“Uma
Piccola” História de Família
Livro 1 -
Parte 1 - Recomeço
CAPÍTULO 06 – UE!
PAESANO.
Alguém já presenciou o reencontro de dois italianos que não se viam há muito tempo? “Mama mia” é um escândalo!
Matteo
desembarcou na Estação do Brás, olhou para os dois lados e não viu ninguém
conhecido. Desceu as malas e os demais embrulhos, ajudado pela esposa Antonia e
os filhos Biase e Domenica. Depois ajudou todos a descerem do trem. Quando
segurava o braço de Antonia que descia, ouviu um grito que ecoou por toda a
estação:
- Matteúcho!
Esse
era o nome com que o chamavam em casa. Afobado procurou a origem do eco. Claro,
era o seu irmão Giuseppe.
- Beppe!
Gritou quando o viu, vindo correndo em sua direção.
Correu
também abandonando filhos e mulher. No meio do caminho se encontraram num
abraço estalado sorrido e chorado. Os dois seguravam um a cabeça do outro,
beijavam-se nas faces e só conseguiam dizer:
-
“Fratello mio, fratello mio”.
Assim
ficaram rindo e chorando, até que Antonia e os dois filhos, seguros pelas mãos
dela, chegaram. Beppe, os vendo, afastou-se de Matteo e dizendo; “Dio mio”, se
jogou em direção a eles.
Chorava
mãe, chorava pai, chorava todo mundo, numa alegria só. Pois é, o italiano é o
povo que chora mais na alegria do que na tristeza. Em verdade, Biase e Domenica,
as duas crianças, choravam mais pela dor dos muitos abraços apertados e beijos
molhados que seu tio, ajoelhado, não parava de dar.
Quando
Beppe se cansou do esforço de tanto abraçar
e beijar, ficaram todos por alguns segundos olhando o chão como que
envergonhados com tamanha expansividade e escândalo. Os adultos queriam começar
a falar, mas a cada tentativa um soluço afogava o som das palavras. Aos poucos
foram se acalmando, mantendo sempre um sorriso nos lábios e o olhar baixo.
Juntaram as tralhas e foram se sentar exaustos em um banco próximo.
Beppe
começou a segunda parte do reencontro. Era a hora de perguntar sobre todos os
parentes, amigos e inimigos que ficaram na Itália. Matteo, quase sempre e Antonia,
excepcionalmente, contavam como estavam todos. Depois, era a vez de Matteo e Antonia
perguntarem pelos parentes no Brasil e Beppe responder. Saudades é palavra que
só existe em português, mas o sentimento que a palavra representa é comum a
todos os mortais.
Depois
dessa fase de euforia, estavam todos cansados, sorriam uns para os outros e
suspiravam. Foi o menino Biase quem
trouxe a todos para a realidade.
-
“Babbo, mi sono con fame”.
Todos
olharam para o menino com uma expressão de surpresa. Somente então descobriram
que estavam todos também famintos, até Beppe.
-
“Poi andiamo via! Tutti quanti a mangiare”! Comandou Beppe.
Matteo
achava que antes de qualquer coisa sua família precisava se registrar na Casa
dos Imigrantes e disse isso ao irmão. Beppe riu do irmão.
-
Sua entrada no Brasil já foi registrada no porto de Santos em seus passaportes.
Está tudo certo! Vocês não precisam dar mais satisfações a ninguém. Vocês não têm
dívidas de viagem e nem contrato com nenhum fazendeiro...
-
“Porca misseria, è vero”! Concordou Matteo.
Beppe
contou que com ele e Nicola, o outro irmão deles, não foi assim. As suas
famílias haviam chegado com as dívidas da viagem e com contratos de trabalho por
quatro anos nos cafezais.
-
“Ma siete liberi di tutto questo, fratelo mio. Basta obbedire ai miei ordini e
venire dopo di me”.
Beppe
quis provocar o irmão mais velho, dizendo que ele deveria seguir suas ordens.
Matteo mesmo se sentindo perdido em terra estranha, percebeu a malícia do irmão
e também brincando o empurrou, dizendo:
-
Vai, vai! Andate via mascalzone”!
Riram-se
todos das próprias gaiatices.
Então
Beppe fez-se sério e disse que tinham muito tempo até embarcarem no próximo
trem para Ribeirãozinho, no interior do Estado. Ainda eram onze horas de manhã e o trem partiria
só às nove horas da noite. Tinham, portanto, muito tempo e ele queria mostrar a cidade de São
Paulo para o irmão e família, antes de partirem.
-
“Ma io voglio mangiare”! Reclamou quase chorando o faminto Biase.
Beppe
os levou a uma cantina italiana ali perto. Ele sabia que os recém-chegados
ficariam surpresos, pois mesmo estando em outro país e outro continente longínquo,
comeriam as mesmas pastas que costumavam comer em sua terra natal. Entretanto,
como comer e conversar são a mesma coisa, a conversa animada à mesa, nem os
deixou perceber que o espaguete e as “porpetas” eram iguaizinhas às que comiam
no sul da Itália. Mas estranharam o vinho que foi servido, menos encorpado e
não tão saboroso como os estavam acostumados a beber na Itália. Beppe comandava
e pagava tudo como um bom cicerone.
Saíram
da cantina e tomaram vários bondes puxados por mulas. Apenas um era movido à
eletricidade. Ao subirem no “Elétrico”, Beppe contou que o primeiro bonde implantado
pela Light and Power na capital paulista, foi o da Linha Bom Retiro, inaugurada
há apenas dois anos. Este que pegaram no Largo de São Bento era da Linha São
Caetano inaugurado neste mesmo ano de 1902 em que estavam. E entre pequenos
deslocamentos a pé, iam tomando outros bondes, todos de tração animal. E em
poucas horas conheceram os principais redutos da capital paulista.
O
último local onde foram era um espigão de onde se podia ver quase toda a
cidade. Uma grande avenida havia sido construída e aberta ao público em 1891,
onze anos atrás e já estava repleta de palácios dos Barões do Café. Os recém-chegados
já estavam muito impressionados com a cidade de São Paulo. Nunca viram na Lucânia uma
cidade assim. Eram camponeses e as maiores cidades que conheciam eram Potenza, e
Nápoles. A capital paulista parecia até maior que Gênova, que só conheceram ao embarcarem
no navio.
Beppe
gostava de mostrar que conhecia “tutta la cittá”, embora viesse muito pouco à Capital
do Estado de São Paulo e, cada vez que vinha, a cidade era diferente, pois crescia
sem parar. A maioria dos seus conhecidos vivia nos bairros do Brás, da Mooca e
na vila de São Caetano, mais distante do centro. Quase todos trabalhavam nas
fábricas da região Leste de São Paulo onde moravam. Mas esses bairros eram
feios e sujos e Beppe queria mostrar só os lugares bonitos.
A
Avenida Paulista era o que havia de mais espetacular para ser mostrado. Sua
largura era enorme, as residências suntuosas, as pessoas elegantes em seus
troles e tilburis puxados por cavalos
imponentes. Havia até automóveis circulando com pessoas que pareciam muito
ricas.
Para
provocar Matteo, Beppe apontou sorrindo para a direção do oeste da avenida e
desafiou:
- Por
que você não compra umas terras lá?
Matteo
sentiu a provocação, puxou um saquinho de veludo preto que trazia dentro da
calça amarrado no cinto, sacudiu para demonstrar que tinha “dinaro” suficiente
para comprar o que quisesse, pôs a mão na cintura e concluiu:
- “Ma
que Beppe”, a cidade nunca vai chegar perto desse pé de serra! Não vou comprar
nada nesse mato. Ali é mais inclinado que o sopé das montanhas da nossa terra.
Aqui, não dá para plantar “niente”. Você pensa que sou “fetsa”?
Matteo,
meu avô, tinha razão para achar isso. No início do século a cidade parecia
crescer apenas em direção leste e norte. Mas se tivesse se estabelecido lá,
hoje eu seria um rico herdeiro de terras das mais valorizadas da cidade; os
chamados “Jardins”.
Todos
estavam contentes em saber que no Brasil não havia somente florestas e riam
felizes. Porém já estava ficando tarde, estavam cansados e precisavam voltar à
estação do Brás para tomar mais um trem para o “interiore”.
Então
voltaram à estação do Brás. Enquanto todos esperavam mais esse trem na
plataforma, Domenica, a filha de sete anos de Matteo, viu outra menina da mesma
idade, com uma boneca de pano nos braços, chegar até eles, acompanhada de seus pais, uma irmã e um irmão.
Domenica,
normalmente tímida, perdeu um pouco de sua inibição vendo a outra abraçando
como se fosse um tesouro, aquela bonequinha de pano branco tão comum em sua
terra natal. Sorriu e se aproximou dela. A menininha vendo a aproximação de Domenica
ficou tensa e protegeu a boneca com os braços. Domenica estendeu delicadamente
a mão em direção à boneca. A outra lhe deu as costas. A mãozinha de Domenica
tocou suavemente os braços da dona da boneca. Esta virou rapidamente o rosto e,
como uma cobra num bote, deu uma forte mordida na mão dela.
Domenica,
ao sentir a inesperada dor, deu um grito e começou a chorar. A outra também
entrou no berreiro. Todos os parentes das duas famílias vieram acudir e
conseguiram acalmar as duas. No início houve um certo mal estar entre todos,
mas aos poucos tudo foi entrando nos eixos. Afinal todos falavam quase o mesmo dialeto e estavam na mesma
situação.
Mas
se entreolharam e perceberam que eram diferentes. Enquanto os Cosentino se
vestiam razoavelmente bem, os outros trajavam roupas mais surradas, embora
limpas.
- Cosentino,
apresentou-se Matteo e foi declinando o nome de todos os seus.
- Cozza,
Thomaz, disse o chefe da outra família, apresentando sua mulher Rugiano, Mariana
e os filhos Filomena, Linda e Thomazino.
A
maneira de se vestir já havia dado indícios de diferenças, mas bastaram essas
falas de apresentação para ficarem suficientemente claras as diversas condições
culturais e econômicas das duas famílias.
-
Nos somos de Lauria, distrito de Potenza, Basilicata, completou Matteo.
-
E nós de Civita, distrito de Cosenza, Calábria, concluiu Thomaz.
E
se foram todos conversando até onde havia uns bancos para se sentar. Os Cozza também
não passaram pela Hospedaria dos Imigrantes, embora estivessem indo trabalhar
em uma fazenda de café. Haviam acabado de comer uma comida leve e barata servida
ali na Lanchonete da Estação.
Minha avó materna, Filomena, então com oito anos e Domenica, ficaram o
mais longe possível uma da outra. Filomena tinha um gênio muito forte, tanto
que na família a chamavam de a “capatosta”. Era filha mais velha, nascida em
Cosenza em 17 de março de 1.894 e era apenas alguns meses mais velha que Domenica,
minha tia paterna.
Sempre que me lembro da tia “Domingas”, vejo-a com um sorriso muito
meigo, me trazendo bolachas e refrigerantes com um carinho todo especial. Vovó Filomena
também tratava seus netos do mesmo modo, mas vivia brigando com as filhas e com
o marido. Eu não tinha motivos para isso, mas perto dela ficava sempre meio
temeroso. A imagem mais marcante que guardo dela, é vê-la sentada diante de mim
à mesa, banguela, comendo sanduíche de pimenta malagueta. Ardia tanto que até
saía lágrimas dos seus olhos, mas ela
comia tudo mesmo assim.
Mas
Linda, a outra filha dos Cozza, de seis anos, apesar de sua futura vida triste
que teve no Brasil, era de uma candura tal, de uma tal delicadeza que me
deixava preocupado em machuca-la quando ela me dava seus fortes abraços. Sempre
que ia à sua casa, em “San Gaetano” havia, entre muitos doces, um bolo de fubá
tão delicioso como jamais experimentei igual. Todos nossos parentes eram
italianos e estávamos acostumados com a mania de sempre insistirem para comermos
um pouquinho mais de tudo o que nos serviam. Mas para tia Linda, nunca podíamos
negar. Ela ficava profundamente ofendida se parássemos de comer, enquanto havia
doce. E gente comia até não caber mais, porque tudo o que ela fazia, era uma
delícia.
Foi
tia Linda quem consertou aquela situação
de briga de meninas em 1902. Chegou-se perto de Domenica e a deixou segurar sua
bonequinha branca e limpinha de pano. Quando Filomena viu as duas brincando com
a boneca, ficou morrendo de vontade de se juntar a elas. Mas não se juntou e
nem deixou de continuar com a cara amarrada. Entretanto esse gesto de tia Linda
selou o início de um relacionamento cordial entre ambas as famílias, que durou
uma vida inteira, embora poucas vezes se encontrassem.
Os
meninos Biase e Thomazino, desde que se viram, se deram bem. Corriam pela
plataforma, brincando de alguma coisa barulhenta típica de moleques. Biase nem
se importava pelo fato do outro ser muito mais novo que ele. Era o primeiro
amiguinho que conseguira desde que deixara o navio.
As
esposas Mariana e Antonia – respectivamente minha bisavó materna e minha avó
paterna - sentaram-se lado a lado no banco de madeira, mas permaneciam caladas,
prestando toda a atenção aos seus filhotes. Os adultos masculinos Thomaz,
Matteo e Beppe conversavam animadamente, indo em direção à bilheteria para
comprar as passagens para o mesmo trem noturno.
Thomaz
Cozza contou que nem precisou passar na Casa do Imigrante, porque já estava com
todas as informações e o contrato para ir diretamente à fazenda da alta
araraquarense, onde iria trabalhar na lavoura. Eles já tinham alguns parentes
esperando por eles lá. Ao ver o trem chegando justificou-se, como se fosse
necessário, que ele e sua família viajariam na terceira classe.
-
Como podem modestos lavradores como
somos nós, completou.
Matteo
percebeu que a modéstia de Thomaz, denotava sua percepção de que os Cosentino
iriam viajar nos vagões da segunda classe.
- Ir
de primeira, para que? - brincou Matteo - a segunda classe não é tão má e é
melhor economizar sempre que se pode.
- “Perché”
gastar uma fortuna só para chegar ao mesmo lugar, “non è vero”? Disse Beppe
encerrando o assunto.
Quando
o trem chegou, todos se despediram. Domenica, esquecida da mordida no dedo,
acenou sorridente em despedida para as
novas amiguinhas Linda e Filomena. Esta última, sem levantar a cabeça e olhando
com os cantos dos olhos, só disse “ciao” por entre os dentes, quase com um
sorriso. Foi a primeira palavra que falou desde a dentada.
Ambas
as famílias iam para Ribeirãozinho, mas os Cosentino iriam encontrar uma
estrutura familiar de atividade urbana própria e já pronta. Os Cozza iam encontrar
seus parentes para trabalhar como eles, em fazenda da região, plantando café. E,
além disso, tiveram muita afinidade com outra família, que por lá já vivia há
cinco anos, desde 1.897, os Laitano. Todos já haviam feito o mesmo caminho nos mesmo
bancos de madeira da terceira classe da Companhia Paulista de Estrada de Ferro.
Entretanto,
Laitano e Cozza viveram distantes dos Cosentino, embora a distância física fosse
menor do que a social.
Mas
o que interessa é que já estávamos todos aqui; os Cosentino, os Ielpo, os
Laitano e os Cozza. “Tutti quanti bona gente”!
Mateus Cosentino
Sampa – 12
.07.2017
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