sexta-feira, 7 de junho de 2024

 

“Una Piccola” História de Família 

Livro 1 - Parte 2 - Recaída 

CAPÍTULO 23 – ALTANEIROS SENTIMENTOS E HEROICOS ATOS

 


 

"Quando se sente bater

No peito heroica pancada,

Deixa-se a folha dobrada

Enquanto se vae morrer..."

Inicio esta narrativa com uma quadra poética, da qual tomei conhecimento quando tentei ingressar no vestibular de direito, em 1964. Sem nenhum preparo, não passei no exame, mas aprendi alguns conhecimento, como este, extraído do Hino da Faculdade de Direito do Largo São Francisco.

Por isso, durante muitos anos imaginei que o autor daquela quadra fosse Guilherme de Almeida, o quarto "Príncipe dos Poetas Brasileiros" (depois de Olavo Bilac, Alberto de Oliveira e Olegário Mariano). Atribuía então essa autoria a um poeta paulista, combatente na Revolução Constitucionalista de 1932 e por sua obra literária de amor a São Paulo. Sobre 1932, entre outros versos, ele escreveu:                                                        

                                    “Bandeira da minha terra,

  Bandeira de treze listas,

  São treze lanças de guerra

  Cercando o chão dos paulistas”.

Mas enganava-me redondamente. O autor daquela famosa quadra acima é Tobias Barreto de Meneses, um ilustre sergipano, patrono da cadeira 38 da Academia Brasileira de Letras. Foi um filósofo, poeta rival de Castro Alves, germanista, crítico e jurista, nascido em 7 de junho de 1839 e falecido aos 50 anos, em 1889, cinco meses antes da Proclamação da República e, portanto, 43 anos antes de 1932, sem nunca haver pisado em terras de Piratininga. 

“Justiça seja feita” e é difícil ser justo quando somos tomados pela emoção. Sob o domínio da paixão, tudo mais perde importância e fica em segundo plano. Ficamos cegos, irracionais, dominados pelo ódio ou vingança e heroicamente agimos, deixando tudo de lado “enquanto se vae morrer”.    

Mas a paixão não é boa conselheira e pode nos levar a erros. Muitas vezes podemos morrer por defendermos uma causa que não é pessoalmente nossa, induzidos por motivos que desconhecemos e que assumimos como nossos. As elites oligárquicas disputam o poder e quem morre é quem não tem poder nenhum. O cartaz da Revolução de 1932 atribui ao povo o dever de “sentir no peito heroica pancada”. Aponta o dedo, num comando militar, clamando: “Você tem um dever a cumprir. Consulte a sua consciência”!

Toda guerra é sempre um erro, mas somos guerreiros! Valentemente “deixamos a folha dobrada” e alegremente vamos morrer ou matar o “inimigo”. Quando argumentos não têm mais validade, quando os apelos à razão não encontram eco, quando criamos mártires... Vamos todos às armas e irracionalmente seremos heróis!

Muitos brasileiros, que conhecem minimamente a história oficial do Brasil, consideram que somos um país em que, desde o nosso descobrimento, em todas as grandes “revoluções” não demos tiro nenhum. É o que lhes parece ao tomarem conhecimento, por exemplo, da Inconfidência Mineira, da Independência, da Abolição de Escravidão, da Proclamação de República e dos golpes revolucionários de 1930 e de 1964... Mas quem se aprofunda mais em nossa historiografia sabe que não é bem assim. A começar por índios e escravos, muito sangue rolou desde 1500 nestas terras de Pindorama. Onde não houve tiros, houve flechadas, facadas e explosões. 

E como “o coração tem razões que a própria razão desconhece”, cada Estado e muitos municípios têm suas próprias revoltas e seus heróis para se orgulhar.  Aqui em São Paulo, nosso orgulho é a Revolução Constitucionalista de 1932. Eu mesmo me orgulho da coragem desmedida e solidária de todo o povo paulista, bravamente se lançando sozinho contra todo o resto do país.

Entretanto, considero que todas as revoltas e guerras têm dupla causa: Uma é dada por motivos político/econômicos, onde se disputa o domínio e o poder. A outra é a conquista do apoio popular, com motivação emocional. A primeira é a verdade de uma pequena mais poderosa elite, que “enobrece” sua causa para conquistar o idealismo e a paixão popular, obtendo a necessária força humana militar para vencer.

Vamos analisar a Revolução de 1932, sobre a luz desses dois prismas. Mas antes teremos que voltar a 1930.

A Revolução de 1930 não pode ser vista superficialmente como uma tomada de poder por um punhado de descontentes.  Foi uma reação contra o excessivo predomínio das elites cafeicultoras e agrárias. A crise de 1929, entre tantos desastres financeiros, causou igualmente o enfraquecimento econômico dos cafeicultores e de seu corrupto liberalismo. Enfim, à insatisfação generalizada e as contradições da sociedade quanto ao parco desenvolvimento do país, somaram-se às antigas contrariedades nos meios militares, que acabaram por derrubar a República Velha.

A partir daí, a centralização do poder do Estado, com intervenção na economia, trouxe a integração ao mercado de largos contingentes da população, o que era decisivo para a superação da crise vigente, para o avanço da industrialização e a modernização institucional do País. Isso foi conseguido pela expansão das relações capitalistas e a consolidação das leis do trabalho.

Assumido o poder, com a promessa de que seu governo seria provisório, durando apenas até a “rápida volta à normalidade”, Vargas ia permanecendo no poder, sem dar mostras de o abandonar. Chefe do Governo Provisório ele governava por decreto, adiando a adoção de uma nova Carta Magma para o país, pois em um de seus primeiros atos, revogou a Constituição de 1891. Autoritário, dissolve o Congresso Nacional e intervém em Governos Estaduais. Com o objetivo de estabelecer uma nova ordem constitucional, depõe Governadores dos Estados, passando a nomear interventores para governa-los.

As medidas desagradam profundamente os defensores da democracia em toda a nação. Em São Paulo as elites tradicionais, ligadas ao Partido Republicano Paulista (PRP), derrotados pela pelo Golpe de 1930, passam a trabalhar em oposição ao governo de Getúlio Vargas. 

Já, a partir de 1931, por todo o país e principalmente em São Paulo, os setores oposicionistas ao Governo Federal clamam por uma nova Constituição e também por eleições gerais e, claro, para Presidente da República. O ideário popular, pelo fim do autoritarismo, das intervenções nos estados, a volta à democracia e à Constituição, promoviam pequenas e grandes manifestações, no Rio Grande do Sul, Amazônia, Belém, Salvador, Minas, Rio de Janeiro, Ceará... Todas debeladas pelas forças federais.

Entretanto, pode-se dizer que a Revolução Constitucionalista de 1932, foi um movimento conservador e até contrarrevolucionário. Representou a revolta da oligarquia cafeeira retirada do governo na Revolução de 1930, quando, através dela, a elite derrotada queria voltar ao poder. Porém, não era cogitada em suas lideranças nenhuma mudança de sistema de governo, ou mesmo de qualquer limitação no processo de desenvolvimento capitalista.

Não há, entretanto, como negar que entre os grupos que formavam a direção da Revolução Paulista de 1932, existia uma minoria de separatistas que desejavam a independência de São Paulo como uma república soberana. Entre esses, havia também os mais moderados que propugnavam pela formação de uma Confederação, onde os Estados adquiririam a soberania e independência administrativa.

Mas o povo paulista era movido por intenções mais nobres. As mesmas que eram pontualmente difundidas por todo o país, entre os opositores ao autoritarismo de Vargas.  Propugnava-se pela luta em prol da normatização da legislação e do processo eleitoral.

Portanto, São Paulo deu início à Revolução Constitucionalista, acreditando na possibilidade de que os estados de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e do Mato Grosso viessem em seu apoio. Mas Getúlio Vargas foi mais rápido e conseguiu reter esta aliança, isolando São Paulo na luta armada. Somente o sul de Mato Grosso apoiou a causa paulista, lutando contra forças Federais vindas do norte do desse Estado e de Goiás.

As ações de Vargas foram muito eficientes porque ele era informado de tudo o que acontecia nos “comitês revolucionários” de São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Mato Grosso. A movimentação das tropas federais durante o segundo semestre de 1931, demonstram isso. Desde o Alagoas ao norte até Santa Catarina ao sul, as tropas da federação foram colocadas nos caminhos para o Vale do Paraíba, que era o caminho natural, entre São Paulo e Rio de Janeiro, em direção à Capital Federal.

As ações de Vargas deixaram São Paulo sozinho e cercado, lutando por quase três meses em batalhas sangrentas, encerradas com a derrota militar dos paulistas. (Mas se tivesse contado com a adesão das forças estaduais, a Revolução, além ter tido um caráter nacional, provavelmente teria durado uns 10 dias.)

Isolados, cercados e carentes de armas e equipamentos de guerra, já no primeiro dia de luta, muitos podiam estimar que São Paulo provavelmente seria derrotado militarmente. Mas o povo idealista não sabia disso e nem pensava nisso, então, pronto para a luta, pegou em armas para “vencer ou morrer”.

Mas como uma população inteira chegou a isso?

Praticamente, desde 1930, diversos Estados protestavam contra os desmandos do governo Vargas. Muitos segmentos da economia e da política se opunham à revogação da Constituição e às intervenções autoritárias que reduziam a autonomia dos Estados. Em São Paulo, tratado de modo cada vez mais hostil, surgem grupos inconformados de diversos segmentos representativos do Estado. Assim, a imprensa e partidos políticos paulistas acabam formando uma férrea oposição ao Governo Vargas.

Primeiramente, a oposição era realizada a partir de protestos pacíficos. Mas, lideradas principalmente por estudantes iam surgindo diversas brigas de rua entre os alunos da Faculdade de Direito do Largo São Francisco e grupos getulistas. Em particular, contra o Club dos Tenentes, constituído não apenas por militares, mas também de civis que agiam sob sua liderança.

No dia 23 de maio de1932, essas forças se encontraram e se defrontaram nas ruas de São Paulo, quando a repressão armada do Governo Federal causou a morte dos estudantes Mário Martins de Almeida, Euclides Bueno Miragaia, Dráuzio Marcondes de Sousa e Antônio Américo de Camargo Andrade. 

Essas mortes causaram grande comoção e a adesão imediata de homens, mulheres, estudantes, operários, industriais, industriários, bancários, comerciantes, comerciários... enfim, praticamente de todos os paulistas contra o Governo Federal. A morte dos estudantes em praça pública fez surgir um gigantesco movimento que foi chamado de MMDC, as iniciais dos nomes dos rapazes mortos durante a passeata.

Exaltada e cultuada como uma manifestação de defesa intransigente do retorno à Constituição e à Democracia, o MMDC faz parte da criação de uma mitologia gloriosa para São Paulo que por meios de propaganda eficiente, conseguiu galgar apoio de diversos setores da sociedade paulista contra Getúlio Vargas “o cruel ditador fascista”.

Muitas foram as vozes de intelectuais e políticos que criaram o ideário motivador do povo paulista. Como exemplo se destaca o paulistano Armando Salles de Oliveira, de quem transcrevo parte de um seu discurso:

”Movidos em determinado instante por um só impulso, os paulistas despertaram com súbita energia para uma fulgurante campanha de dignidade e de civismo. Alimentados por uma fé poderosa dissiparam com um largo gesto todas as dissenções, reuniram forças de sua atividade criadora e de sua inteligência prática e fundiram-se numa perfeita, luminosa unidade. Foram, então, para o combate, sustentados pela febre que lhes batia nos pulsos e nas frontes. Um a um, os paulistas levaram a sua pedra para a montanha imperecível, que cimentaram com o generoso fermento de seu sangue”.

A Revolução Constitucionalista de 1932 eclodiu em 09 de julho do ano e se tornou um dos maiores movimentos armados da história do Brasil. Com a ajuda dos meios de comunicação, o movimento mobilizou 35 mil soldados paulistas, contra os 100 mil do governo Vargas.

Apesar das bem sucedidas campanhas de comunicação de massa, São Paulo perdia a guerra na mídia. Enquanto o Estado contava com apenas duas emissoras de rádio, o Governo Federal possuía com um número muito maior. Além disso, São Paulo usava nas ondas de rádio, assim como a imprensa, as vozes de intelectuais de todos os setores para demonstrar, com seu talento, a nobreza de lutar contra o tirano. Enquanto isso, o Governo Central utilizava os microfones disponíveis para recrutamento, em linguagem popular, portanto mais eficiente em uma luta armada. Muitos voluntários de várias regiões acorreram para heroicamente defender o país, ao ouvirem os apelos da propaganda federal para:

·       “Lutar contra os italianos que comandados por um líder operário chamado Francisco Matarazzo pretendem fundar uma colônia fascista, separada do Brasil, sob as ordens de Mussolini”.

·       “Depois de roubar as riquezas de todo o Brasil, São Paulo quer se separar e nunca devolver o que tomou de nós”.

·       “Os barões do café querem uma revanche contra todos os brasileiros por terem perdido o poder em 1930”.

Os paulistas foram chefiados pelo General-de-brigada, o gaúcho Isidoro Dias Lopes, permanecendo isolados, sem a adesão esperada das demais unidades da federação, excetuando um pequeno contingente militar do Mato Grosso, sob o comando de outro gaúcho, o General Bertoldo Klinger, que posteriormente substituiu o General Isidoro no comando das forças constitucionalistas.

Com São Paulo isolado, cercado e praticamente desarmado, as fábricas paulistas se adaptaram para fabricar armas, munições e equipamentos de guerra. Armas e equipamentos faltantes foram solicitados aos países sul-americanos e aos EUA, mas não chegaram porque não foi reconhecida a “revolta” contra o governo central.

Desta situação carente, desenvolveu-se a maior campanha bem sucedida de apoio a uma causa política. A campanha do “Ouro para o Bem de São Paulo”, com milhões de doadores. Os paulistas mais ricos chegaram a doar joias de grande valor e os mais pobres doaram até alianças de casamento, na falta de outra coisa para doar. Quem contribuía recebia um anel de metal ou uma certidão impressa com inscrição: “Dei ouro para o bem de São Paulo”.

(A maior parte do que foi arrecadado não foi aplicada militarmente, mas, finda a Revolução, para que o Governo Federal não confiscasse o que havia sido apurado, o comando das forças paulistas doou os fundos remanescentes à irmandade da Santa Casa de Misericórdia, que acolheu e tratou os soldados da Revolução Constitucionalista. 

Para reprimir a rebelião paulista, Getúlio Vargas teve de enfrentar sérias dificuldades no setor militar, pois inúmeros generais simplesmente relutavam em cumprir suas missões, temendo perderem seus cargos ao final da luta. Em decorrência desse débil apoio na cúpula do Exército, para conquistar sua adesão, Vargas rompeu com os “tenentes”, que não eram bem vistos pelos oficiais do governo da federação. Mas mesmo em meio a essa crise militar, Getúlio conseguiu esmagar a revolta paulista.

Permanecendo sem qualquer apoio, os paulistas ficaram totalmente vulneráveis e apesar do lendário heroísmo paulista, em inúmeras batalhas o objetivo maior de invadir o Rio de Janeiro foi abandonado e transformou-se no desespero da luta para defender o território estadual.

Sem saída, o Movimento Constitucionalista rende-se em 28 de setembro e em 2 de outubro de 1932, assina o armistício. Em três meses, São Paulo empunhou armas, sacrificou seus filhos e sua riqueza em uma heroica jornada, deixando nos campos de batalha 1037 feridos e 830 mortos.

Para terminar esta narrativa da Revolução Paulista, quero fazer minhas as palavras de dois ilustres brasileiros. 

“Contudo, em face da reação armada de 1932, o Governo Provisório tomou, a partir de 1933, uma série de medidas para ajudar financeiramente os produtores de café, inclusive uma redução de cinquenta por cento nas dívidas bancárias destes últimos”. (Celso Furtado, um dos mais destacados intelectuais do Brasil.)

"Moralmente, porém, em termos de denúncia política, o movimento foi vencedor, porque logo depois do término do conflito, o Governo Federal convocou eleições para uma Assembleia Constituinte, que promulgou a Constituição do Brasil em 1934”. (Alexandre Hecker, professor de História Contemporânea da Universidade Estadual Paulista (UNESP) e da Universidade Mackenzie).

Mas tenho de recorrer a outro brasileiro ilustre, o meu amigo Milve Peria, para falar da participação de Taquaritinga e de minha família na Revolução de 1932. Seu cuidadoso e dedicado recolhimento de informações impressas da História taquaritinguense, tanto faz parte de meus textos, que frequentemente me esqueço das devidas aspas. Mas no texto que segue faço justiça.

“Taquaritinga teve participação decisiva no confronto e é um dos grandes orgulhos de nossa gente ter contribuído decisivamente para um movimento cívico e de patriotismo. Nossa cidade mandou 300 homens ao front. Ao partirem para o campo de batalha, todos assinaram um livro, que está até hoje guardado na Prefeitura Municipal. As mulheres que ficaram cosiam o fardamento, enquanto os homens que não puderam ir cuidavam das famílias daqueles que foram para a guerra. No alto do coreto da praça principal da cidade, foi instalado um alto-falante, de onde se transmitiam notícias do front”. 

Em 12 de julho, três dias após a deflagração de Revolução, é lavrada uma Ata de Reunião realizada no edifício da Prefeitura Municipal de Taquaritinga, com o propósito de nomear uma Comissão para organizar Batalhões Patrióticos, em prol do movimento para a volta do país ao regime constitucional. No dia seguinte, 261 cidadãos, entre eles Ítalo Cosentino, filho de José e Mansueto Cosentino, filho de Matheus e meu futuro pai, assinavam uma declaração:

“Nós, os que assinamos neste livro, paulistas de nascimento ou de coração, declaramo-nos solidários com o movimento armado em prol da constitucionalização imediata do país e, para a vitória dessa nobre causa, estaremos dispostos ao sacrifício. Taquaritinga 13 de julho de 1932”. 

Porém, mais importante que simplesmente assinar o livro que organizava os Batalhões, os dois jovens Ítalo Cosentino e Mansueto Cosentino se inscreviam como Voluntários de Taquaritinga na luta por São Paulo. O jornal “Cidade de Taquaritinga” publicou a relação de todos os que se inscreveram inseriu um ideário conclamando a população:

“Taquaritinga, neste movimento heroico de São Paulo pela salvação e Liberdade do nosso caro Brasil, marcha, não resta a menor dúvida, ao lado das demais cidades que trabalham com a maior energia, boa vontade e patriotismo, pela victória de tão sagrada causa. São milhares e milhares de donativos para os soldados da Lei. Apreciável importância em dinheiro para os capacetes de aço; centenas e centenas de pessoas que já entregaram aos Bancos o seu ‘Ouro para a Victória’ e para coroar tudo isto, da nossa terra, já partiram para o ‘front’, para a defeza do ideal mais puro e sacro santo, centenas de jovens que, no fundo das trincheiras, armas em punho, destemidos, sublimes, heroicos, offerecem à Pátria, para sua grandeza, o que possuem de mais caro – a própria vida”.

Mesmo envolvido por sentimentos tão nobres aos 24 anos, Mansueto era puxado para o cotidiano por suas pendências com o irmão Braz, do qual havia se separado comercialmente há apenas dez dias, quando, em 15 de julho, chega as suas mãos uma folha encabeçada com um impresso da Casa Radium, “propriedade de Braz Cosentino & Cia Ltda.”. Trazia ainda o endereço, da Rua Prudente de Moraes, 36, Taquaritinga. Antes que qualquer dúvida surgisse em sua mente, viu o carimbo: Tipografia do Braz, Rio Preto.  Era uma proposta de Braz para liquidação dos débitos oriundos do término da sociedade fraterna. Leu a proposta e já sabia o que responder antes mesmo de termina-la:

“Poderei dar a importância de seu saldo em quatro vezes, para formação de seu capital no Cine Coliseu, ficando assim sócio. Caso não queira, lhe mandarei títulos para pagamento do saldo, sem juros. Peço responder-me o mais breve, possível porque tenho necessidade de registrar a nova firma antes do fim deste mês. Assim também sai a responsabilidade que, como sabe, não foi registrada a firma Braz Cosentino & Cia. Ltda.”.

Sem ter muito que pensar, escolheu a segunda hipótese e enviou no mesmo dia sua resposta ao irmão. Estava mais envolvido nas campanhas cívicas que em negócios corriqueiros.

Taquaritinga Estava bastante ativa e bem organizada para tomar ações necessárias ante a emergência de “guerra”. Já em 17 de julho foram formadas, Comissões de Abastecimento, encarregadas de providenciar suprimentos, aos cinco distritos municipais. Isso era notícia para o jornal Cidade de Taquaritinga: “Para que não ocorresse a falta de gêneros de primeira necessidade e combustível, não só para a população, mas, em especial, para os soldados que compunham os diversos frontes, foram organizadas comissões, para a cidade e para os distritos”.  Na Comissão do Distrito Sede de Taquaritinga, constavam Antonio Cosentino, Sylvio L. Barreto, Andrelino Mendonça, Nildo Borelli e Braz Vieira Ribeiro.

Enquanto os mais jovens da família Cosentino se ocupavam de ações altaneiras, Braz, aos 41 anos de idade não podia fazer o mesmo, emaranhado por “causas” mais rés ao chão. Em 18 de agosto os Irmãos Curti, empresários proprietários do Theatro Municipal em Taquaritinga e do Cine Theatro Capitólio em Rio Preto, haviam enviado uma seca missiva estritamente comercial para Braz Cosentino e Cia., onde Francisco Curti pede urgente pagamento e, alega que os títulos a receber não estão em seu poder. Braz deixou passar mais de um mês para dar resposta ao que considerou uma desnecessária falte de educação. Somente em 25 de agosto deu sua resposta, no mesmo tom, a Francisco Curti: “Se os Srs. nada podem adiantar sobre os títulos a receber, devo procurar o sacado. Entreguei aos Srs. o título, em confiança e, conforme os receberam, mos devolverão. Aguardo, pois essa devolução, no mais curto prazo. Quanto ao pagamento de título, nada posso lhes dizer, porquanto a firma Braz Cosentino & Cia. Ltda., tem um sócio a quem estão a cargo os negócios da firma. Sem mais, com estima e apreço (...)”. Passava a responsabilidade do pagamento ao irmão Mansueto e não o fazia por maldade, apesar de estar particularmente aborrecido com tudo. Seus negócios não conseguiam deslanchar como nos áureos tempos e as dívidas não diminuíam. Além dos Curti, a Prefeitura de Rio Preto, não parava de cobrá-lo do pagamento do Imposto de Indústria, “com multa e prazo de cinco dias, sob pena de cobrança judicial, com acréscimo de 20 %”. Revolução Constitucionalista? Nem pensava nela, apesar de andar tendo ânsia de matar alguns desafetos constituídos.

Entretanto, a edição do jornal Cidade de Taquaritinga, de 25 de setembro de 1932, era, quase toda, dedicada a assuntos voltados à Revolução, incentivando o alistamento de voluntários, à doação de bens, alimentos, armas e, em especial, à Campanha do Ouro. Uma página inteira do jornal conclamava: “Taquaritinguenses!!! Tudo por São Paulo e pelo Brasil”! Ao lado da Comissão Arrecadadora do “Ouro para a Vitória” desfilavam dezenas de balancetes dando informação do andamento de listas com intermináveis nomes de doadores para a Campanha de Ouro para o Bem de São Paulo. E entre tantos doadores dificilmente deixa-se de encontrar diversos nomes conhecidos. São todos testemunhos da coesão dos cidadãos taquaritinguenses de todas as classes sociais, que unidos, participaram como podiam dos dias gloriosos da Revolução Constitucionalista de 1932.

Entre as principais listagens encontram-se as divulgadas pelo Banco Commercial e pelo Banco do Commercio e Indústria, onde foram relacionadas as centenas de doações feitas entre 16 de agosto a 15 de setembro. 

Na do Banco Commercial, constavam os nomes de 133 cidadãos doadores. Além de muitos nomes conhecidos, encontro os de meus familiares: José Cosentino Neto, Maria Cosentino Neto, Christina Cosentino, Irmãos Ordine, filhos de Nicola e Taquaritinga Club, em cuja Diretoria estavam Walter e Mansueto Cosentino. 

Igualmente na Relação dos donativos feitos em Taquaritinga e Santa Ernestina à “Campanha do Ouro” recolhido pelo Banco do Commercio e Indústria, no mesmo período entre 16 de agosto a 15 de setembro, constam 163 nomes de devotados cidadãos, entre os quais: Thereza Cosentino Albanese, Mafalda Cosentino, Helena Cosentino, Maria Aparecida Cosentino, Lucinda Cosentino e Nicola Ordine.

Em 28 de setembro de 1932, apenas três dias após a divulgação das Listas de Doadoras, o Comando do Movimento Constitucionalista é derrotado e se rende às Forças Federais. Cinco dias após, em 2 de outubro, é assinado o Armistício.

Entre os combatentes que perderam suas vidas nas trincheiras, três foram os filhos de Taquaritinga. São eles: Clineu Braga de Magalhães, Dilermando Dias dos Santos e Octávio dos Santos Calheiros. Esses três heróis foram homenageados com seus nomes em ruas próximas da necrópole de nossa cidade.

Em homenagem à Revolução, foi dado o nome de “9 de Julho” à principal Praça da cidade, onde posteriormente foi construído o monumento réplica do obelisco em homenagem ao Movimento Constitucionalista localizado no Parque Ibirapuera em São Paulo. A praça taquaritinguense é atualmente denominada Dr. Horácio Ramalho, em homenagem ao ilustre advogado, professor e escritor, que foi tenente na Revolução de 1932. Faleceu durante o segundo ano de exercício do cargo de Prefeito, em 06 de julho de1987. 

Indicado como interventor em 1930, após o término da Revolução Constitucionalista, Carlos de Oliveira Novais, foi afastado da prefeitura e substituído, por decreto de 26/11/32, pelo médico Dr. Francisco de Arêa Leão, que desde a queda do Partido Republicano Paulista, surgia como um novo político chefe da ala Getulista em Taquaritinga. Arêa Leão, desde o término da Revolução de 32 em setembro, já vinha interinamente ocupando o cargo. Seu primeiro mandato foi de 2 de outubro de 1932 a 4 de outubro de1933. Mas, apesar de interventor, foi pessoa muito querida e ocupou a Prefeitura por mais dois períodos, sendo o último conquistado através de eleição. 

Resta dizer, para encerrar a história da Revolução de 1932, que em janeiro de 1933, foi constituída uma Comissão representando os Voluntários de Taquaritinga, com sede na Rua Prudente de Morais, 51. Destaco que, entre os eminentes taquaritinguenses que compunham a comissão encontra-se o nome de Antonio Cosentino, filho de José.

Porém, para encerrar o ano, resta deixar constando o Balanço da firma Braz Cosentino & Ordine Ltda., datado em 31 de dezembro de 1932 e feito por Mansueto, obrigado a voltar aos temas corriqueiros do cotidiano. Na demonstração o “Ativo”, constavam o Cine Coliseu, uma ação, títulos a receber e valor em conta/corrente. O “Passivo” carregava prejuízos de exercícios anteriores, inclusive referentes ao Capital Realizado e de hipoteca do Coliseu, títulos a pagar e débitos correntes. A conta de Lucros e Perdas trazia prejuízo causado por juros e descontos. A renda principal da empresa vinha de aluguéis do cinema e de uma insignificante renda teatral. Mesmo sobrevivendo dos aluguéis do Coliseu, fecha o ano com     uma grande dívida, a hipoteca do Coliseu, no valor de 80:000$000 (oitenta contos de réis), equivalendo a quase três vezes o Capital Social, da empresa. 

Pois é, apesar dos altaneiros sentimentos e heroicos atos de todos os paulistas, o ano de 1932, não foi bom para São Paulo e muito pior para os negócios da família Cosentino.

 

Mateus Cosentino

Sampa – 23.03,2018

 

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