E LA NAVE VA
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Digitalização de desenho a lápis de cor de Mateus
Cosentino - 1959 |
Refaça.
Retoque
ainda que imperceptivelmente
este retoque.
Ao corrigir minha obra,
- disse Yeats, -
corrijo a mim mesmo".
Marguerite
Yourcenar
INTRODUÇÃO
Os registros mais abundantes na vida das famílias são cartoriais, obrigatórios no correr de toda a nossa existência. Também os fatos comerciais, como registros de firmas, correspondência, falências e até notas fiscais de compra e venda, registram uma parte diferente da história familiar.
Reconstruir uma história
familiar é, acima de tudo, fazer um esforço de recordar o que trazemos na
memória, que é sempre falha e parcial. Para dar continuidade às lembranças, é
preciso usar muita imaginação.
Portanto contar uma história
familiar é trabalho semelhante ao do arqueólogo. A partir de uma pequeníssima
quantidade de “ossos”, tem que se usar todo engenho, arte e imaginação para
apresentar o esqueleto completo do “dinossauro”.
Os poucos fatos de que
dispomos, sejam em documentos ou na lembrança, servem de guias de ligação entre
cada um deles e que podem nos levar a erros. Por isso, acima de tudo recriar
nossa história familiar é mais um ato de amor do que uma biografia factual.
Logo na primeira tentativa,
percebi as grandes lacunas de fatos, que impediriam uma ligação entre um e
outro. Então imaginei enriquecer a narrativa preenchendo-a com o entorno
histórico e cronológico do ambiente em que tentava recriar a vivência de meus
familiares.
Minha “História Familiar”
seria uma história composta de fatos verídicos da família e também de fatos
históricos. Considerei ser necessária a inserção no contexto familiar, de fatos
da historiografia documentada, mas mesmo assim a obra não seria definida como
documentário e sim como obra de ficção. Porque, quando os inevitáveis “buracos
negros” que aparecerem na narrativa familiar, não puderem ser preenchidos pela
história oficial, ali será inserida uma narração criada pela imaginação. Só com
esse procedimento seria possível dar uma lógica continuidade episódica à
narração literária.
Espero que ninguém procure
estabelecer o que é real e o que seja ficção no decorrer dessas páginas.
Recomendo que se aceite tudo como “autoficção” e não como simples biografia.
NOTA:
Os textos em “italiano”
estão escritos como o menino Mateus os ouvia de seus parentes ao falarem,
misturando-os ao português e mesmo ao “caipirês”.
AGRADECIMENTOS
O amor que
me faz escrever surgiu ao tomar conhecimento da completa coleta de documentação
existente nos “baús” familiares, pacientemente arquivados por minha irmã Maristela
Cosentino Liberato. Sem essa preciosa coletânea feita por minha irmã, nem teria
tido a ideia de contar a história de nossas famílias.
Devo também
ao meu irmão Antônio Mansueto Cosentino, minha introdução em 1987, à
informática, pois quando viu escrevendo meus garranchos em um caderno,
imediatamente colocou diante de mim um micro computador Exato Pró da Apple e o
aplicativo CCE Super Texto. Além disso, deu-me auxílio técnico e científico
para o aprendizado e manutenção do equipamento. O mano Márcio Cosentino
permitiu a impressão de todo meu trabalho nos computadores da empresa onde
trabalhava. Mauro Norberto Cosentino, outro irmão, juntou seu o interesse, incentivo
e apoio aos que recebi de toda a família.
Mariana
Laitano Cosentino, nossa mãe, então com 70 anos, foi preciosa fonte de
informações, durante os onze meses que passei escrevendo os dois volumes do
livro Mansueto, Mariana & Cia. Ltda., terminado em dezembro de 1988 (e com
tiragem de 6 unidades).
Essa
primeira versão da história familiar foi composta por transcrição de
documentos, correspondência e memórias de família, intercalados por textos,
devidamente destacados, das seguintes fontes:
1.
Jornal Cidade de
Taquaritinga, Edição Especial nº 4791, Comemorativa do Centenário, de 01 de
janeiro de 1981.
2.
Francisco de
Assis Silva, História do Brasil: Império e República, Editora Moderna Ltda. –
1988.
3.
Coleção Nosso
Século, 1900 a 1980 – em dez volumes da Editora Abril Cultural – Edição
exclusiva para o Círculo do Livro – 1986.
4.
Enciclopédia
Abril, Editora Abril Cultural- 2ª edição de 1976.
Como pode ser verificado, na época já
havia computador, mas ainda não dispúnhamos da Internet.
Mansueto, Mariana & Cia. Ltda. foi
apenas uma compilação de documentos de família e de fatos históricos relevantes
que dariam a ambientação e cronologia aos fatos familiares. Esse trabalho foi
feito para servir de base para uma futura “romanceação” da história familiar.
Passaram-se dezessete anos de pesquisas ocasionais, até que em 2005 iniciei
esta Piccola Storia de Família, com muitas interrupções e novos recomeços.
Nesse período realizei algumas visitas
ao Museu da Imigração do Estado de São Paulo, localizado na sede da extinta
Hospedaria dos Imigrantes, na Rua Visconde de Paranaíba, 1316, no tradicional
bairro da Mooca, na cidade de São Paulo. Ali encontrei riquíssimas informações
sobre a imigração das famílias Cosentino, Ielpe, Laitano e Cozza, além de
diversas informações sobre outras famílias, suas viagens, os passageiros, as
chegadas dos navios e tantas coisas mais.
Já no próprio Museu, obtive a
informação de que poderia pesquisar os documentos sobre imigração em seu site
na Internet. Foi então que o mundo se abriu para qualquer informação que
precisasse. A fácil busca de tudo na Wikipédia, a “enciclopédia livre e
colaborativa” me permitiu o conhecimento de muitos sites, que relaciono ao fim
desta obra.
Entre tantas descobertas encontrei o
precioso livro de Deliso Villa, de nome Storia Dimendicata, obra mais completa
que conheço sobre a emigração italiana.
O livro é editado na Itália pelo Ente Vicentine nel Mondo. Entrei em
contato com o editor para comprar o livro e fui informado que não estava a
venda, era distribuído gratuitamente. Solicitei-o e pela simpatia e presteza
com que fui atendido, pareceu-me que ficaram contentes em enviá-lo para o
Brasil, tanto quanto eu que agradeço esse belo presente.
Em novembro de 2008, pesquisando na
Wikipédia o tópico “Lauria”, uma pequena cidade no sul da Itália de onde vieram
meus parentes Cosentino, encontrei entre algumas informações, a parte de um
ensaio intitulado “Massacro a Lauria, la resistenza antigiacobina in Basilicata
tra 1799 e 1806”. Tratava-se de uma reconstrução detalhada dos acontecimentos que
se sucederam na cidade, durante a ocupação do Reino das Duas Sicílias pelas
tropas jacobinas enviadas para exportar os princípios da Revolução Francesa.
Partindo de documentos históricos não publicados, trazia uma revolta envolvendo
diretamente camponeses, soldados, religiosos e intelectuais em uma luta de
violentas consequências.
Pela importância que dei ao texto e
para meu melhor entendimento, traduzi-o para o português e o enviei por e-mail
ao autor, para saber sua opinião, esperando que o aprovasse. Explicava que a
tradução visava introduzir naquele evento histórico como início da saga
familiar um verdadeiro Cosentino, antepassado, que realmente viveu em Lauria,
em 1.806. A busca pela Internet, não encontrou este “elo perdido”.
(Posteriormente soube da participação de um padre com meu sobrenome Cosentino.)
Desde então eu e o autor do livro, Antonio
Vito P. Boccia nos tornamos muito bons amigos através de Rede Social. Sempre
cordial e solícito amigo, o Advogado Boccia nasceu em Nápoles em 1966 e por
alguns anos residiu em Lauria. Estudioso apaixonado da história local escreveu
diversos ensaios e artigos. Sua colaboração para comigo tem sido até hoje muito
preciosa com ensinamentos sobre a História e Geografia Italianas, com ênfase na
cultura do “mezzogiono” e na língua e dialetos falados desde Nápoles até a
Sicília. Seu sólido conhecimento tem sido fundamental para minhas pesquisas
sobre a terra natal dos meus antepassados. Tenho, portanto muito a agradecer
por sua amizade, colaboração e até mesmo por ter me transformado em “tifoso” do
futebol do Napoli.
A outro aficionado por História, o
pesquisador Milve Peria, devo tanta informação sobre minha família e da cidade
em que moraram por tantas décadas, que talvez devesse lhe dar coautoria nesta
obra.
Milve atuou durante vários anos como
professor universitário em São Paulo, na área de comércio exterior, na Fundação
Getúlio Vargas, na Universidade São Judas Tadeu e nas Faculdades Tibiriçá. Foi
também funcionário do Banco do Brasil Tem dois livros publicados, na área de
câmbio e comércio exterior. Já em sua cruzada pela preservação da memória de
Taquaritinga, escreveu um livro que conta a história da Matriz de São
Sebastião.
Há muitos anos, Milve Peria se
interessa pela História e, mais do que isso, se empenha em registrá-la em seu
site “Nossa Taquaritinga” e nas 324 páginas de seu livro “Taquaritinga História
e Memória”. Nessas excelentes publicações, ele reúne textos que contam com
precisão documentada a trajetória histórica, politica e social do município de
Taquaritinga. Em Nossa Taquaritinga, Milve disponibiliza minunciosamente fatos
em ordem cronológica, começando na metade do século XIX, até nossos dias. Nesse
site encontrei inúmeras referências aos Cosentino, que coletei, assim como me
apropriei de algumas passagens da história taquaritinguense para coloca-las
como partes da minha história.
Devo, portanto prestar minha agradecida
e sincera homenagem ao Professor Milve Peria e ao seu site Nossa Taquaritinga.
Não posso também deixar de citar dois ilustres colaboradores do site de Peria:
Arnaldo Ruy Pastore e José Romanelli.
Mateus Cosentino
Sampa – 25.07.2017
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