, antepassado, que realmente viveu em Lauria, em 1.806. A busca pela Internet, não encontrou este “elo perdido”. (Posteriormente soube da participação de um padre com meu sobrenome Cosentino.)

 

Desde então eu e o autor do livro, Antonio Vito P. Boccia nos tornamos muito bons amigos através de Rede Social. Sempre cordial e solícito amigo, o Advogado Boccia nasceu em Nápoles em 1966 e por alguns anos residiu em Lauria. Estudioso apaixonado da história local escreveu diversos ensaios e artigos. Sua colaboração para comigo tem sido até hoje muito preciosa com ensinamentos sobre a História e Geografia Italianas, com ênfase na cultura do “mezzogiono” e na língua e dialetos falados desde Nápoles até a Sicília. Seu sólido conhecimento tem sido fundamental para minhas pesquisas sobre a terra natal dos meus antepassados. Tenho, portanto muito a agradecer por sua amizade, colaboração e até mesmo por ter me transformado em “tifoso” do futebol do Napoli.

 

A outro aficionado por História, o pesquisador Milve Peria, devo tanta informação sobre minha família e da cidade em que moraram por tantas décadas, que talvez devesse lhe dar coautoria nesta obra.

 

Milve atuou durante vários anos como professor universitário em São Paulo, na área de comércio exterior, na Fundação Getúlio Vargas, na Universidade São Judas Tadeu e nas Faculdades Tibiriçá. Foi também funcionário do Banco do Brasil Tem dois livros publicados, na área de câmbio e comércio exterior. Já em sua cruzada pela preservação da memória de Taquaritinga, escreveu um livro que conta a história da Matriz de São Sebastião.

 

Há muitos anos, Milve Peria se interessa pela História e, mais do que isso, se empenha em registrá-la em seu site “Nossa Taquaritinga” e nas 324 páginas de seu livro “Taquaritinga História e Memória”. Nessas excelentes publicações, ele reúne textos que contam com precisão documentada a trajetória histórica, politica e social do município de Taquaritinga. Em Nossa Taquaritinga, Milve disponibiliza minunciosamente fatos em ordem cronológica, começando na metade do século XIX, até nossos dias. Nesse site encontrei inúmeras referências aos Cosentino, que coletei, assim como me apropriei de algumas passagens da história taquaritinguense para coloca-las como partes da minha história.

 

Devo, portanto prestar minha agradecida e sincera homenagem ao Professor Milve Peria e ao seu site Nossa Taquaritinga. Não posso também deixar de citar dois ilustres colaboradores do site de Peria: Arnaldo Ruy Pastore e José Romanelli.

 

Mateus Cosentino

Sampa – 25.07.2017

Licença Criativa - Esta obra está licenciada para Mateus Cosentino. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

 

 

 


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