“Una
Piccola” História de Família
Livro 1 -
Parte 1 - Recomeço
CAPÍTULO 10 –
SERVITÙ TEMPORANEA
Em 1902, quando a família Cozza chegou
à Jaboticabal para trabalhar na Fazenda Pau D’Alho, os Laitano já lá estavam há
cinco anos. A partir de então nasceu uma amizade entre ambos, maior até do que entre
muitas famílias consanguíneas. Viviam juntos seu duro cotidiano do trabalho de
colher café. Giuseppe Laitano e Thomaz Cozza tornaram-se inseparáveis e Isabela
e Mariana se deram muito bem e criavam seus filhos como se fossem todos irmãos.
As famílias praticamente só se separavam para dormir em suas próprias casas
conjugadas de colonos.
No
início, os Cozza estavam motivados com as promessas dos propagandistas
brasileiros, contadores das maravilhosas possibilidades de “fare l’America”. Giuseppe
achava que, com o passar do tempo, Thomaz iria aprender por si o quê era
verdade. Mas Thomaz demorava para separar o grão da casca e ele se sentia
culpado, porque a amizade entre as famílias encobria algumas dificuldades e
desapontamentos iniciais, que ele, sua esposa e filhos tiveram nos primeiros
tempos na fazenda. Quisessem ou não, Giuseppe e Isabela orientavam e ajudavam
os Cozza, impedindo-lhes o enfrentamento dos pequenos problemas iniciais de
adaptação à nova vida brasileira.
Porém
a realidade acaba sempre se sobrepondo às ilusões, mas se passaram rapidamente muitas
semanas, meses e um ano de envolvimento no árduo trabalho no cafezal. Os Cozza
iam percebendo devagar e aos poucos a realidade que seus amigos Laitano,
tentavam esconder deles ou mostrar que eram aborrecimentos sem importância, que
deviam ser postos de lado. Mas doze meses é muito tempo para se sustentar
ilusões.
Como
já era hábito nas noites de verão, os dois casais após o jantar sentavam-se
fora de casa nas cadeiras colocadas entre suas moradias. Faziam isso sempre
conversando e vendo seus filhos diante deles, nos folguedos próprios da idade,
ora a correr, ora a conversar.
Era
uma noite clara de Lua cheia do quente verão de 1903 e a conversa tratava dos
assuntos costumeiros de casa, de crianças e de trabalho. Mariana, entretanto desviou
o rumo usual, perguntando à amiga Isabela se o Contrato assinado pelos Laitano
já não estava encerrado, sem validade. Ela sabia que todos os colonos assinavam
o mesmo tipo de Contrato que os mantinham presos à fazenda por quatro anos.
O Contrato
não era de todo ruim, obrigava-os a plantarem, nesse período, duzentos mil pés
de café, para o patrão, mas receberiam um mil e quinhentos réis por cada um
deles. E ao final dos quatro anos iriam receber trezentos contos de reis, que
era um bom dinheiro para comprar umas terrinhas e deixar de ser empregado. O
melhor de tudo era poder se livrar do “maledetto” Fortunato, o capataz da
fazenda.
-
Sim, já estamos aqui há mais de cinco anos e o Contrato terminou no ano passado,
disse Giuseppe tomando para si a resposta.
-
Então por que vocês ainda estão aqui? Quem perguntava agora era Thomaz.
Essa
dúvida não surgira assim de repente, os Cozza já andavam se perguntando há
algum tempo porque seus vizinhos não haviam ainda ido embora. Seu crédito em
dinheiro por um ano de trabalho não havia sido o que ele esperava. Levavam
dúvidas e preocupações para a cama e comentavam o assunto até o cansaço os
fazer dormir..
Não
entendiam porque os Laitano permaneciam depois de seu contrato de trabalho já
haver terminado. Mesmo colhendo o café na plantação dos vizinhos, Giuseppe e
Mariana já haviam conseguido plantar, com a ajuda deles, os cinquenta mil novos
pés de café contratados para seu primeiro ano na fazenda. Os Cozza já haviam
decidido que iriam embora, no mesmo dia em que não estivessem mais presos por
contrato. Pegariam o dinheiro que receberiam e iriam recomeçar a vida em terras
próprias.
Diante
da pergunta já esperada de Thomaz Cozza, Giuseppe Laitano deu uma olhada para Isabela,
sua mulher e cúmplice, que balançou a cabeça afirmativamente.
-
“Bene, già è il momento della verità”.
Giuseppe
pretendia dizer isso como uma brincadeira, mas apesar de esboçar um sorriso ao
dizê-la, suas palavras saíram com uma entonação grave, diferente da sua
intenção. Leonne o filho mais velho de Giuseppe, então com catorze anos, parou
o que fazia e veio se juntar aos pais para ouvir a conversa. Seu irmão
Leonardo, dois anos mais moço, o acompanhou. A irmã Maria, de dez, permaneceu junto
a Filomena e Linda, de nove e sete anos de idade, filhas dos Cozza. Elas ficaram
conversando entre risinhos contidos e tentando afastar Thomazino, de cinco anos
o irmão caçula Cozza, que brincando insistia em se intrometer na conversa das
mocinhas.
Giuseppe
ao ver a aproximação dos dois filhos, relutou sem saber se seria apropriado continuar.
Thomaz fez um sinal com a mão indicando que ele gostaria que o amigo continuasse.
-
Todo santo dia a gente fica, das sete da manhã às cinco da tarde ocupando
nossos miolos e nosso corpo com o café. Vocês,
desde que chegaram já estão colhendo o café que nóis plantemo “cinque anni fa,
da quando siamo arrivati qui” em 1897. O Contrato de trabalho é de quatro anos,
mas para uma nova plantação de café ter uma boa produção a gente precisa
esperar cinco anos.
-
Então é por isso que vocês ainda estão aqui, certo Giuseppe? Plantaram todos os
pés de café e estão esperando o belo “dinaro” para ir embora. Certo?
- “È per questo che non ci ha detto niente per
noi Isabela”? A pergunta foi de Mariana, aflita com a possibilidade de perder a
amiga.
- “Il
motivo è che ci vano andare via”? Continuou, segurando as mãos de Isabela.
- “Ma che! Se tutto fosse così facile...”
-
“Quello bruto dinaro”, se foi quase tudo, Thomaz. Para se viver todo esse tempo
e sustentar a família, comprar remédio...
-
O dinheiro mal deu para pagar as compra, continuou Isabela. A gente fazia as
despesas na vendinha da fazenda e o Administrador fazia uma ficha dos mil e
quinhentos reis do café plantado no mês e descontava as despesas.
-
E enquanto se esperava as colheita no final dos quatro ano, continuou Giuseppe,
a gente quase não viu dinheiro, “ma al meno” tinha crédito na vendinha.
Se
o imigrante começava uma nova lavoura e terminasse seu trabalho em quatro anos,
certamente sairia com muito pouco dinheiro. Quase todos preferiam ficar um ano
ou mais, para sair com maiores condições de começar um negócio qualquer.
Isabela
chegou-se mais perto de Mariana e disse quase sussurrando:
-
Escondido do Capataz, nos domingo, junto com outras família de colono, a gente ia
na vila e vendia umas galinha e carne de porco, “per salvare alcuni” mirréis.
-
Mas era proibido, juntou Giuseppe, só as mulheres faziam esse contrabando. Se
um homem era pego fazendo isso, levava uma bruta multa. Das mulheres, o Capataz
Fortunato, tentava só ficar com uma parte do dinheiro delas. Mas elas o escondiam
nas parte. Nem o “farabutto” tinha coragem de mexer...
- Se
mexesse morria! “Qui sono tutti oumini de omertà, cazzo!”
-
“Da vero paesano”!
Riram
todos. As mulheres com a mão escondendo o rosto, fingindo-se envergonhadas, os
homens e os dois rapazes com os punhos cerrados demonstrando força e as
crianças achando graça sem saber de quê.
-
Então vocês vão embora? Indagou Mariana e repetiu assustada: “Andate tutti via”?
- “Eco,
sono passati cinque anni”, lamentou Giuseppe.
-
E ainda tamo com uma mão na frente e a otra atráis. Intrometeu-se Leonne na
conversa.
Todos
olharam para o rapaz. Estavam acostumados a vê-lo sempre quieto, timidamente
ouvindo e quase nunca se metendo a falar nas conversas dos pais. Leonne estava
de pé diante deles e, emocionados, perceberam que aquele menino de catorze anos
parecia estar deixando de ser criança. Demostrava-se, ali à sua frente, ser uma
pessoa revoltada que aprendera a calar, como seus pais, ante tantas injustiças
que vira sua família sofrer por cinco anos. Mais pela atitude e tom da voz e
menos pelas palavras, Leonne acabava de falar como adulto! Só agora surpresos todos
percebiam essa mudança nele.
Quando
Leonne chegou ao Brasil aos oito anos, ouvia encantado seu pai, contar com a
energia de sua juventude de trinta e um anos, os sonhos e esperanças de finalmente
fazer fortuna em um país onde tudo era fácil, porque tudo estava por fazer. Giuseppe
ensinava que com dedicação ao trabalho que só homens livres podiam ter, não haveria
como não vencer. E não havia dúvidas em sua cabeça de que se o imigrante era a
mão-de-obra nas plantações de café que enriqueceu o Estado de São Paulo, ele
também merecia participar dessa riqueza.
Mas
nos cinco anos que se passaram, Leonne via seu pai, ainda um jovem de trinta e
sete anos, cada vez mais desgastado com o trabalho de sol-a-sol, perder pouco-a-pouco suas esperanças e ver
cair por terra todos os seus sonhos de fortuna. Como imigrante, Giuseppe era um
homem livre, mas preso por contrato a uma servidão temporária. Porém, como
todos imigrantes, permanecia com a mente livre. Sua atitude era muito diferente
da dos ex-escravos, ou mesmo dos caboclos locais, forçados a aceitar a servidão
passada de pai para filho por centenas de anos. Deixava claro a quem quisesse
ouvir que ao fim do Contrato, todos imigrantes como ele mesmo, deveriam se libertar dessa servidão de quatro
anos.
Em
contrapartida os fazendeiros, criavam artifícios para impedir esse direito à
liberdade, na tentativa de manter os trabalhadores presos às suas terras. Endividá-los
foi a mais eficiente dessas artimanhas. Conseguiram com isso, que os corpos de
trabalhadores livres ficassem prisioneiros, mesmo que não impedissem que suas
mentes continuassem sonhando com a liberdade. Conseguiram diminuir suas expectativas
pessoais e enfraquecer seus sonhos individuais. Porém, os imigrantes, pelos filhos que tinham, pelo fortalecimento
que lhes dava a responsabilidade de dar futuro à suas famílias, não se dobravam
de todo a amos, senhores ou patrões. Era, portanto inevitável o surgimento do
conflito permanente na relação entre imigrantes e fazendeiros, causando
diversas revoltas e até mesmo rebeliões.
Tal
situação fazia com que, um bom número de imigrantes, após de curta passagem
pelos latifúndios, os abandonassem. Ignorando as imposições contratuais, eles
fugiam, mantendo-se incógnitos e, sem qualquer
imposição contratual, passavam a trabalhar em novas frentes do café mais ao
norte do Estado e no Triângulo Mineiro.
Nessas
regiões de nova cafeicultura, desde sua chegada o imigrante europeu era
aproveitado como mão-de-obra nos cafezais já em plena produção, onde ele
preferia trabalhar. Os fazendeiros aceitaram isso, pois preferiam utilizar
caboclos, ou até mesmo indígenas remanescentes, na derrubada da mata destinada às
novas plantações. Tinham a preferência dos fazendeiros para esse desmatamento
pela sua produtividade maior. Seu custo menor e o conhecimento das técnicas de
desmatamento eram grande vantagem nesse tipo de serviço, em relação ao
desconhecimento e desinteresse do camponês europeu por essa atividade depredadora.
Entretanto
a família Laitano permaneceu por longos cinco anos, suportando esse tempo todo o
desrespeito com que era tratada. Leonne calava sua revolta, vendo seu pai fazer
o mesmo. Não que fosse muito diferente no mezzogiorno italiano, as relações de
trabalho entre seu pai e os donos do lugar. Mas o rapaz não tinha como se
lembrar disso, pois quando lá vivia, além de ser muito criança, não convivia,
como aqui, com seu pai no trabalho cotidiano e somente se lembrava dele
chegando em casa fazendo festa com toda a família.
Leonne
simplesmente não entendia e, portanto não aceitava os gritos, as ofensas e ordens
de trabalho forçado que todos recebiam. Assim, foi interiorizando e escondendo
e quando queria reagir e seu próprio pai o impedia. Como aceitar a submissão
paterna? Como concordar que um simples contrato obrigava a submeter-se a tal
servidão? Ignorava as tão fortes causas que podiam criar tal situação.
Além
disso, como toda sua família, vivia isolado em uma fazenda de grande extensão
territorial muito distante de outras. Como todos os trabalhadores,
desgastava-se no árduo trabalho cotidiano plantando e colhendo café. Como poderia
ter explicações se, além disso, não
frequentava escola, não aprendera nem a escrever e se só vivia para trabalhar?
Somente
com Leonardo, seu irmão menor, confidenciava, confabulava e expunha sua
revolta. Eram cúmplices, mas nem imaginavam que o maltrato recebido tinha causas em
antigos costumes arraigados na mente dos fazendeiros. Esses Barões do café, acostumados
a trabalhar com escravos em passado ainda recente, não atinavam, ou não se
importavam, que agora lidavam com trabalhadores europeus livres e assalariados.
E os tratavam do mesmo modo com que cruelmente
tratavam seus antigos escravos africanos desamparados da Lei e igualados a
mercadorias.
Giuseppe,
explicava ao filho que ao assinar o Contrato, estava dando sua palavra de que
iria cumprir tudo o que estava escrito nele. Por isso se sujeitava a não fazer
nada que fosse contrário às suas cláusulas e aceitava as ordens do capataz e a
fiscalização do administrador. Achava também que tudo poderia melhorar, pois já
há algum tempo as notícias da situação de semiescravidão dos imigrantes era do
conhecimento do Governo da Itália, que criara uma lei para amparar os
emigrantes e eliminar os maus tratos que seus cidadãos sofriam no Brasil.
- “Siate
calmi figlio mio, che le cose andrà meglio per tutti noi”.
Mas
desde que chegou à Fazenda Pau D’Alho, Leonne via o Capataz Fortunato tratar
sua família e a de todos os outros, com brutalidade e desrespeito. Ele nem
imaginava que aquele calabrês ignorante reproduzia o modo de tratamento que ele
mesmo sofria do proprietário e do administrador da fazenda. E, com sua índole
autoritária tornava ainda mais brutal o tratamento que repassava aos seus
conterrâneos imigrantes.
Fortunato,
calabrês de Catanzaro, era um sujeito mal encarado de grandes bigodes negros. Por
sua valentia tornara-se capataz da Fazenda Pau d’Alho. Supervisionava o
trabalho de todos, sempre montado em um belo cavalo negro, mantendo a cabeça coberta
por um chapéu da mesma cor. Mantinha permanentemente atrás da orelha um cigarro
de palha, sempre apagado, de fumo de rolo dos mais fedorentos. Antes de qualquer
palavra aos colonos, sacava do bolso uma binga em forma de bala de grosso calibre, tirava o cigarro de trás da
orelha, calmamente o acendia e dava uma baforada jogando a fétida fumaça em
direção ao rosto de sua vítima. E atrás da fumaça, gritava frases que
demonstravam sua brutal ignorância.
Fortunato
era sem dúvida a pessoa mais odiada da Fazenda. Os colonos mais antigos diziam
que ele chegara há mais de dez anos, vindo de São Carlos. Veio sozinho como se
fosse solteiro, mas pelo menos um fim de semana ao mês, sumia. Um imigrante
vizinho aos Laitano, disse tê-lo visto naquela cidade, num sábado e ele não
estava sozinho. Em São Carlos havia uma espécie de bairro, onde viviam quase
todos os calabreses vindos de Catanzaro, em geral muito “bona gente”. Um dos
moradores contou que Fortunato havia sido “brigante” na Calábria e condenado à
morte pelo assassinato de quatro pessoas.
Naquele
início de século a aplicação da lei e a manutenção da ordem na região
cafeicultora, ainda era bastante precária. Não era raro os fazendeiros
contratarem bandidos inescrupulosos e foras da lei, mantendo-os como capangas para
ameaçar, roubar e até matar quem ameaçasse seus domínios. Alguns desses
marginais se tornaram personagens lendários, no folclore do interior paulista.
O brigante
da Itália meridional chegado ao Brasil, era qualificado por analogia, simplesmente como capanga servil dos
poderosos. Claro que os brigantes na Itália também viviam na ilegalidade e em
seu meio poderia haver alguns capangas ou bandidos mercenários. Tanto assim que
na própria península italiana eram definidos pelos poderosos do mesmo modo como
ladrões e bandidos. Entretanto a grande diferença entre as quadrilhas rurais de
foras da lei paulistanas e os brigantes na Itália era a motivação original.
Os
brigantes italianos, por falta de opções, lutavam contra a opressão social, a política
governamental dos donos de terras. Em sua grande maioria eram rebeldes e
guerrilheiros, que do ponto de vista do
poder, eram pejorativamente chamados de terroristas, para justificar a
repressão policial contra eles.
No
“mezzogiorno” italiano, os brigantes eram protegidos pela “omertà” da população.
Esse era um pacto de honra cultural, que calava a todos e os fazia nada revelar
sobre crimes, ou as circunstâncias em que eles foram realizados, a identificação
de quem os cometiam e ou qualquer coisa que pudesse incriminar os foragidos da
lei, fosse qual fosse a gravidade do crime praticado. Esse era o sentimento de
“onorabilità”, um senso de honra que estava acima de tudo, mesmo entre os fora da
lei e até aos que exploravam os “paesanos” que os protegiam com seu silêncio.
Hábitos
culturais como “onorabilità” e “omertà” deram cobertura à atitudes e
organizações de origem aparentemente nobre, como a “cozza mostra” e o
“brigantismo”. Porém ao longo do tempo, permitiram e incentivaram o abuso e a
impunidade de muitos, desde o início mal
intencionados incentivaram a corrupção de outros tantos inicialmente carregados
de boas intenções. Era o que meu pai queria dizer quando afirmava que “a
ocasião faz o ladrão”.
Isso
provavelmente ocorreu com o capataz Fortunato, de início motivado por revolta, bravura e heroísmo. Ao final,
terminou sua luta perseguido e derrotado, sofrido e impossibilitado de reagir. Sem
opções deixou-se corromper pela vingança contra todos e conseguiu emigrar para
escapar das duras penas que os tribunais italianos lhe imputaram. Perdeu
qualquer senso de honra e compaixão que um dia deve ter tido. Passou a crer que
somente a força e a crueldade o fariam vencer e que “omertà” era sinônimo de
valentia e comportamento de macho dominante. Por sua própria escolha seria o
instrumento dos que tinham a força e poder, tornando-se o opressor dos fracos,
como ele mesmo havia sido vítima em sua própria juventude.
Mesmo
chegada há apenas um ano à fazenda, Mariana Cozza havia adivinhado muitas
coisas. Seus instintos intuíam que os Laitano já haviam tomado a decisão de irem
embora, mas também sentia que Isabela sempre reagia à mudança. Desde que casara
na Itália, há quinze anos, ela estava sempre se mudando com o marido e os filhos.
De seu “paese” no sul, viajaram até o norte e de lá resolveram seguir para o
Brasil e agora mesmo iriam novamente ter que mudar.
Sempre
que partiam, era para escapar das dificuldades causadas pela falta de recursos
e pelo ameaçar da estrema pobreza. Esperavam no lugar em que estavam até se acabarem
todas as esperanças de uma vida melhor. Isabela passava seus medos para
Giuseppe, que também ficava indeciso. Assim, ambos atrasavam a partida, enquanto
não eram superadas as incertezas de um futuro melhor. Entretanto todo o medo e
indecisões acabavam quando a vida precária que estavam levando atingia seus filhos.
Ante as ameaças à saúde das crianças, Isabela e Giuseppe colocavam a “paura” de
lado, criaram coragem para partir.
Como
agora, quando outra vez, precisavam partir, pois estavam vivendo os mesmos
dias, as mesmas coisas... “Tutte uguali” sem evolução. Se permanecessem ali na
fazenda, passariam a vida toda sem progredir. Não traziam mais aquele sonho
imigrante de ganhar rapidamente dinheiro, mas tinham o dever e a esperança de
buscar uma melhor condição de vida para seus filhos. Precisavam dar a eles uma terra
própria, livre de contratos e capatazes.
Esperavam
o final da colheita para partir. E entre tantos motivos já citados, agora os
filhos Leonne e Leonardo estavam se tornando rebeldes e revoltados com essa
vida. Isabela se apavorava com a possibilidade deles tentarem enfrentar os maus
tratos de Fortunato. Giuseppe já estava preparando a partida, queria deixar a
fazenda, assinando tudo o que havia por assinar e levantando tudo o que tinha
direito a receber. Queria sair sem nada dever e sem deixar nada para receber.
Queria ir embora e esquecer de vez esses cinco anos na Fazenda Pau D’Alho.
Mas
a fatalidade vem de repente e sem aviso. Uma manhã, Maria a filha de dez anos
acordou reclamando dor de cabeça. Ao encostar o dorso da mão na fronte da
menina, Isabela sentiu a temperatura alta de febre. Ao ajudar Maria a se sentar
na cama, a filha pareceu sentir uma pequena tontura e reclamou de dores no
corpo. Mãe experiente de três filhos não se apavorou, já havia curado diversas
gripes na família. Apesar de não estar fria a manhã, massageou os pés e pernas
da filha, vestiu meias grossas na menina para manter seus pés aquecidos.
Agasalhou-a com um seu casaco de lã e a deitou, cobrindo-a novamente.
A
vizinha Mariana já estava lá. Não vendo Isabela tratar das galinhas, como em
todas as manhãs, correu para a casa da amiga. Ambas já estavam providenciando a
receita que haviam aprendido na fazenda para curar gripes e resfriados; chá de
limão reforçado com raiz de gengibre. Era tiro e queda.
Porém
quando Maria começou a sorver o chá, foi tomada por alguns calafrios e ameaçou
vomitar. Só então as mulheres começaram a se preocupar. Enquanto Mariana corria
para esquentar na água alguns panos para fazer compressas na febril Maria,
Isabela fazia massagens nas costas da filha. A essa altura todos estavam ao
redor da cama de Maria, demonstrando medo e solidariedade para querer ajudar.
-
Ei gente! Afasta, afasta. A menina precisa respirar, disse Mariana, enquanto
afastava os dois homens e as cinco crianças.
-
Isso! Deixa que nós duas cuidamo de tudo, completou Isabela, já comandando:
Giuseppe e Thomaz, vão pro trabalho. Explica pro Fortunato nossas falta pra não
ter problema com ele.
Olhou
para a criançada e completou:
-
Vocês leva Leonne, Leonardo e Thomazino junto pra lavoura. E, vocês – apontando
para Filomena e Linda - vejam se “seu” Güido tá em casa!
Na
fazenda, carente de recursos médicos, havia diversos tipos de curandeiros.
Abundavam mais os “pretos-velhos” de ambos os sexos, originariamente escravos
exauridos de força para o trabalho na plantação. Sem ter parentes e nem para
onde ir, viviam de cuidar dos colonos com rezas africanas miscigenadas ao
catolicismo, acompanhadas de vários passes das mãos por sobre a cabeça dos
pacientes e indicação de chás com as ervas medicinais tão numerosas nos
trópicos, conhecidas de longa data pelos antigos indígenas da região.
“Seu”
Güido não era um desses curandeiros, ele era também um ancião, mas italiano
“oriundo”. Em sua longa vivência de Brasil, incorporou em suas rezas e bênçãos
de firme crença católica, algumas ervas que os “pretos-véios” o ensinaram a
usar.
As
meninas voltaram trazendo “seu” Güido. Ele limpou os pés descalços, entrou sem
nada falar e foi direto à cama onde Maria dormia. As duas mulheres e as três
meninas entraram juntas. Maria acordou e se assustou. Procurou a mãe, que lhe estendeu
o braço e segurou sua mão.
O
velho Güido não tocou na menina. Ajoelhou-se diante dela, juntou as mãos e
começou a rezar em voz baixa, cercado pelo silêncio de todos. Ao terminar, com
a mão direita, fez sinais da cruz na
testa, nos olhos, na boca e no peito de Maria, repetindo sempre:
-
“In nomine di Padre, Figlio e dello Spirito Santo”.
Seu
diagnóstico inicial estava pronto, baseado no aspecto da menina, sua respiração
e temperatura. Mas sua vasta experiência o impedia de ser conclusivo em uma
primeira visita. Deixou algumas ervas receitando chás, indicando muito repouso e prometeu voltar em dois dias.
Isabela quis lhe dar uma galinha em agradecimento, mas ele não aceitou.
-
“Dopo vedremo”, disse e já se retirando; “non si preoccupare, deve essere
niente, solo um bruto freddo”.
Houve
um certo alívio na casa; seria apenas um forte resfriado. E pelo menos parecia.
A menina agasalhada dormia, apesar de não ser um sono muito tranquilo.
Quando
Giuseppe, Thomaz e os meninos retornaram do trabalho, foram logo tranquilizados
pelas mulheres. Mariana estava fazendo Maria tomar um chá. Sentada na cama a
menina ao ver o pai e os irmãos sorriu deixando todos aliviados e contentes.
Giuseppe contou que Fortunato ao saber o motivo da ausência das esposas, não
esboçou nenhuma recriminação, apenas ouviu e nada disse.
O
dia seguinte transcorreu do mesmo modo. Os homens foram ao trabalho e as
mulheres ficaram cuidando de Maria. Mas no terceiro dia, ao cantar dos galos,
Güido já esperava à porta, como havia prometido. Na presença de todos, mesmo
antes que os homens saíssem, repetiu o ritual anterior prolongando-o com mais
orações rezadas por todos.
Saiu
junto com os homens, tentando manter todos sossegados e dizendo que voltaria
ainda no mesmo dia. Recomendou apenas continuar dando chá e bastante água à
Maria. Somente ele não estava sossegado, pois percebendo um início de
amarelamento na pele e no branco dos olhos da menina, completou seu
diagnóstico.
Güido
sabia que aquele amarelo era “quiteriça” – assim ele chamava a icterícia – era
a febre amarela, não tinha dúvidas. Vivera três epidemias seguidas dessa
“maledetta febre gialla”, vindas há sete, cinco e um ano atrás, nos anos de 1896,
1898 e 1902. Febre amarela era uma doença difícil de entender e de tratar. Não
era todo mundo que ficava doente, a doença durava pouco; uns dez dias, mas
quase sempre era fatal. Esses três surtos dizimaram tanta gente na região que
alguns povoados, vilas e cidades não conseguiram se recompor e retornar a ser o
que eram antes.
Havia
alguns anos que cientistas brasileiros já haviam descoberto as verdadeiras
causas da febre amarela. Neste nosso atual Século XXI, todos conhecem
plenamente a causalidade daquela peste. Mas em 1903 esse conhecimento não
chegara ainda a ser generalizado e mesmo onde era divulgado, não era de todo
aceito. Até mesmo pessoas ligadas à medicina e saúde não aceitavam que as
epidemias fulminantes de febre amarela eram causadas por um diminuto vírus
denominado flavivírus. Parecia mais incrível uma tão fatal epidemia ser
transmitida ao ser humano pela picada de um simples pernilongo, um mosquito
conhecido cientificamente com o nome “Aedes Aegypti”. Por isso ninguém atribuía
os períodos de maior ocorrência da epidemia, à intensificação desses insetos
nas épocas de grande calor e umidade das chuvas do inicio de novembro até o mês
de abril.
A ignorância da origem
da doença gerava diagnósticos estapafúrdios. No início falava-se até que era consequência
da miscigenação, da “mistura de raças”.
Depois culparam o clima, o ar, o vento, propagadores dos “miasmas”, os vapores
de exalação pútrida gerada no solo, no lixo e nos esgotos, pelos dejetos em
decomposição de vegetais, de animais e principalmente de pessoas contagiadas
pela febre. Mais recentemente, no alvorecer das descobertas da microbiologia,
responsabilizavam pelas epidemias, os “cogumelos”,
os “bolores”, os “mofos”, e os “micróbios”, como bactérias, fungos e
protozoários.
O
fato é que a peste amarela atingia o setor cafeeiro contaminando em maior frequência
os imigrantes, que pareciam mais suscetíveis à doença. E eles, apavorados
fugiam das fazendas, onde ocorriam as epidemias. Ninguém atinava que os
europeus eram provavelmente menos imunes à doença por nunca terem tido contato
anterior com o agente causador dela.
Em agosto de 1902, o
sanitarista Emílio Ribas, Diretor do Serviço Sanitário do Estado de São Paulo,
esteve em São Simão, uma vila da região de Ribeirão Preto, que estava em meio ao
terceiro surto local da epidemia amarela. O sanitarista sofria então forte
campanha contrária às suas teses sobre as causas da febre. Nessa época a tese
predominante, entre tantas outras estapafúrdias, apontava que a doença era
transmitida por contágio entre pessoas.
Sua ida a São Simão foi
exatamente para coletar amostras de sangue entre o grande número de pessoas
contaminadas e também das poucas não contaminadas e levá-las ao laboratório do Sanitário
da Capital. Convencido do acerto de seu diagnóstico, juntamente com seus colegas
Adolfo Lutz e Oscar Moreira, deixou-se picar por inseto contaminado no
laboratório. A partir da constatação da contaminação dos três sanitaristas,
corajosa demonstração de verdadeira fé
em sua tese, Oswaldo Cruz iniciou a empreender a eliminação dos focos de
mosquito no Rio de Janeiro, como já estava acontecendo na Capital paulista e
várias cidades do Estado.
Essas medidas
sanitárias paulatinamente levaram à diminuição da quantidade de mosquitos e consequentemente da erradicação epidêmica na
região. Inclusive na fazenda Pau D’Alho, em Jaboticabal, último município
atingido pela doença. O mal foi praticamente contido em maio de 1903 e já em
1904 foi eliminado temporariamente do Estado de São Paulo.
Muitos anos se
passaram e muitas vidas se perderam até o mosquito transmissor do vírus ser identificado
como o propagador a peste. Em sua estada em São Simão, Emílio Ribas, deixou amigos,
ensinamentos e uma narração histórica da origem desse mal. Contou que a febre,
em sua forma endêmica, ocorria nas cidades de Salvador e Rio de Janeiro e no
porto de Santos, há mais de um século. Em cada lugar e em diversos tempos adquiriu
diversos nomes, tais como; “typho icteroide”, “typho amaril”, “mal de
Sião”, “vômito negro” e... “febre das Antilhas”.
Pois ali, na região antilhana,
há registros de sua presença desde 1686. A febre era então atribuída pelos
puritanos “aos pecados da população,
corrompida por vícios e libertinagem”. Mas a chegada da doença ao Brasil na forma epidêmica é
datada com exatidão. Os primeiros registros datam em três de dezembro de 1849 o
início de sua propagação, quando aportou ao Rio de Janeiro um navio negreiro procedente
de New Orleans, tendo feito antes escalas em Havana e Salvador. Juntamente com as
mercadorias e homens infectados, não faltavam em seus porões muitos mosquitos vetores,
prontos para transmitir o tal flavivírus.
Assim, a partir da
Capital do Império, essa “doença carioca”, seguiu para Santos em vapores
carregados de imigrantes europeus. Daí, para São Paulo e com o progressivo
avanço da malha ferroviária, seguia rumo ao interior do Estado nos vagões dos
trens, levando a doença juntamente com as cargas e as famílias de imigrantes da
Europa. A febre amarela caminhava para as novas áreas de ocupação de São Paulo,
acompanhando a riqueza das plantações do café.
Entretanto “seu” Güido
não tinha tanto conhecimento dessa história e nem precisava dele. Sua única
preocupação naquela hora era a saúde da menina Maria, acometida de uma doença
mortal. Nem pensava em ir buscar algum auxílio médico em hospitais. Sua
experiência o fizera aprender que as administrações municipais, inteiramente
sem recursos, esgotados pela própria epidemia, apenas podiam tratar os doentes internados
com paliativos para a espera de uma morte menos sofrida.
A
maioria dos poucos médicos presentes na região atendia apenas aos donos de
fazendas e seus parentes. Eram os únicos privilegiados que podiam pagar as
altíssimas despesas de um atendimento particular cobrado por um profissional da
saúde. A vinda de um deles, incluindo os medicamentos necessários, estava fora
das possibilidades de qualquer pessoa, além dos ricos fazendeiros. Somente eles
poderiam pagar preços que variavam entre quarenta mil réis e sessenta mil réis
por visita. Güido já fizera as contas e explicava aos desesperados imigrantes familiares
dos doentes, que chamar um médico custaria o mesmo que um hectare de terra, ou
a mesma coisa que um colono ganhava
cuidando por um ano inteiro de mil pés de café.
Güido não tinha
alternativa, precisava recorrer aos sacerdotes católicos oriundos. A atuação desses
padres nas fazendas era permanente e sua simples presença sacerdotal conseguia evitar
crueldades e os abusos de muitos fazendeiros no trato com os imigrantes. Eram
pessoas altruístas e abnegadas que procuravam todos os modos possíveis para
aliviar as misérias e, se necessário, intervir em defesas dos
injustiçados, denunciando às autoridades
brasileiras e italianas, todo tipo de maus tratos.
Além
disso, vinha deles o único socorro sempre presente para vencer doenças e todo
tipo de carências dos imigrantes. Os padres e até algumas freiras substituíam
com sua fé religiosa, os médicos, enfermeiras e medicamentos ausentes. Mesmo
que na maior parte das vezes sua atuação medicinal fosse dar consolo, ânimo e
esperança aos doentes, apenas através de palavras e orações, jamais mediam
esforços em sua filantropia. Eram poucos e percorriam, a pé ou a cavalo,
grandes distâncias para encontrar quem precisasse de ajuda e para que pudessem dar
aos seus assistidos, ao menos uma morte digna e cristã.
A menina Maria já
passava pelo sexto dia da doença, quando “seu” Güido chegou com um padre. O
sacerdote não pode vir antes, apesar de estar ali pela redondeza, porque teve
que atender muitos doentes pelo caminho. Güido e o religioso constataram que a
doença estacionara, mas a menina estava muito fraca, muito mais amarela. Seus
brônquios estavam carregados de catarro e a forte febre permanecia. Juntamente
com a mãe, trocaram as roupas da cama de Maria, benzeram a casa, as pessoas e a
água, que fizeram a paciente tomar em bastante quantidade.
Como sempre acontecia
na presença de religiosos, alguns vizinhos vieram rezar na casa dos Laitano,
trazendo seus terços e santos. Aparamentados, o pároco e Güido rezaram uma
missa improvisada. O cheiro de incenso tomou conta do ar e trouxe uma sensação
de sagrado a todas aquelas pessoas de fé. Até Maria, que assistia o ato sentada
na cama ao lado dos seus parentes, se sentiu melhor.
Porém, apenas dois
dias após o padre ter ido embora e apesar da presença constante de Güido, Maria
começou a perder sangue. As hemorragias eram de pouca monta, mas progressivamente
iam atingindo as gengivas, o nariz a urina e provavelmente o estômago
também.
As
famílias já começavam a perder esperanças, quando diante da entrada da casa, um
homem acabando de apear de seu cavalo, adentra sem pedir licença. Ninguém se
assustou porque em sua mão trazia uma valise. Era um milagre!
Era
um médico! Um anjo de meia idade sem muitas palavras, que medicou a menina,
tomou um bom banho, descansou alguns minutos, jantou, voltou a medicar Maria e
dormiu em uma cama improvisada no chão. Ao amanhecer reexaminou a paciente,
deixou alguns remédios e recomendações, almoçou e pronunciou o mais longo
discurso de toda a sua permanência ali.
-
Fiz o que sei fazer. Às vezes dá certo, outras vezes não. Depende mais da
menina reagir bem ao tratamento. Vamos todos pensar positivo.
Esperou
Giuseppe trazer seu cavalo tratado e encilhado e foi-se embora sem aceitar
pagamento, agradecimentos e nem mesmo beijos na mão.
No
dia seguinte a menina Maria estava livre da grave doença infecciosa. Estava
debilitada, mas definitivamente curada.
À
noite, antes da janta, todos os Laitano e Cozza, inclusive Maria, se ajoelharam
no quarto onde a doença fora derrotada em dez dias e rezaram a Ave Maria, o
Padre Nosso até a última conta do terço. Agradeceram a Deus, pela graça
alcançada e por Ele lhes ter trazido “seu” Güido, o padre, o médico, os
remédios e as orações de toda a vizinhança.
No
primeiro mês de 1904, os Laitano juntaram todos seus trastes em trouxas e no
mesmo carro de boi que os levava sempre ao trabalho, foram finalmente embora da
Fazenda Pau D’Alho, a caminho do povoado de Dobrada, onde já havia uma família
de amigos esperando por eles.
No
início da viagem de despedia da família Laitano de sua “servidão” na fazenda, ao
passarem pelo portão na saída, viram ao longe a imagem sombria e escura de
Fortunato os observando imóvel sobre seu cavalo negro. A pequena Maria deu um
adeus com a mão para ele, ele quase levantou o braço em resposta, mas parou o
movimento, deu a volta e cavalgou lentamente fazenda adentro. Nunca mais o viram.
Somente
em 1906, quase três anos depois, os Cozza também deixaram a servidão temporária
da fazenda de café e foram morar na vila de Dobrada, para onde já haviam ido os
Laitano. Apenas a partir de então, passaram a rezar e agradecer também a
Fortunato pela cura de Maria. Ninguém imaginou e foi difícil acreditar que foi “quello
brutamonte” quem mandou buscar o médico em Ribeirão Preto para tratar a menina.
Mas
o que nunca nenhum deles ficou sabendo foi que na pior das epidemias, a de 1896,
Fortunato Cachuchelli perdeu para a febre amarela a esposa e seu único filho.
Em São Carlos somente restou viúva, sua irmã mais velha.
Mateus Cosentino
Sampa – 17.07.2017
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