“Una
Piccola” História de Família
Livro 1 - Parte 2 - Recaída
CAPÍTULO 25 – SAIR
DA EXISTÊNCIA PARA ENTRAR NA HISTÓRIA
Uma notícia em destaque vinha publicada no “Bi semanário Independente, impresso em oficinas próprias”, do jornal Cidade de Taquaritinga de 30 de abril de 1936, seu Ano VI:
“Entregou sua alma ao Creador, no dia 27 do corrente, a estimada Sra. Antonia Ielpo Cosentino, antiga moradora desta cidade, natural de Lauria Superiore, Itália, casada com o Sr. Cosentino. A extinta deixa os seguintes filhos; Mansueto, funcionário do Banco Commercio Indústria local; Sra. Domingas, casada com o Sr. Nicola Ordine, residente em São Paulo e; Sr. Braz Cosentino, comerciante, residente em Rio Preto; além de inúmeros sobrinhos e netos. O sepultamento realizou-se no mesmo dia às 14 horas, saindo o féretro, com regular acompanhamento, da sua residência, a Rua Duque de Caxias, 47. A Exma. Família as nossas condolências”.
Foi assim, por essa notícia publicada na quinta-feira, três dias após o acontecimento, que Taquaritinga ficou sabendo da morte de minha avó Antonia, aos 66 anos de idade, em uma segunda-feira, dia 27 de abril de 1936. O que vitimou o falecimento foi um quadro de insuficiência cardiorrenal, conforme atestado da causa mortis assinado pelo Dr. Francisco Arêa Leão. No mesmo dia o corpo foi sepultado no cemitério de Taquaritinga.
No dia 29, o dia anterior ao comunicado do jornal, meu pai já havia publicado um anúncio referente à missa de 7º dia:
“O esposo Matheus e os filhos Braz, Domingas e Mansueto Cosentino, as famílias de Nicola Ordine, Nicola Cosentino, Maria Marinelli, viúva José Cosentino e demais parentes, agradecem sinceramente a todas as pessoas que as confortaram no doloroso transe que tiveram pela morte de sua inesquecível Antonia Ielpo Cosentino e convidam a todos para assistir a missa que mandam celebrar, na segunda-feira próxima, dia 4 de maio, às 8 horas da manhã, na Igreja Matriz local. Por mais esse ato de religião, confessam-se novamente gratos”.
Entre todas as condolências que confortaram a
família, Mansueto separou alguns telegramas vindos de outras cidades. Neles
anotou os endereços dos remetentes para telegrafar de volta em agradecimento. Eram estes:
* Antonio e Família, Praça José Roberto – São Paulo.
* Braz, Eugênio e Sílvio, filhos de
Thereza Cosentino Albanese, Rua Porto Seguro – São Paulo.
* José Lício e Família, Praça José
Roberto – São Paulo.
* José Bruno e Família, Rua Gabriel dos
Santos - São Paulo.
* Rodolpho e Reisoli, Av. Martins Buchard
– Braz – São Paulo.
* Jacy Vieira, Rua Jandaia – São Paulo.
* Família Barone, Rua Santo Amaro – São Paulo.
* Nicola e Família, Rua Rodolpho Miranda
– São Paulo.
* Ítalo Cosentino, filho de José, (sem
endereço) – Centro Paulista.
* “Presto” (sem assinatura), procedência Santo
Anastácio SP.
* Luiz Vieira de Carvalho, Advogado
(cartão de visitas indicando escritórios em Taquaritinga e São Paulo).
* Waldorf Lui enviou um ofício do Imperial Futebol Clube de Taquaritinga, assinando como 1º Secretário.
Diversas constatações encontradas nessa documentação do passamento de minha avó Antonia,são dignas de menção:
ü * O endereço da família constante nos jornais e nos telegramas de pêsames é Rua Duque de Caxias, onde realmente se localizava o terreno de meu avô Matheus, mas a casa de residência, incluída no terreno, ficava na Rua Treze de Maio.
ü * Outro fato a se destacar é que nessas
notícias fúnebres, vem pela vez primeira a informação de que a família de
Nicola Ordine e Domingas Cosentino, já estavam morando em São Paulo.
* Percebe-se que nos agradecimentos das condolências, não constou que Braz já estava casado e nem é citada sua esposa Julieta Marcondes. Como foi relatado anteriormente, no Salvo Conduto dado a Braz, de 14 de dezembro do ano anterior, já constava seu estado civil de casado. Deve-se atribuir esse lapso ao doloroso estado pelo qual passava Mansueto ante a morte da mãe.
ü As várias anotações desses dias atribuídas ao meu pai foram grafadas como; “Mansueto Cosentino Neto”. A adição do inexistente “Neto” ao seu sobrenome, certamente deve ser atribuída a Francisco Júlio Amatuzzi, que pagou algumas custas funerais. Esse Sr., ao se ocupar de documentação, ficou sabendo que o pai da falecida se chamava também Mansueto, então fez essa inesperada homenagem póstuma à família Ielpo.
Antonia Ielpo Cosentino foi inumada na quadra 707 do cemitério, em sepultura reservada para dez anos. Em 1º de julho Mansueto é cobrado pela Empresa Funerária, de Bonasini, Posetti Colombo, pelo “caixão adulto 1ª classe” e por sua condução em enterro. A espera de se passar mais de um mês para a Funerária fazer sua cobrança pode ser atribuída como uma gentileza à família enlutada. Entretanto as Despesas funerais devidas à Prefeitura Municipal de Taquaritinga, foram cobradas em 4 de maio, ou seja, apenas oito dias após o infausto e devem ser atribuídas à insensibilidade burocrática administrativa.
A partir do falecimento de Antonia, sua esposa, Matheus que nos últimos anos, já vinha com a saúde debilitada, ficou então mais abalado ainda, em seus 70 anos. Mansueto, funcionário do Banco Commind, com trabalho cotidiano, é obrigado a encontrar alguém para cuidar do pai durante suas horas de expediente bancário. A pessoa escolhida não foi muito bem aceita pelo velho Matheus e, portanto, o relacionamento entre eles não era muito tranquilo.
Essa situação foi afetando ainda mais a saúde de Matheus, até que pouco mais de um mês do passamento de Antonia, em 1º de junho, com a vacilante concordância do filho Mansueto, Braz levou o pai para morar com ele em Rio Preto. Julieta, a esposa, certamente ajudaria no cuidado do sogro. Doze dias após, sua mudança de domicílio e de cidade Matheus mostra disposição para manuscrever, com letra tremida, uma carta em italiano para o filho caçula que permanecia em Taquaritinga:
“Faz 12 dias que cheguei a Rio Preto e só agora posso escrever. Acontece que dois dias após minha chegada, fiquei com alguma coisa no corpo, por oito dias, que me impediu até de andar. O Braz chamou o médico que receitou remédio e caldo de frango, que me fizeram melhorar. Hoje, pela primeira vez, saí e encontrei o compadre Paulo, que me deu notícias suas Mansonetto. Peço que me dê notícia se recebeu o aluguel da casa. Responda diretamente ao Braz. Agora estou totalmente bem. Saudações aos parentes e amigos. Braz e Julieta enviam saudações. Um abraço e minhas bênçãos. Teu pai”.
No dia seguinte, 13 de junho, provavelmente motivado pelas notícias trazidas pelo “compadre Paulo” e instigado por Braz, meu avô escreveu outra carta:
“Aproveitando a ida do compadre Paulo de Vivo, escrevo novamente para dar notícias. De saúde vou bem, graças a Deus. Soube através de sua ‘sorela’ Domenica, que a Sra. Pepino Ordine irá a Taquaritinga. Peço-lhe que não a deixe entrar em nossa casa! Você tirou o ‘jogo elétrico’? Peço que o tire. Faça-me saber das novidades, se recebeu o aluguel da casa, se pagou todas as despesas do funeral. Novamente, saudações a todos. Saudações do Braz e Julieta também. Um caro abraço e as bênçãos de seu pai. Não se esqueça de que lhe disse para não deixar a Pepino entrar em nossa casa”.
Se a casa da família em Taquaritinga já estava alugada, onde estaria morando Mansueto e como a Sra. Pepino lá entraria? Apesar do sobrenome Ordine, denotando parentesco com Nicola, ex-sócio de Braz e esposo da filha de Matheus, nunca soube com certeza quem era a “Sra. Pepino”. Se esta segunda carta seguiu com portador, deve ter chegado antes da anterior que foi por correio. Porém, parece claro que a solicitação; “responda diretamente ao Braz”, demonstra não somente pouca disposição de saúde, mas também a influência de Braz sobre o pai, que possuía maior autoridade, para escrever a Mansueto.
Menos de um mês após redigir essas duas cartas e exatamente dois meses e doze dias após a morte de Antonia, sua segunda esposa, na quarta-feira, dia 8 de julho, falece em Rio Preto, Matheus Cosentino. No dia seguinte os jornais A Tribuna e Cidade de Taquaritinga noticiam o infausto. O texto a seguir é uma síntese das duas notícias:
“O Sr. Matheus Cosentino faleceu ontem de madrugada em Rio Preto, para onde há pouco tempo tinha transferido moradia, achando-se domiciliado na residência de seu filho Braz. O extinto era antigo morador nesta cidade, onde residiu durante 34 anos. Natural de Lauria, Itália, contava com 70 anos e pertencia à distinta família Cosentino. O saudoso extinto sempre militou no ramo comercial e pelo progresso local, gozando de geral estima, dado o seu fino trato e a bondade de seu coração, motivo porque foi muito sentida a sua morte. Deixa o falecido, os filhos; Braz, comerciante e proprietário em Rio Preto; Exma. Sra. Dona Domingas, residente em São Paulo, esposa do Sr. Nicola Ordine; e o Sr. Mansueto, funcionário do Banco Commercio Indústria local. Era irmão do Sr. Nicola Cosentino, proprietário e industrial nesta cidade, José Cosentino, já falecido e Dona Thereza C. Albanese, tio do Sr. Walter Cosentino, comerciante aqui estabelecido. O Sr. Matheus Cosentino era esposo de Dona Antonia Ielpo Cosentino, falecida nesta cidade há 70 dias. O corpo do querido morto veio transportado de Rio Preto, em carro especial da Estrada de Ferro Araraquarense. O trem chegou às 10:17 horas. O seu sepultamento foi realizado ontem mesmo, saindo o féretro às 17 horas, da Rua Duque de Caxias 47, com numeroso acompanhamento. À Exma. família Cosentino, os nossos sentidos pêsames”.
Entre as muitas condolências recebidas, dirigidas ao endereço residencial e ao de Braz, o filho mais velho, Mansueto, guardou as dirigidas a ele, endereçadas à “Casa Cosentino”, sendo elas: Sylvio Albanese, filho de Tereza; Oswaldo e Ítalo Cosentino, filhos de José; Nicola Bruno e José Bruno, este genro de Nicola Cosentino; Luiz e José Líscio. Todos esses telegramas foram emitidos em São Paulo, “Centro Paulista”, em 8 de julho, com exceção do de Ítalo que vinha de Caraguatatuba, transmitido em 13 de julho. Entre esses telegramas destaca-se uma carta, escrita em italiano pela filha de Thereza, de 68 anos de idade, irmã do falecido:
“Caros primos Biaggio, Manzoneto e Mincheuccia, Deus dê coragem e conformação para suportar a perda de mãe e pai, assim em tão pouco tempo. Nós todos estamos associados nessa dor, principalmente mamãe, que não se conforma de ter perdido a cunhada e dois irmãos, sem poder vê-los ou ir às missas, como seria nosso dever. Não fomos por motivos de muitas complicações. A procura de notícias fui ao correio e encontrei uma carta de Giuseppe, de Rio Preto, me contando da tristeza do Biaggio e Giulieta, sua esposa, que voltaram terça-feira de Taquaritinga, onde haviam ido para assistir a missa. Iremos todos amanhã. Nossas condolências a todos os parentes, particularmente ao tio Nicola e à prima Giulieta, viúva do tio Giuseppe, que Deus lhe retribua o bem e que a resignação seja feita e, querido tio Matteus, nós todos sentimos de coração. A vocês nossos três primos, um afetuoso abraço de todos nós. Mamãe lhes envia a Santa Benção. Antonieta A. Russo, Araraquara, terça-feira 14 de julho de 1936”.
Recentemente obtive o Atestado de Óbito de meu avô Matheus e pude constatar muitas discrepâncias não só com os fatos relatados na noticia do jornal de Taquaritinga, como também em relação aos nomes de família relatados no documento oficial do falecimento de meu avô.
Em 1936, tudo era precário e as necessidades familiares se sobrepunham às administrativas. Na certidão, o óbito de Matheus, ocorrido em Rio Preto na madrugada do dia 7, é declarada erradamente como tendo sido no dia 8 e em Taquaritinga. Tais erros, não foram simples enganos, foram sim devido ao fato de que, por necessidade familiar, o falecido precisaria ser enterrado no dia seguinte em Taquaritinga. Tudo foi feito para evitar demoras da burocracia e seus custos adicionais. Não posso saber como foram resolvidos todos os problemas de documentação, mas é certo que no dia seguinte Matheus foi sepultado em Taquaritinga com todos os documentos necessários.
Afinal qual a importância de dia e local do falecimento de uma pessoa? Importa o que é realmente importante e muitos colaboraram com o que deveria ser feito. Imagino que Mansueto e meu tio Braz se ocuparam com o translado, velório e enterro em sepulcro da família do cadáver trazido em trem desde Rio Preto e que precisava de enterro imediato. Além disso eram necessários e foram conseguidos, o atestado médico de causa mortis e a obtenção de uma Certidão de Óbito, comprovando que a morte ocorrera em Taquaritinga.
Evidentemente tudo foi feito e feito às pressas. E quem foi a Cartório como declarante, foi novamente Francisco Júlio Amatuzzi, que não era da família e já havia colaborado na recente morte da esposa de Matheus. O grande amigo, com muita boa fé, teve que declarar o que sabia e até o que imaginava ser correto. Assim, o confundiram as frequentes mudanças de grafia de nomes feita pelos imigrantes italianos. Mudavam sempre que fosse necessário e proveitoso.
Em consequência de tudo isso, não foram poucas as incorreções encontradas no documento oficial de óbito de Matheus Cosentino, nascido e registrado na Itália como Matteo Cosentino. O sobrenome de sua esposa consta como Ielpa, uma indevida “feminização” do correto Ielpo e do mais usado Ielpe. Além disso, foi intercalado ‘Volante’ como nome do meio dela, o que é pura invenção do bem intencionado declarante. Até o nome do pai do falecido, que nunca saiu da Itália, foi abrasileirado para Braz, quando o certo poderia ser Biase, ou mais corretamente Biagio. Além de tanta discrepância no documento oficial, a morte foi declarada por insuficiência “nitral”, ao invés de mitral. Pois é, esse verdadeiro “embroglio”, me comprova que nem tudo o que é oficial é verdadeiro.
O mais significativo é que cinco anos após o início das dificuldades comerciais, a “distinta família Cosentino“, começava a vivenciar a fase de luto, com o falecimento dos “oriundi” aqui chegados desde quando Taquaritinga ainda era Ribeirãozinho. Em 05 de julho de 1934 a família perdia José, “il capo maggiore”, aos 64 anos. Em 27 de abril, os familiares sofriam a morte de Antonia Ielpo e apenas 72 dias depois, em 8 de julho de 1936, morria o esposo dela, Matheus Cosentino.
Em tão pouco tempo os três filhos do casal viveram momentos de intensa tristeza. Cada um vivia em uma cidade; Braz morava em Rio Preto, Domingas em São Paulo e Mansueto em Taquaritinga. Antonia Ielpo era a segunda esposa de Matheus e Mansueto o único filho dela. A vida não estava sendo de alegria para nenhum dos filhos de Matheus, mas particularmente para Mansueto, estava muito difícil de levar. Aos 28 anos estava vivendo uma época crítica de acontecimentos lamentáveis na família. Fazia quatro anos que se distanciara do irmão Braz, desfazendo uma sociedade de praticamente toda sua vida. Em seguida, com a derrocada comercial da família de empreendedores, sem melhores oportunidades, tornou-se funcionário bancário, quando era o mais instruído e preparado para comandar os negócios familiares. E com a recente morte de mãe e pai, em apenas de três meses, somou-se uma intensa tristeza ao sentimento de pouca autoestima, causada por tantos contratempos, com que lutava para superar.
Mas apesar do sofrimento que estava sentindo, uma semana após o falecimento de seu pai, como contador que era, teve ânimo para contabilizar as despesas de dois funerais, que precisavam ser pagas. Assim, para seu próprio controle e como prestação de contas ao irmão Braz, elaborou dois relatórios de despesas funerárias. A princípio não era minha intensão transcrever aqui essa contabilização, mas diante da corajosa superação de sentimentos de meu pai, acredito que seja significativo deixar constar aqui o seu trabalho.
§ “Despesas com a morte de Mamãe, em 27 de abril 1936”.
* Aristides Nuevo s/serviços 270$000
* Câmara Municipal 100$000
* Empreza Funerária 375$000
* Atestado de óbito 8$000
* Igreja 10$000
* Missa 30$000
* Automóveis 6$000
* Jornal – agradecimentos e convite missa 15$000
* TOTAL – Braz 31,6%, Mansueto 68,4% 824$000
§ “Despesas com a morte de Papai, em 8 de julho1936”.
* Médico, Prefeitura, estampilhas 90$000
* Aristides Nuevo s/serviços 250$000
* Maço de velas 2$500
* Despacho de alças para Rio Preto 2$000
* Missa de 7º dia 20$000
* Automóveis para o cemitério 20$000
* SUBTOTAL 384$000
É evidente que Mansueto, nesse último relatório, feito há uma semana após a morte de seu pai, ainda não estava plenamente tranquilo. Não transferiu o total do rascunho para o relatório por diferenças entre os valores e também por não ter ainda recebido do irmão as despesas realizadas em Rio Preto, ou seja: Condução até a estação e carro especial de trem, que levou o caixão e o falecido para Taquaritinga. Além dessas anotações, escreveu no rascunho; “A pagar”, à Câmara Municipal, 512$000 (quinhentos mil réis), à Empreza Funerária, 150$000 (cento e cinquenta mil réis) e valor não sabido referente a Publicações.
Em haver lançou 400$000 (quatrocentos mil réis) de recibo do Banco referente ao seu ordenado do mês e 65$000 (sessenta e cinco mil réis) de “recibo de José Mantovani, inquilino da casa à Rua Coronel José Pedroso (atual Treze de Maio) referente ao 1º aluguel (mês de julho)". Enfim, não completou a contabilidade referente às despesas de falecimento de seu pai.
Na data de 9 de julho a Prefeitura de Taquaritinga informou o pagamento de 200$000 (duzentos mil réis) referente ao “excesso da sepultura 707”, onde se acha inumada Antonia Ielpo Cosentino “de reservada, para perpétua”. A esse valor foi acrescido na mesma data o valor de 2$000 (dois mil réis) correspondente ao “registro de um requerimento”. O sempre presente Júlio Amatuzzi cuidou do pagamento de ambas as quantias, como já havia feito por ocasião do sepultamento de minha avó.
Constrange-me o detalhamento dessa contabilidade fúnebre, mas se meu jovem pai, aos 28 anos, foi minucioso em seu relato, significa que tais valores representaram um peso significativo no já decadente orçamento familiar.
E, pensando bem, a vida é assim mesmo. Morrer é apenas o último ato que fazemos, entretanto não é algo que queiramos fazer, mesmo sabendo que dele ninguém escapa. Todos nós deixamos a vida, os parentes e os amigos, entristecidos pela dor da separação. E, passado o tempo, os que ficam paulatinamente também se vão. Um dia seremos esquecidos, se não deixarmos marcas de nossa passagem pela vida. Há muitos modos de evitar o esquecimento, estas minhas páginas são minha tentativa de manter a memória de meus antepassados, “saídos da existência para entrar (nesta minha) história”.
Então vou dar continuidade a esta narrativa para que não se perca no tempo e para dar continuidade às vidas da família e do meio social em que viveram. Estamos relatando acontecimentos fúnebres de minha família que fizeram parte do ano de 1936. Agora, ao terminar o ano, encerro a tristeza de relatar a morte de entes queridos. Como Mansueto usou a contabilização de números, para abrandar o seu intenso luto, farei o mesmo, relatando que não foram apenas meus parentes que deixaram a vida. Segundo o Cartório de Registro Civil de Taquaritinga, durante todo o ano de 1936, aconteceram 321 óbitos no município. Isso ajuda a nos conformar um pouco mais com as perdas e voltar aos cotidianos temas corriqueiros.
Como, por exemplo, o fato dos vereadores eleitos em março de 1936 para a Câmara Municipal de Taquaritinga, ao tomarem posse no dia 2 de agosto, terem escolhido, entre seus pares, o vereador eleito pelo Partido Municipal, Dr. Francisco de Arêa Leão para o seu segundo mandato de Prefeito.
Pois é, tudo continuava normal nas terras taquaritinguenses. E rio-pretenses também. Lá, Braz ajudava um tal de José Elias V. Ferreira, a compor o texto de um bilhete de cobrança. Ele foi encontrado entre os documentos de meu tio, datilografado em papel com timbre do Hotel Erminius de Rio Preto, impresso na Tipografia do Braz e endereçado a Antonio Cosentino, seu sobrinho, filho do falecido José. A missiva dizia:
“Confirmo a minha carta de maio deste, assim como outras que não lograram a sua atenção. Meu particular amigo e primo Braz está pronto para me pagar desde abril, àquela pequenina importância, restante da duplicata da Cerâmica Porto Ferreira SA. e que o Sr. me disse que se ainda não estivesse paga era exclusivamente por culpa do “seu” Braz, que fora pelo amigo autorizado a resgatar. Eu paguei e o amigo Braz acha justo que me pague e que, porém não tenha prejuízo. Nas ele quer uma sua autorização, por escrito, que novamente venho solicitar. Sou pobre e luto pelas estradas e qualquer dinheiro me faz falta. Digne-se, pois dar a sua ordem. Rio Preto, 15 de agosto de 1936”.
Tudo parecia voltar ao normal enquanto o ano terminava. Porém para os filhos de Antonia e Matheus, que os perderam em tão pouco tempo, prevalecia um profundo sofrimento que duraria muito além dos seis meses oficiais de luto. Para Braz, aos 45 anos e Domingas, aos 41, somava-se a essa perda, a preocupação com Mansueto, o irmão caçula, solteiro, aos 28 anos, que além da perda materna e paterna estava só e sem residência própria, morando de favor com parentes. Como ele conseguiria superar tanta perda, o intenso sofrimento, manter a esperança e reorganizar sua vida?
Mansueto mergulhou no trabalho, na esperança de que ocupar-se seria a melhor maneira de não alimentar os pensamentos pesarosos. Era assim, mesmo profundamente triste, que tentava enfrentar a vida com coragem e disposição. Então, se o remédio é ir em frente, que venha o no de 1937!
Enquanto isso, em Rio Preto, Braz Cosentino ia, como sempre, lutando e mostrando sua criatividade mercadológica em um tempo em que por aqui nem se falava em marketing. Em 1937, ainda mantinha relações com os Curti e acertava com eles uma promoção envolvendo o Cine Capitólio, de propriedade daquela família, em Rio Preto:
“Meninos ou meninas, comprem na Tipografia do Braz. Ao fazerem suas compras, em materiais escolares; lápis, cadernos, borrachas, réguas, livros, penas e canetas, perfazendo um total de 3$000 (três mil réis) a vista ou prestação, receberão um ingresso grátis para a matinê do Capitólio”.
Aos 45 anos, meu tio tinha ânimo para lutar pelo retorno aos bons tempos. Como bom comerciante, sabia que, mesmo que não fosse mais, tinha de manter a aparência de estar bem, para obter visibilidade comercial. Por exemplo, em março de 1937, ele abre uma conta corrente na Caixa Econômica do Estado de São Paulo em Rio Preto. A caderneta, guardada entre seus papéis, mostra somente a anotação do depósito inicial, que certamente foi sacado, quando não mais teve utilidade.
Se os Cosentino ainda tinham ânimo para voltar aos bons tempos, Taquaritinga ia em busca de novos tempos. Na cidade, os jovens da elite já praticavam um esporte chamado tênis. Os jornais locais, em 4 de julho de 1937, convocavam os aficionados a se inscreverem em um “torneio de classificação do fidalgo esporte da raquete. (...) O elegante torneio do esporte de Alcides Procópio, se iniciará no próximo dia 10, em formato idêntico ao americano, isto é, dividido em 13 ‘gueimes’, em um só set”.
Os primeiros inscritos, participantes do Torneio de Tênis eram 15 moços: Antonio Felipe, Alberto de Castro, Edwil Roncada, Tuffy Miguel, Alyr Ribeiro, Dr. Ademar Carvalho Gomes, Orlando Guimarães, Leide A. Guimarães, Mansueto Cosentino, José Sérgio Negrão, Joaquim A. Canto, Anselmo Trazzi, Octorino G. Villa, Luiz Lombardi e Hermínio Silva.
Mansueto, na ocasião não deveria ter muita motivação para participar, ainda sob o pesar pela morte dos pais, mas certamente foi convencido pelos amigos a se inscrever. O torneio, todavia, teve tal sucesso, que os aficionados participantes do esporte, fundaram uma associação para fomentar a prática de tênis. A Associação foi denominada; Taquaritinga Tênis Club. Mansueto teve maior incentivo para continuar participando, tendo sido escolhido como Tesoureiro da nova associação.
Com a repercussão obtida pelo recém-fundado T. T. Club, como passou a ser chamado, começou a construção de uma segunda quadra ao lado da primeira, em terreno cedido pelo Sr. Santo Micali, localizado na Rua Marechal Deodoro. Com essa nova quadra “que será, muito brevemente, inaugurada”, aumentou o interesse dos taquaritinguenses pelo tênis. Tanto que, em agosto, com a continuidade do torneio de classificação já havia uma lista de 30 tenistas inscritos, a maioria composta de principiantes.
Enquanto a nova quadra de tênis não era inaugurada, o jornal convocava novamente a população para “uma amistosa partida desse elegante esporte, entre o Tênis Club de Rincão e o Taquaritinga Tênis Club. O evento se realizará às 14 horas, na quadra de Tênis do Campo da Paineira. A equipe taquaritinguense contava com os seguintes tenistas: Tuffy, Fellipe, Mansueto e Orlando. Convidamos as Exmas. famílias para assistirem a partida. A entrada é franca”. Mansueto Cosentino e Orlando eram reservas de Tuffy e Felipe, os titulares. Não fiquei sabendo do resultado da “elegante peleja”.
No dia 24 de outubro, terminava o Torneio de Classificação de Tênis e o jornal informava os vencedores. Mansueto ficou em 14º lugar entre os 30 participantes já inscritos. “Esse torneio continuará, devendo os Srs. tenistas que queiram melhorar sua classificação, procurar o Diretor Esportivo do T.T.Club. A nova quadra de tênis, na Rua Marechal Deodoro, está praticamente pronta. Qualquer informação poderá ser pedida a qualquer dos Diretores”.
Embora praticamente desde 1935, a “onda do tênis” tomasse conta de Taquaritinga, a aprovação dos Estatutos do TTC, somente ocorreria em setembro de 1940. Sua primeira diretoria constituída há três anos, ainda estava assim: Presidente, Tuffy Miguel; Vice Presidente, Dr. Antonio Barreto de Mendonça; 1 º Secretário, Francisco Siqueira; 2º Secretário, Dr. Vicente Pelucio Netto; Tesoureiro, Orlando Guimarães; 1º Diretor Esportivo, Dr. Almeida Netto; 2º Diretor Esportivo, Edwil Roncada.
Mansueto já abdicara de seu cargo de Tesoureiro, alegando estar sobrecarregado de trabalho no banco. Pelas informações que chegaram ao meu conhecimento, nenhum tenista taquaritinguense deve destaque estadual.
Mas nem só da “fidalguia do esporte da raquete” vivia o nosso pais. Embora o fracasso do Levante comunista de 1935 tenha acabado de vez com a “ameaça da esquerda”, o sentimento de medo ao comunismo permanecia intenso e generalizado no país. Em 1937, esse anticomunismo manifestou-se decisivo na campanha para as eleições presidenciais marcadas para janeiro de1938.
Três candidatos disputavam a presidência:
* Armando de Sales Oliveira, engenheiro
graduado pela Escola Politécnica e então interventor federal governando São
Paulo. Candidato do Partido Democrático
e Partido Constitucionalista. Partidário da revolução de 1930.
* José Américo de Almeida, advogado,
professor universitário, romancista, ensaísta, poeta, cronista, folclorista e
sociólogo. Ex-Ministro dos Transportes a partir da revolução de 1930 era o
candidato do governo Vargas.
* Plínio Salgado, principal figura da Ação Integralista Brasileira (AIB).
Desde 21 de março de 1936, uma emenda constitucional estabelecia que o país estava sob Estado de Guerra, diante de “comoção intestina grave, com finalidades subversivas das instituições políticas e sociais, em qualquer parte do território nacional”. Esse Estado deveria ter vigência de 90 dias, mas foi sucessivamente prorrogado. Porém, em junho de 1937, com a campanha presidencial se aproximando, o governo deixou expirar a vigência de Estado de Guerra sem solicitar ao Congresso sua renovação, como vinha fazendo.
Com o Estado de Guerra suspenso, o ministro da Justiça ordenou a libertação de prisioneiros políticos sem processo formalizado. Essa medida liberalizante provocou forte agitação anticomunista, conduzida nas ruas pelos integralistas. No início de agosto, Plínio Salgado denunciou a ameaça de golpe “comunista” e a infiltração de “agentes de Moscou” entre os que apoiavam as candidaturas de José Américo e Armando Sales.
Para potencializar os efeitos da denúncia de golpe, feita pelos integralistas, membros do Estado Maior do Exército obtiveram a cópia de um “plano comunista” para tomada do poder, acusando Getúlio Vargas de pretender dar um golpe e continuar no comando da nação. Constavam do documento “instruções da Internacional Comunista (Komintern) para a ação de seus agentes no Brasil”. Esse documento ficou conhecido como Plano Cohem, porque vinha assinado pelo comunista húngaro Béla Kun, ou abrasileirando; Bela Cohen.
Divulgado em 30 de setembro de 1937, pelo ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra, e pelo presidente Getúlio Vargas, no programa radiofônico oficial "Hora do Brasil", essa divulgação caiu como uma bomba na campanha presidencial. Foi um adequado pretexto para o governo suspender os direitos constitucionais.
No dia seguinte à divulgação do Plano Cohen, 1 de outubro de 1937, o presidente Getúlio Vargas fez o Congresso decretar o novamente o Estado de Guerra. Em seguida as eleições presidenciais de 1938 foram canceladas e entrou em vigor a Constituição de 1937, redigida um ano antes e que ficou conhecida como “A Polaca” por conter leis de inspiração fascista, como as existentes na Carta Magna polonesa de 1935.
Na vigência dessa Constituição, o governo instituiu a censura, implementou o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) órgão responsável pela propaganda do governo. E, apoiada na "Lei de Segurança Nacional", foi mantida uma violenta repressão ao comunismo. Em 15 de outubro, o governo aprovou a intervenção federal nas forças públicas estaduais, para intimidar os estados que se recusavam a aderir a essas medidas de exceção.
Em 1º de novembro, os integralistas realizaram uma grande manifestação diante do Palácio do Catete, sede do governo, para demonstrar sua força e a solidariedade a Vargas.
Todos esses acontecimentos ocorridos durante o Estado de Guerra abriram caminho para o golpe que implantou um novo regime ditatorial no país: O Estado Novo, que consolidou Vargas no poder, até outubro de 1945.
A instauração do Estado Novo ocorreu no dia até 10 de novembro, quando, em um pronunciamento em rede de rádio, Vargas lançou um Manifesto à nação, no qual dizia que o regime que inaugurava tinha como objetivo "reajustar o organismo político às necessidades econômicas do país". Mas o Estado Novo, em seus oito anos de duração, foi caracterizado pelo poder centralizado, pelo nacionalismo e anticomunismo. Além disso, simpatizava e tentava simular um controle autoritário, fortemente inspirado nas condutas de Mussolini e Hitler, os líderes nazifascistas europeus da mesma época. (Os simpatizantes da ditadura Vargas, ainda se apegam, para justificar seu apoio, na criação das leis trabalhistas da CLT, a Consolidação das Leis do Trabalho, aprovada em 1º de maio de 1943.)
O Estado Novo iniciou-se em um período de instabilidade política e foi sofrendo progressiva contestação. Em 1945, com a aproximação do término da Segunda Guerra Mundial, as pressões por redemocratização do país ficaram mais fortes. A nomeação de Benjamim Vargas, irmão de Getúlio para chefe da polícia do Rio de Janeiro, gerou um movimento militar liderado por generais que compunham o próprio ministério do governo getulista. Para não ser deposto, em 29 de outubro de 1945, Vargas renunciou formalmente ao cargo de Presidente da República, sendo substituído interinamente pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, José Linhares, que permaneceu três meses no cargo até passar o poder ao presidente eleito, Eurico Gaspar Dutra, em 31 de janeiro de 1946, pondo fim à Era Vargas.
Apenas com a extinção do Estado Novo e para estarrecimento de toda nação brasileira, ficou finalmente revelado que o Plano Cohem, um dos principais fatores que deram origem aos oito anos de ditadura do Estado Novo, tinha sido uma fraude!
Ficou esclarecido que na realidade, este plano foi forjado por um adepto do integralismo, o Capitão Olímpio Mourão Filho, na época membro do Serviço Secreto. Segundo seu próprio autor tratava-se de um de estudo, para simular, as possíveis consequências de uma revolução comunista no Brasil.
A atuação dos integralistas naqueles acontecimentos foi intensa, embora tenham sempre negado sua participação no uso do Plano Cohem, como causa do golpe do Estado Novo. Atribuem ao general Góis Monteiro, na época chefe do Estado Maior do Exército, a divulgação do Plano Cohen, como um documento oficial da Internacional Comunista, para derrubar o governo brasileiro, “embora fosse um simples relatório teórico, feito pelo Capitão Mourão com hipóteses de trabalho”.
Resta dizer que esse mesmo Mourão Filho, autor do Plano Cohem, em 1964, então General, daria início ao Golpe apelidado de “Revolução Redentora”, quando, na noite de 31 de março, antecipando-se ao planejamento militar acordado, ordenou que soldados da 4ª Divisão de Infantaria de Juiz de Fora seguissem para ocupar o estado da Guanabara, atual cidade do Rio de Janeiro. As forças do general seguiram sem resistência e terminaram por se confraternizar no meio do caminho com as guarnições do I Exército que haviam partido do Rio de Janeiro com a missão de confrontar as tropas mineiras. Essa atuação do General Mourão foi duramente criticada pelos líderes do golpe. Magalhães Pinto, então governador de Minas Gerais e um dos mentores do golpe, criticou o General trapalhão "(…) por ter deslocado tropas com poucas armas, recursos e precipitadamente de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro. Isso poderia ter causado um banho de sangue".
Nossa! Deixei-me levar pelos acontecimentos da História e fui parar muitos anos à frente desta narrativa familiar. Deixei de lado também Taquaritinga, onde a única influência da implantação do Estado Novo ocorreu na política partidária e nas eleições municipais.
Antes da vigência do Estado Novo, em 2 de agosto de 1936, como já foi anteriormente aqui dito, o Dr. Arêa Leão, do Partido Municipal, em um pleito democrático foi eleito pelos vereadores para seu segundo mandato de prefeito. Mas com o advento do “Estado Novo”, em novembro de 1937, nomeado pelo interventor federal em ato administrativo, ele foi mantido no exercício do cargo até 22 de setembro de 1941, mas então sob um regime político de caráter totalitário.
Apesar de tudo, os cidadãos de Taquaritinga tiveram poucos motivos para deixar de ter uma vida normal, mesmo que possam ter ocorrido alguns possíveis desmandos motivados pela ditadura existente no governo federal dessa “Era Vargas”.
Meu tio Braz, por exemplo, ante a agitação que se previa, deve ter se assustado ao receber em 23 de setembro de 1937, uma intimação do Serviço de Fiscalização do Comércio de Sementes para, em 15 dias, regularizar sua situação no Departamento de Fomento à Produção Agrícola, Industrial e Comercial de São Paulo. Sem saber o que era esse “Serviço”, em apenas cinco dias, Braz já enviava. em 1º de outubro, uma carta registrada ao Departamento de Fomento à Produção, regularizando sua situação comercial.
Entretanto, pelos mesmos motivos de cautela, Braz não foi tão rápido e nem se irritou, como de costume, ao receber duas respostas consecutivas à correspondência enviada por ele ao “amigo” Raul da Costa, devedor de antigo débito. Na primeira resposta, datada em São Paulo, no dia 9 de novembro, o Sr. Raul informava ter recebido a carta de Braz de 26 de outubro, mas não a de 4 de outubro e escrevia: “Conforme minha promessa, no mês corrente, acertaremos o nosso negócio”. Na segunda missiva, com data de 29 do mesmo mês, Raul informa: “Infelizmente só em dezembro poderei liquidar nosso negócio, o movimento político de princípios deste mês, paralisou as transações comerciais”. Acredito que se meu tio manteve a calma, todavia não deve ter achado muito bom o início desse tal de Estado Novo, ao contrário do “amigo” Raul, que deve ter se rejubilado com o golpe.
O ano de 1937 chega ao fim e poucas pessoas têm motivos para lamentar essa passagem dos dois anos aqui narrados. A família Cosentino teve grandes perdas nesses 24 meses, mas sofreram com dignidade e coragem. Sempre calaram sobre as pequenas agruras que surgiam e somente na intimidade da família comentavam o que não ia bem. Acreditavam sempre que o ano que viria seria melhor. Aprendi isso com meus antepassados mais próximos e mantive a lição por toda a vida.
Mas ainda faltava o último dia para o ano terminar. Em 31 de dezembro de 1937, três amigos de Taquaritinga fazem uma “Declaração de Acordo e Compromisso” para compra de “Apólices Paulistas de Consolidação”. Ernesto Salvagni e Mansueto Cosentino adquirem dez apólices cada um e Hermínio Silva cinco.
Declaram ter combinado concorrerem conjuntamente a todos os sorteios das apólices acima mencionadas, ficando entendido que os prêmios que porventura couberem a essas apólices, seriam distribuídos entre os mesmos, em proporção ao capital de cada um deles, ou seja, Salvani 40%%, Cosentino 40% e Silva 20%. Assinam todos, três vias, datilografadas do acordo, sendo uma para cada um. Assinam também as vias, duas testemunhas: Poty Carvalho Vasconcelos e Mário Mendes Ferreira.
Essas “Apólices Paulistas de Consolidação do Tesouro do Estado de São Paulo” referiam-se a um “empréstimo interno” do governo paulista, na importância de 350.000:000$000 (trezentos e cinquenta mil contos de réis) contraída para “consolidação da divida flutuante e custeio de obras reprodutivas”. Para amortizar esse valor foi adotada a compra de apólices do tesouro, com prêmios aos compradores. Esse sistema de empréstimos premiados, “proporciona grande economia no serviço de juros e oferece outras vantagens consideráveis, popularizando os títulos públicos e incentivando a economia popular”.
As apólices tinham o valor de 200$000 (duzentos mil réis) cada uma e eram numeradas sequencialmente, rendendo juros de cinco por cento (5 %) ao ano. As apólices concorriam a quatro sorteios por ano: Nos 1.º, 2.º e 3.º trimestres eram sorteados vários prêmios, sendo o principal de 500:000$000 (quinhentos contos de réis) por apólice em cada trimestre. No 4.º trimestre o principal prêmio era de 1.000:000$000 (um mil contos de réis).
Esse acordo entre os três moços é um texto bastante apropriado para o encerramento de um capítulo repleto de más notícias familiares e de falsidades políticas em âmbito federal. Tem a função de demonstrar que sempre se encontra uma forma de compensar as carências e de manter sempre a esperança de que dias melhores sempre são possíveis e desejados.
FIM
Mateus Cosentino
Sampa – 01.05,2018
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