“Uma
Piccola” História de Família
Livro 1 -
Parte 1 - Recomeço
CAPÍTULO
05
- CHE COSA È QUESTO BRASILE?
A
cafeicultura foi sem dúvida uma das causas principais dessa emigração
localizada. Entretanto para quem se importa em saber todas as causas que
fizeram milhões de italianos terem preferido emigrar para o Estado de São
Paulo, essa explicação, por si só, não basta.
Por
isso, sinto-me obrigado a dar maior amplitude aos fatos históricos que
transformaram a rubiácea no chamado de “ouro verde” do Brasil e que atraiu para
as terras paulistas, uma enorme parte de imigrantes.
Teremos
que fazer aqui uma pausa e retornar no tempo para dar as devidas informações
que tentarão explicar porque, neste início do Século XXI, um terço da população,
ou seja, cerca de 13.000.000 de habitantes do Estado de São Paulo, é composta
por descendentes da velha Itália. “Tutti quanti oriundi”.
Essa
história começa muito antes da grande imigração europeia da qual estamos
tratando. Foi no longínquo ano de 1727 que o café chegou ao Brasil, vindo da
Guiana Francesa. Já naquela época, essa planta de origem árabe, tinha um bom
valor comercial. Dizem as más línguas que, provavelmente em troca de certos
favores extraconjugais, a esposa do Governador de Caiena deu as primeiras mudas da rubiácea ao jovem
Palheta, Sargento-mor brasileiro, que as
levou ao Estado do Pará. Porém passaram-se mais de cem anos para o café se
tornar o fabuloso “ouro verde”, quando ao mesmo tempo, na Europa, acontecia o
grande êxodo da emigração.
Focando
especificamente a Itália, de onde partiram meus familiares, vamos encontra-la,
desde a segunda metade dos 1800, vivendo uma fase agitada por batalhas de
unificação do país. Além disso, sofria a invasão austríaca e napoleônica. E
para piorar, nos últimos anos daquele século, iniciou a desastrosa aventura de se
lançar em conquistas coloniais na África, em busca de um “espaço vital”,
necessário para suprir de matérias primas a sua tardia industrialização. Esse
foi o momento histórico em que obrigou milhões de pessoas se dispersaram por
todos os cantos do planeta, compelidos a deixar o seu próprio país em busca de melhorar
a vida em outros.
Enquanto
isso, no outro lado da corrente migratória, o Brasil, desde 1870, vivia a
chamada “Paz do Segundo Império”. No reinado de Dom Pedro II, o país vivia uma
das fases mais prósperas de sua História. Foram nesses anos, que as exportações
de café geraram uma estabilidade econômica nunca vista anteriormente. Isso
propiciou uma relativa, mas constante pacificação política, com os aristocráticos
Partidos Liberal e Conservador se revezando no poder até 1.889, quando o
Império acabou e começou a República.
A difícil
paz desse Segundo Império foi conquistada apesar de algumas revoltas pipocando no
território nacional e no exterior. Entretanto, a maior e mais profunda guerra
em que o país se envolveu, ocorreu nesse período. Como era usual, o
envolvimento do Brasil nessa luta
externa, se deve aos interesses econômicos coloniais que os ingleses sempre
tiveram na América do Sul. Neste caso em particular pela rica região da bacia do
Rio Prata, onde a Inglaterra fomentava várias revoltas localizadas, para manter
sua proeminência mercantil. Assim, começou em 1864 e terminou em 1870, o maior envolvimento
brasileiro em todas as guerras de que participou: A Guerra do Paraguai com a
Tríplice Aliança, formada pelo Brasil, Argentina e Uruguai.
Naquela
época o Paraguai era a única nação platina que havia conseguido escapar do
domínio inglês, adotando um modelo econômico nacionalista, eficiente e moderno.
Entretanto, para poder se manter nacionalista, precisava impedir a entrada do
capital estrangeiro, principalmente o da grande nação britânica.
O resultado dessa guerra foi
praticamente a aniquilação do Paraguai. Destruindo-se o único polo nacionalista
eficiente da América Latina, da segunda metade do Século XIX. O único capaz de
ameaçar a secular colonização mercantil inglesa. Portanto, a única vitoriosa dessa
luta cruel foi a Inglaterra.
Se
nos detivemos em detalhes da Guerra do
Paraguai, foi para destacar que seus desdobramentos políticos e culturais no
Brasil, foram muito grandes, influindo decisivamente na Abolição da Escravidão
e na Proclamação de República. O exército brasileiro saiu da guerra, forte e modernizado,
exigindo a sua participação no poder. Tornou-se
também o grande incentivador da abolição, pois grande parte do contingente
brasileiro que lutou na guerra era composta
por negros, que se alistaram para deixar de ser escravos. E mesmo que os
inimigos e até os aliados os chamassem de “macaquitos”, lutaram como cidadãos e
morreram heroicamente por um país que os escravizava e nem lhes dava a condição
de seres humanos.
Portanto,
todas as transformações ocorridas na economia na sociedade e na política
brasileira, foram estimuladas em consequência dessa violenta guerra. O Brasil
foi um dos últimos países americanos a abolir a escravidão de vez, porém foi
exatamente esse atraso que acabou por abrir as portas na hora certa, para a
grande onda de imigração aos cafezais carentes de mão de obra das fazendas
paulistas.
A Abolição da escravidão
brasileira foi gradativa e relativamente pacífica. Oficialmente ocorreu em 13
de maio de 1.888, com assinatura da Princesa Isabel na Lei Áurea, mas então já
pouco restava da escravidão. Entretanto essa lei deu motivo para os cafeicultores
e os militares se unirem um ano depois e sem precisar dar nenhum tiro, proclamarem
a República. Entretanto, os militares pretendiam criar um regime autoritário - a
República da Espada - enquanto os fazendeiros sonhavam com uma República
Federalista, com os Estados controlando sua própria administração e economia.
Mas
apesar dessas intenções conflitantes e de algumas quarteladas, o Brasil
continuou a crescer, se urbanizar e se modernizar. Ainda que dependente do capital e tecnologia inglesa, a
nação brasileira construía estradas de ferro, implantava o telégrafo, ampliava a navegação a vapor, construía
vários estaleiros e, resultante a esse progresso, surgia uma crescente classe
média urbana.
Enquanto isso, na
Itália e em geral na Europa, se vivia situações de guerra, miséria e pressão
para que gigantescas levas de habitantes abandonassem seus países. No Brasil e
em geral nas Américas, surgia uma enorme necessidade de ocupação de mão de obra
para substituir a dos escravos libertos.
Foi, portanto esse o quadro que transformou os cafeicultores paulistas,
na principal força propulsora da imigração,
financiando a vinda de famílias europeias por sua própria conta. A imigração gerou um enorme desenvolvimento
da cafeicultura, fez surgir de 1891 a 1900 - em uma só década – quarenta e uma
cidades no interior de São Paulo e criou um novo setor da aristocracia; o dos “Barões
do Café”.
Por outro lado, os escravos foram libertados, mas sem lhes ser dadas condições
de sobrevivência. Antes mesmo da Abolição, não foram poucos os que, por falta
de opções, se reuniram em terras desabitadas, formando quilombos tolerados, ou
mesmo não descobertos. Muitos foram parar em locais urbanizados onde foram
empregados em serviços de baixa qualificação, ou como serviçais domésticos.
Mas com predominância de imigrantes europeus, uma grande parte de
ex-escravos não abandonou as fazendas após a abolição e passou a trabalhar ao
lado de um também significativo número de
trabalhadores brasileiros livres e podres, incluindo brancos e mulatos, todos
competindo no plantio e colheita do café. A convivência de ex-escravos, caboclos
brasileiros e imigrantes italianos, não poderia deixar de amplificar as
diferenças entre cada grupo. E quando as diferenças provocam diversas formas de
pagamento e de tratamento, sempre é gerado o preconceito.
Os próprios cafeicultores já demonstravam sua preferência pelos
imigrantes, em relação aos trabalhadores brasileiros de qualquer etnia, que eram
associados pelos patrões como indolentes e preguiçosos, portanto a trabalho inferior
ao do europeu.
Até mesmo a escolha dos italianos, espanhóis e portugueses, “brancos e
católicos”, foi facilitada não só para preencher “com maior qualidade” a mão de
obra necessária, mas também por conotações racistas. Na época isso parecia ser
muito importante. Setores das elites dominantes pretendiam “esbranquiçar” a
população brasileira, grandemente constituída
por negros e pardos, descendentes daqueles escravizados por séculos,
violentamente arrancados da África nas centenas de navios negreiros.
Tais conceituações pejorativas surgidas no final do Século XIX deram
inicio a preconceitos que perduram no
Brasil. Assim, até os dias atuais, em momentos de confronto verbal, os
descendentes de italianos são chamados de “carcamanos”, talvez pelo “método” brutal
com que os primeiros imigrantes “educavam” seus filhos, batendo sempre, isto é,
“carcando as mãos”. Também ainda os chamam de “porcos”, ou porque os imigrantes
não tinham mesmo bons hábitos de higiene, ou porque xingavam sempre usando essa
palavra, como; “porco canne”, “porca miséria”, “porca Madonna” e outros. Por
sua vez os italianos brindavam os negros chamando-os de “tiçunos” (pretos como
tição), ou o sempre presente “macaco”. Negros e italianos eram tratados assim.
E os brancos e pardos pobres que conviviam com eles no trabalho?
Se os patrões já os achavam preguiçosos, o xingamento só podia ser
através de palavras como “vagabundo”. Ouvi parentes meus contarem como sendo
uma grande piada, que estes últimos, sempre davam a mesma desculpa para não se
esforçar no trabalho. Contavam que como
eram sempre indolentes, quando advertidos pelo capataz, argumentavam: “Calma
que o Brasil é nosso...”, ou seja, “os negros e italianos que trabalhem, pois
aqui é nossa terra”.
Lembro-me que ouço, por toda parte, essas manifestações de preconceito
verbal, desde que me entendo por gente e até hoje neste Século XXI.
Mas, mudando um pouco de assunto, em 1902, quando meus últimos parentes
chegaram ao Brasil, já estávamos em meio a diversas crises do café. O Brasil
era ainda o maior produtor de café do planeta. Só que produzíamos mais que o
mercado mundial podia comprar. A superprodução fazia o preço internacional do
produto, entrar em declínio. Foram diversas essas crises, com fazendeiros, Estados e até o país, sendo atingidos.
O país não conseguia exportar suficientemente em moeda estrangeira para
honrar seus compromissos. Os cafeicultores não saldavam suas dívidas, não pagavam
os bancos e comerciantes. Geravam-se verdadeiras ondas de inadimplências,
insolvências e falências. Essas crises eram sanadas parcialmente até surgir
outra. Isso perdurou por toda a “República Velha” e só foi abrandada por volta
dos anos ao redor de 1945, com a compra de milhares de sacas de café pelo
governo, que eram queimadas para reduzir as superproduções. Mas, naquele começo
de século, o Brasil já ia perdendo o monopólio da produção do “ouro verde”, levado
pelos ingleses, para os países do Caribe.
Como se pode deduzir, por mais de uma década, desde o fim da monarquia
em 1889, a República proclamada, sem nenhuma participação popular, foi uma
sucessão de erros e disputas entre os militares e elites civis. Desses
confrontos resultaram em tão má administração do Governo que, a dívida
brasileira, não tinha nenhuma condição de ser saldada e, portanto era sempre “rolada”,
contraindo novos empréstimos. Contínuas emissões de moeda, para financiar
revoltas, quarteladas e especulação de todo o tipo, geravam uma inflação
descontrolada.
Todos esses fatores somados acabaram por reduzir drasticamente o número
de imigrantes. Mas Matteo, apesar da crise do café e da bagunça republicana, trouxe a família para “il Brasile” em 1902.
Ele não vinha para ser agricultor e nem ligava para as notícias de crise nas
fazendas de café. Vinha juntar-se aos seus irmãos que já eram donos de negócio
próspero em “San Paolo”. Só não entendia e reclamava por ele ter de pagar sua
viagem, enquanto seus irmãos, há cinco anos atrás, “não pagaram nada”.
Se tivesse o hábito de ler jornal, saberia que, há apenas dois anos, já aparecia na imprensa italiana notícias sobre
as péssimas condições de vida dos emigrantes italianos no Brasil. Mostravam que
eles não podiam abandonar as fazendas de café onde trabalhavam, porque tinham
dívidas a pagar pela compra de alimentos e ferramentas, além e principalmente das
relativas ao pagamento dos custos de suas viagens “grátis” aos trópicos.
Foi exatamente por tomar conhecimento dessas informações da situação da
maioria dos imigrantes no Brasil, que em 1901, que o Governo italiano
emitiu uma lei sobre emigração, visando
tentar acabar com o então chamado "tráfico de carne humana", prática usual
entre “agentes inescrupulosos que atuavam cooptando os emigrantes”.
Além de terminar com o financiamento das viagens, essa nova lei criou
Casas de Emigrantes nas cidades de embarque, responsabilizou as companhias de
navegação pelo tamanho dos dormitórios, pela alimentação e condições de saúde proporcionada aos emigrantes durante a
viagem. Também impôs a criação de albergues nos portos de partida
e de chegada ao destino, para dar devida assistência aos que migravam.
Mas a Lei foi mais além. Visando a eliminação do verdadeiro roubo
praticado pelos "Bancos de Paesanos", nos quais os emigrantes
confiavam, proibiu que a remessa de moeda e de poupança dos emigrantes se
fizesse através desses estabelecimentos. Evidentemente essa medida não levou em
consideração, o fato de que nenhum dos viajantes confiava nas boas intenções de
um governo que nunca lhes dera grande atenção. Portanto, não é de se estranhar que muitos tenham levado suas
economias para a América escondidas das autoridades. Matteo, provavelmente foi
um deles.
Apesar de toda essa regulamentação, aparentemente não houve muitas
melhorias no tratamento dado aos imigrados no Brasil. Então, para evitar que
seus cidadãos se mantivessem presos por dívidas em um regime de semiescravidão,
o Governo da Itália emitiu em 1902, outra lei. Agora finalmente proibia a
emigração subsidiada de cidadãos italianos para o Brasil. Com isso, a primeira
consequência foi que o fluxo de emigração diminui bruscamente. Afinal com que
recursos os pobres emigrantes italianos que quisessem ir para o Brasil, teriam
para pagar do próprio bolso sua própria passagem?
Sem conhecer todas essas notícias
dos jornais italianos, Matteo não podia mesmo saber a razão de agora ele ter de
pagar o vapor que o levava, através do Oceano Atlântico para seu novo destino. Matteo
era um dos poucos que tinha recursos suficientes para pagar. Mas, mesmo assim,
ele jamais viajaria se seus irmãos já não estivessem bem estabelecidos por lá.
Não quis aceitar explicações. Pagou, mas não parou de xingar “tutti quanti
maledeti” que ficaram esperando justo na hora dele partir para mudar as regras
e fazê-lo gastar o que não estava previsto.
Enquanto as leis
instituídas na Itália, praticamente nada mais fizeram do que reduzir a
emigração, a condição de “escravos brancos” com que os imigrantes eram
colocados, teve como consequência que, após saldarem suas dívidas, grande quantidade
de colonos das fazendas de São Paulo, abandonasse a vida de agricultor. Muitos
que puderam, retornaram à Itália, mas o maior número deles se fixou em centros
urbanos. Esse contingente de ex-agricultores se transformou em empregados do
comércio e operários das indústrias paulistas, principalmente do setor têxtil.
Em 1900 a mão de obra urbana, tanto na capital quanto no interior, era composta
praticamente por imigrantes italianos e ibéricos.
Estima-se que as fábricas e
oficinas de São Paulo tinham em seu quadro de funcionários quase 80% de
italianos. Essa mão de obra estrangeira, necessária às fábricas emergentes, foi
fundamental para seu crescimento, mas lenta e continuamente também deu origem a
um operariado politizado e até com ideias socialistas e anarquistas.
Tais
ideias não chegavam a ser totalmente novidades no Brasil, pois alguns
brasileiros das classes sociais mais ricas estudaram na Europa, onde conheceram
essas “novidades”. Mas filhos que eram da aristocracia então dominante, não tinham a menor intenção de colocar esses
“modernismos” em prática.
E, apesar da aparente resignação da grande maioria dos recém-chegados,
alguns daqueles milhões de trabalhadores silenciosos, paulatinamente foram difundindo
no Brasil urbano, a partir das fábricas, essas “doutrinas exóticas”. Na
formação do movimento sindical brasileiro, os imigrantes trouxeram escondida em
suas mentes, uma bagagem inesperada pela elite rural que os foi buscar.
Porém,
meus parentes, atravessaram o Oceano Atlântico, entre 1893 até 1902, em
modernos navios a vapor, ignorando conscientemente a História e sistematicamente
a Política. Sua motivação de vida era conquistar o “pão de cada dia” com seu
árduo trabalho cotidiano. Viviam para cuidar de sua sobrevivência pessoal e
familiar.
Estávamos
no início do admirável Século da Tecnologia, mas o povo sofrido de meus avôs, não
tinha como se interessar pelo que não o atingia diretamente, ou pelo que não
entendia e nem tinha condições de saber. Não conheciam os “miraculos” do novo século e, quando diante
de algum que lhes contavam, tendiam a não acreditar, ou nem se importar com ele.
Tanto
era assim que, Matteo ainda se surpreendia ao chegar ao porto de Santos e
perceber que estava diante de uma cidade moderna e de um porto cercado de progresso.
Esperavam desembarcar em uma floresta e não em uma outra civilização...
- “Ma che cosa è questo Brasile? Che paese è
questo? Non si puoi capire”.
Era
sempre assim, todos os imigrantes recém-chegados se surpreendiam, porque nada sabiam
sobre o que iriam encontrar, além do que prometiam os folhetos dos agentes que os
convocavam para emigrar. Esperavam encontrar enormes fazendas cafeeiras e não a
modernidade que viam no desembarque e ficavam sem poder entender a diferença
entre o que esperavam ver e o que viam.
Sabiam
que o Brasil era enorme, mas nem poderiam ter noção de que essa modernidade
urbana brasileira era então restrita a uma determinada faixa litorânea ao longo
dos três mil quilómetros de costa, onde a civilização portuguesa gerou sua
colonização. E mesmo nessa faixa restrita, o crescimento econômico e a modernidade, foram muito mais intensos
apenas nos últimos cinquenta anos do Século XIX, quando o Brasil era um país de
dezessete milhões de habitantes, dois terços dos quais vivendo no campo. Somente
ao adentrarem uns quinhentos quilómetros para o interior, é que essa “brava gente” encontraria a imensa
floresta esperada que ocupava 80% de todo o território nacional.
Tudo já estava combinado há
algum tempo, através do fluxo de cartas entre os Cosentino de cá e os de lá,
que levavam quase dois meses para chegarem ao destino. Um navio a vapor levava
a metade desse tempo para atravessar o Atlântico levando a correspondência,
porém os correios levavam quinze dias no Brasil e outros quinze na Itália,
levando por terra as notícias escritas com tanta dificuldade até as pequenas
cidades interioranas de onde partiam e para onde chegavam as cartas. Com
essa velocidade, eram trocadas, no
máximo, seis cartas ao ano. Já havia o telégrafo, mas nele só se colocava
poucas palavras e muito dinheiro.
Mas assim como para tantos
outros, nada, além de assuntos familiares, interessava a Matteo. Nessas cartas,
seus irmãos somente transmitiam o essencial. Então, ele sabia que desceria num
lugar chamado Santos. Que lá havia um grande porto. Que nesse porto não chegavam
apenas imigrantes, porque era o maior cais de exportação de café do Brasil.
Sabia que de lá, ele e sua família, iriam de trem para ”San Paolo”, onde seu
irmão Giuseppe os esperava. Depois embarcaria em outro trem para uma vila
chamada “Riberanzigno”, seu destino final. Era só o que sabia e era só o que precisava saber.
Para que serviria saber se
as ferrovias eram construídas por uma companhia inglesa chamada São Paulo
Railway, que havia construído várias estações e vias férreas e rasgando o interior do Estado
de São Paulo? Ou se a principal delas era uma tal de Estrada de Ferro Santos-Jundiaí,
construída para subir e descer a Serra do Mar, através de um moderno sistema de
cremalheiras? Ou ainda que houvesse diversas outras linhas férreas com outros
nomes? Qual era a diferença em saber se era a chamada Sorocabana ou a de nome Paulista
que, mais tarde, levaria ele e sua família, até “Riberanzigno”, há mais de
trezentos quilômetros da Capital de São Paulo?
Aos últimos Cosentino a
imigrar, apenas interessava que naquela pequena vila, onde moravam muitos
italianos, reencontrariam “i suoi fratelli”, vendendo muito o macarrão que lá
fabricavam. Isso era tudo o que se precisava saber sobre “quello Brasile”.
- “Mi ne frego. Doppo
vedremo l’altre cose”.
Mateus Cosentino
Sampa – 11.07.2017
Licença Criativa
- Esta obra está
licenciada para Mateus Cosentino.
Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao
autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode
criar obras derivadas.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
O QUE VOCÊ ACHOU?