“Una Piccola” História de Família
EPÍLOGO
EM BUSCA
DO FIO DA MEADA
“Façamos o elogio dos homens ilustres, que são
nossos antepassados em sua linhagem”.
Eclesiástico 44-1
Repetir os derradeiros parágrafos do último capítulo desta história familiar é uma forma bastante adequada de encerrar este livro:
Um acordo prosaico entre três moços para aumentar suas chances ganhar prêmio em sorteio de uma apólice, demonstra que sempre se encontra uma forma de compensar as carências e de manter sempre a esperança de que dias melhores sempre são possíveis e desejados.
Ao terminar a saga de meus antepassados, no ano de 1937, deixo-os numa fase de sua história em que estavam vivenciando grandes perdas. Mas se os deixo sofrendo, também os abandono enquanto demonstram estar mantendo a dignidade e a coragem. Como sempre em suas existências, calavam ante as pequenas agruras e somente na intimidade da família comentavam sem dramas o que não ia bem. Acreditavam que sempre viria algo melhor. Pela imitação dessa atitude dos meus antepassados ante a vida, aprendi que, para viver bem, é necessário manter na mente a esperança de que sempre haverá dias melhores e que “só a morte não tem remédio”.
E, pensando bem, a vida deve ser levada assim mesmo. Morrer é apenas o último ato do qual ninguém escapa. Todos nós deixamos a vida, os parentes e os amigos, entristecidos pela dor da separação. Depois, um dia, seremos esquecidos. Porém um dos modos de evitar o esquecimento é esta minha tentativa de manter a memória de meus antepassados. Que eles saiam da existência, mas que permaneça sua história.
Porém, o quê justifica escrever um livro para contar a saga de antepassados, não famosos, não nobres e nem santos? Certamente não iremos encontrar seus feitos na heráldica ou nos livros da história oficial. Mas escrevi este livro porque acredito que devemos nos orgulhar da linhagem dos tantos homens e mulheres, que nos precederam e que têm suas histórias esquecidas por suas futuras gerações. Se herdamos deles o sobrenome, não há porque, não se dar valor à história das suas vidas, das quais descendemos.
A História Oficial de nosso Planeta, de nosso País, nosso Estado e nossa Cidade, preservam as realizações de pessoas e famílias que contribuíram para a formação histórica e cultural de cada lugar. A “Grande História” os reconhece e os cultua, somente os que têm seus méritos reconhecidos e documentados. Mas há milhões de homens ilustres, que não fizeram história, ou que a história esqueceu o que fizeram. Sua saga – e todos têm a sua – não será relatada em livros, documentos e nem nas memórias. E sua história fatalmente será esquecida e sua memória se perderá no passar do tempo.
Por isso, acredito ser preciso salvar a memória desses seres que nos geraram. Acredito que, para livrá-los do total esquecimento, devemos resgatar e retratar sua passagem pela vida em nossa história familiar, pois foram eles, nossos antepassados, que nos legaram o nosso pertencimento e nossa identidade individual.
Essa obra, portanto contou a saga de uma família simples e comum de imigrantes italianos meridionais, como tantos outros, chegados ao Brasil na virada do Século XIX. É uma história parte real, levantada por documentos e parte imaginada por associações, deduções e inspiração criativa. Entretanto, toda realidade contida nesta obra foi baseada em três fontes:
1 Os documentos de família, arquivados
paciente e eficientemente por minha irmã Maristela Cosentino Liberato. Sem esse
trabalho de minha irmã, eu não teria nem mesmo a ideia de realizar esta
história.
2. A edição Comemorativa de 1977 do Jornal
“Cidade de Taquaritinga”, o site “Cidade de Taquaritinga" e o livro
“Taquaritinga, História e Memória”, estes dois últimos de autoria de Milve
Peria. Nestas fontes encontrei referências totalmente desconhecidas de minha
família e então adotei a própria história da cidade, onde meus antepassados
deram alguma contribuição para seu desenvolvimento.
3. Diversos fatos da História do Brasil e Mundial foram incorporados nesta narração. Nenhuma família é uma ilha e a imigração é fruto da situação político-econômica do país de origem e também do de destino. A História, inserida ao cotidiano familiar, teve o papel de enriquecer a obra, dando a ambientação ao entorno de sua existência.
Enfim, sem essas fontes, essa história não poderia ser escrita. Sua utilização permitiu escrever uma história particular, dentro da história mundial, do Brasil e de uma região e uma cidade do interior paulista: Taquaritinga, o destino maior de todos os Cosentino, Ielpo, Laitano e Cozza, os meus antepassados. Porém, hoje, quando escrevo esta história, neste primeiro quartil do Século XXI, sinto que esses sobrenomes estão cada vez mais esquecidos pelas novas gerações da cidade.
Porém, felizmente diversos ilustres e abnegados cidadãos taquaritinguenses, que já nomeados anteriormente, coletaram, comentaram e enriqueceram os fatos históricos, as lendas os “causos” da cidade. Portanto, Taquaritinga ao resgatar sua história, preservou também minha história familiar, que se confunde com os arquivos oficiais do município e os antigos e amarelados jornais locais, que resguardam muitas noticias e anúncios publicados sobre os Cosentino.
Milve Peria, em seu livro; “Taquaritinga, História e Memória”, informa que desde sua fundação a cidade passou por diversos ciclos socioeconômicos. E nesse contesto, meus antepassados acompanharam as oscilações desses ciclos do município, repetindo com sua própria história os períodos de resseção, estagnação e progresso:
1º Ciclo
- Pré-fundação: Compreendendo
o período que antecedeu o ato do nascimento oficial da cidade, ocorrido em 08
de junho de 1868.
· Nessa época todos
meus parentes ainda estavam na Itália meridional.
2º Ciclo –
Histórico: O período da emancipação administrativa do município, ocorrido entre
os anos de 1868 e 1908.
· No final do
Século XIX, meus antecedentes, trazidos pela onda imigratória italiana,
chegaram à Ribeirãozinho, a atual Taquaritinga.
3º Ciclo
– Consolidação: Esse período, entre 1909 a 1928, Coincidiu
com a época áurea do café e do desenvolvimento econômico da cidade.
·Meus familiares construíram sua história, seus
empreendimentos e seu crescimento econômico, como comerciantes e
empreendedores.
4º Ciclo
– Resseção: Período
de perdas econômicas e agruras sociais originadas pelo crack da bolsa de Nova Iorque em 1929 e pela geada de
1931.
· Nesse ciclo, a maioria dos Cosentino, Ielpo, Laitano
e Cozza sofreram perdas comerciais e se viram obrigados a deixar Taquaritinga
mergulhando no anonimato da Metrópole paulista.
5º Ciclo
– Retomada: Período
de desenvolvimento e crescimento renovados nas décadas de 1950 a 1980.
· Neste o 5º Ciclo, no ano de 1952, em função da retomada econômica e por promoção de Mansueto, meu pai, no Banco do Commercio e Indústria, ele, minha mãe Mariana e quatro filhos mudaram-se para São Paulo (onde nasceu Maristela) deixando na cidade um único parente próximo, meu tio e padrinho Braz Cosentino, que voltava de seu desterro paulistano.
6º Ciclo – Estagnação: Uma parada no crescimento econômico, que teve início na década de 1990 e se que estendeu até o final do Século XX.
7º Ciclo –
Ressurgimento: – Diz Milve: “Esperamos que o início do novo século, seja o
ciclo do reinício do desenvolvimento e da redenção desta terra que amamos”.
* Nestes
dois últimos ciclos, ainda restam descendentes de Laitano, Cozza e Cosentino na
cidade, mas desde a década de 1950, a história do meu núcleo familiar,
apartou-se de Taquaritinga, em busca de seu reinício em outras plagas.
Após tantos anos, as novas gerações de meus parentes vivos, nem sabem mais nada da saga da imigração italiana da sua própria família para essa cidade no interior paulista da alta araraquarense.
O símbolo concreto que restou da presença dos Cosentino no município é um jazigo, localizado logo na entrada, à direita do portão principal do cemitério local. Construído em estilo romano, trás em seu frontispício uma gravação: "Jazigo Perpétuo da Família do Sr. Nicola Cosentino".
A entrada do túmulo é uma porta formada por pequenos retângulos de vidro e que permanece trancada por cadeado, dando, a quem pretende ter uma visão interna, um aspecto sombrio de penumbra. Mesmo escuro, seu interior mostra, uma pequena capela no fundo. Lateralmente também se pode notar, quatro gavetas, no lado esquerdo e outras quatro no direito, para acolhimento dos restos mortais. Todavia, através dessa porta trancada é impossível ler, nas placas indicativas, os nomes dos sepultados da família de Nicola.
Em visita recente ao sepulcro, meu amigo Milve Peria, enviou-me esta descrição e constatou que o mesmo não está mal cuidado, mas percebe-se que é pouco visitado. Por ele questionadas, as pessoas que trabalham no cemitério não souberam informar quem é o responsável pela chave, para abrir a porta e se ter acesso ao interior da sepultura. Entretanto, esse cuidado eventual, dedicado pelo portador da chave da porta de entrada, indica a existência na cidade de remanescentes descendentes, desconhecidos por nós, mas provavelmente do ramo familiar de Nicola Cosentino.
Desde 1952, quando eu ainda era um menino de oito anos, voltei à Taquaritinga poucas vezes. Duas delas em rápidas passagens de algumas horas a caminho de Monte Azul Paulista, quando fotografei os locais de minha infância. A terceira, no casamento de meu primo Júlio Cesar Garavello, no ano 1977. A quarta vez foi, em 2017, para conhecer Milve, em sua residência e rever a igreja Matriz de São Sebastião, onde fiz minha Primeira Comunhão. Retornei mais duas vezes para conhecer o amigo Nilton Morcelli e tratar de assuntos cartoriais. Em nenhuma dessas vezes tive a curiosidade de rever o cemitério.
Mas recordo-me que ainda criança, quando lá morava, estive uma vez em visita à necrópole, acompanhando um enterro de parente. Em minha lembrança vejo um outro túmulo da família, localizado mais no interior do campo santo. Era uma simples construção abandonada, sem aberturas, no formato de paralelepípedo e com a caiação desgastada. Isso me faz concluir, se a memória não me engana, que existe outro jazigo familiar, onde meu tio Braz foi enterrado em 1958.
Ah! Quase me esqueço de informar aqui que, em bairro distante do centro da cidade, existe uma via pública dedicada ao “Pioneiro Industrial”, denominada Rua Matheus Cosentino, nome de meu avô. Mas esta homenagem, menos concreta que um túmulo, pode mudar de nome, quando não houver mais ninguém para lembrar-se dos meus antepassados. E por este mesmo motivo, considero que nem o túmulo perpétuo poderá permanecer na cidade eternamente, como marco familiar. E assim se perderá o derradeiro marco concreto do fio da meada desta história familiar.
Resta perguntar por quanto tempo serão guardadas estas mal traçadas linhas, em reverência aos meus antepassados, que coloquei, capítulo a capítulo, durante 27 semanas consecutivas no Grupo do Facebook “Família 2”.
Quero, por fim agradecer de coração os amigos e parentes que me seguiram durante toda essa difícil caminhada. A muitos conheço pessoalmente, a outros adoraria conhecer. Então, em reconhecimento ao seu gratificante, porém difícil acompanhamento desses meus longos capítulos publicados, relaciono-os nominalmente:
Augusto G Cosentino, Carlos A Ordine, Domingos F Milhossi, Marcio G. Calderazzo, Marcos Cosentino, Marlene Santos, Lia Cozza, Gladys Martinelli, Nathalia Cosentino, Dirce Marinei, Regatieri Pastôre, Susana Delicio, Andréa Pastore, Nilton Morselli, Ana Licia Domingues, Maria Angelica Martinelli Boselli, Mariana Garavello, Vera Gibertoni Libanore, Efigênia Oliveira, Lucas Felix, Silvia Reis, Fabiana Ramalho Bagarolli, Roane Eugenio Manago, Lidiana Toscano, Silvia Steffen, Simone Alves, Dorival Borelli Filho, Maria Do Carmo Cobra, Jú Garavello, Luís Fernando Malaman e Ana Claudia Laitano.
Tudo valeu, porque esse meu grupo de amigos leu.
Mateus Cosentino
Sampa – 28 de junho de 2024.
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