sexta-feira, 8 de março de 2024

 

“Una Piccola” História de Família

 

Livro 1 - Parte 1 - Recomeço

 

CAPÍTULO 10 – SERVITÙ TEMPORANEA

 


Em 1902, quando a família Cozza chegou à Jaboticabal para trabalhar na Fazenda Pau D’Alho, os Laitano já lá estavam há cinco anos. A partir de então nasceu uma amizade entre ambos, maior até do que entre muitas famílias consanguíneas. Viviam juntos seu duro cotidiano do trabalho de colher café. Giuseppe Laitano e Thomaz Cozza tornaram-se inseparáveis e Isabela e Mariana se deram muito bem e criavam seus filhos como se fossem todos irmãos. As famílias praticamente só se separavam para dormir em suas próprias casas conjugadas de colonos.

 No início, os Cozza estavam motivados com as promessas dos propagandistas brasileiros, contadores das maravilhosas possibilidades de “fare l’America”. Giuseppe achava que, com o passar do tempo, Thomaz iria aprender por si o quê era verdade. Mas Thomaz demorava para separar o grão da casca e ele se sentia culpado, porque a amizade entre as famílias encobria algumas dificuldades e desapontamentos iniciais, que ele, sua esposa e filhos tiveram nos primeiros tempos na fazenda. Quisessem ou não, Giuseppe e Isabela orientavam e ajudavam os Cozza, impedindo-lhes o enfrentamento dos pequenos problemas iniciais de adaptação à nova vida brasileira.

Porém a realidade acaba sempre se sobrepondo às ilusões, mas se passaram rapidamente muitas semanas, meses e um ano de envolvimento no árduo trabalho no cafezal. Os Cozza iam percebendo devagar e aos poucos a realidade que seus amigos Laitano, tentavam esconder deles ou mostrar que eram aborrecimentos sem importância, que deviam ser postos de lado. Mas doze meses é muito tempo para se sustentar ilusões.

Como já era hábito nas noites de verão, os dois casais após o jantar sentavam-se fora de casa nas cadeiras colocadas entre suas moradias. Faziam isso sempre conversando e vendo seus filhos diante deles, nos folguedos próprios da idade, ora a correr, ora a conversar.

Era uma noite clara de Lua cheia do quente verão de 1903 e a conversa tratava dos assuntos costumeiros de casa, de crianças e de trabalho. Mariana, entretanto desviou o rumo usual, perguntando à amiga Isabela se o Contrato assinado pelos Laitano já não estava encerrado, sem validade. Ela sabia que todos os colonos assinavam o mesmo tipo de Contrato que os mantinham presos à fazenda por quatro anos.

 O Contrato não era de todo ruim, obrigava-os a plantarem, nesse período, duzentos mil pés de café, para o patrão, mas receberiam um mil e quinhentos réis por cada um deles. E ao final dos quatro anos iriam receber trezentos contos de reis, que era um bom dinheiro para comprar umas terrinhas e deixar de ser empregado. O melhor de tudo era poder se livrar do “maledetto” Fortunato, o capataz da fazenda.

 - Sim, já estamos aqui há mais de cinco anos e o Contrato terminou no ano passado, disse Giuseppe tomando para si a resposta.

 - Então por que vocês ainda estão aqui? Quem perguntava agora era Thomaz.

 Essa dúvida não surgira assim de repente, os Cozza já andavam se perguntando há algum tempo porque seus vizinhos não haviam ainda ido embora. Seu crédito em dinheiro por um ano de trabalho não havia sido o que ele esperava. Levavam dúvidas e preocupações para a cama e comentavam o assunto até o cansaço os fazer dormir..

 Não entendiam porque os Laitano permaneciam depois de seu contrato de trabalho já haver terminado. Mesmo colhendo o café na plantação dos vizinhos, Giuseppe e Mariana já haviam conseguido plantar, com a ajuda deles, os cinquenta mil novos pés de café contratados para seu primeiro ano na fazenda. Os Cozza já haviam decidido que iriam embora, no mesmo dia em que não estivessem mais presos por contrato. Pegariam o dinheiro que receberiam e iriam recomeçar a vida em terras próprias.

 Diante da pergunta já esperada de Thomaz Cozza, Giuseppe Laitano deu uma olhada para Isabela, sua mulher e cúmplice, que balançou a cabeça afirmativamente.

 - “Bene, già è il momento della verità”.

 Giuseppe pretendia dizer isso como uma brincadeira, mas apesar de esboçar um sorriso ao dizê-la, suas palavras saíram com uma entonação grave, diferente da sua intenção. Leonne o filho mais velho de Giuseppe, então com catorze anos, parou o que fazia e veio se juntar aos pais para ouvir a conversa. Seu irmão Leonardo, dois anos mais moço, o acompanhou. A irmã Maria, de dez, permaneceu junto a Filomena e Linda, de nove e sete anos de idade, filhas dos Cozza. Elas ficaram conversando entre risinhos contidos e tentando afastar Thomazino, de cinco anos o irmão caçula Cozza, que brincando insistia em se intrometer na conversa das mocinhas.

 Giuseppe ao ver a aproximação dos dois filhos, relutou sem saber se seria apropriado continuar. Thomaz fez um sinal com a mão indicando que ele gostaria que o amigo continuasse.

 - Todo santo dia a gente fica, das sete da manhã às cinco da tarde ocupando nossos miolos e nosso corpo com  o café. Vocês, desde que chegaram já estão colhendo o café que nóis plantemo “cinque anni fa, da quando siamo arrivati qui” em 1897. O Contrato de trabalho é de quatro anos, mas para uma  nova plantação  de café ter uma boa produção a gente precisa esperar cinco anos.

 - Então é por isso que vocês ainda estão aqui, certo Giuseppe? Plantaram todos os pés de café e estão esperando o belo “dinaro” para ir embora. Certo?


-  “È per questo che non ci ha detto niente per noi Isabela”? A pergunta foi de Mariana, aflita com a possibilidade de perder a amiga.

 - “Il motivo è che ci vano andare via”? Continuou, segurando as mãos de Isabela.

 -  “Ma che! Se tutto fosse così facile...”

 - “Quello bruto dinaro”, se foi quase tudo, Thomaz. Para se viver todo esse tempo e sustentar a família, comprar remédio...

 - O dinheiro mal deu para pagar as compra, continuou Isabela. A gente fazia as despesas na vendinha da fazenda e o Administrador fazia uma ficha dos mil e quinhentos reis do café plantado no mês e descontava as despesas.

  - E enquanto se esperava as colheita no final dos quatro ano, continuou Giuseppe, a gente quase não viu dinheiro, “ma al meno” tinha crédito na vendinha.

 Se o imigrante começava uma nova lavoura e terminasse seu trabalho em quatro anos, certamente sairia com muito pouco dinheiro. Quase todos preferiam ficar um ano ou mais, para sair com maiores condições de começar um negócio qualquer.

 Isabela chegou-se mais perto de Mariana e disse quase sussurrando:

 - Escondido do Capataz, nos domingo, junto com outras família de colono, a gente ia na vila e vendia umas galinha e carne de porco, “per salvare alcuni” mirréis.

- Mas era proibido, juntou Giuseppe, só as mulheres faziam esse contrabando. Se um homem era pego fazendo isso, levava uma bruta multa. Das mulheres, o Capataz Fortunato, tentava só ficar com uma parte do dinheiro delas. Mas elas o escondiam nas parte. Nem o “farabutto” tinha coragem de mexer...

- Se mexesse morria! “Qui sono tutti oumini de omertà, cazzo!”

 - “Da vero paesano”!  

 Riram todos. As mulheres com a mão escondendo o rosto, fingindo-se envergonhadas, os homens e os dois rapazes com os punhos cerrados demonstrando força e as crianças achando graça sem saber de quê.

 - Então vocês vão embora? Indagou Mariana e repetiu assustada: “Andate tutti via”?

 - “Eco, sono passati cinque anni”, lamentou Giuseppe.

- E ainda tamo com uma mão na frente e a otra atráis. Intrometeu-se Leonne na conversa.

Todos olharam para o rapaz. Estavam acostumados a vê-lo sempre quieto, timidamente ouvindo e quase nunca se metendo a falar nas conversas dos pais. Leonne estava de pé diante deles e, emocionados, perceberam que aquele menino de catorze anos parecia estar deixando de ser criança. Demostrava-se, ali à sua frente, ser uma pessoa revoltada que aprendera a calar, como seus pais, ante tantas injustiças que vira sua família sofrer por cinco anos. Mais pela atitude e tom da voz e menos pelas palavras, Leonne acabava de falar como adulto! Só agora surpresos todos percebiam essa mudança nele.

 Quando Leonne chegou ao Brasil aos oito anos, ouvia encantado seu pai, contar com a energia de sua juventude de trinta e um anos, os sonhos e esperanças de finalmente fazer fortuna em um país onde tudo era fácil, porque tudo estava por fazer. Giuseppe ensinava que com dedicação ao trabalho que só homens livres podiam ter, não haveria como não vencer. E não havia dúvidas em sua cabeça de que se o imigrante era a mão-de-obra nas plantações de café que enriqueceu o Estado de São Paulo, ele também merecia participar dessa riqueza.

 Mas nos cinco anos que se passaram, Leonne via seu pai, ainda um jovem de trinta e sete anos, cada vez mais desgastado com o trabalho de sol-a-sol,  perder pouco-a-pouco suas esperanças e ver cair por terra todos os seus sonhos de fortuna. Como imigrante, Giuseppe era um homem livre, mas preso por contrato a uma servidão temporária. Porém, como todos imigrantes, permanecia com a mente livre. Sua atitude era muito diferente da dos ex-escravos, ou mesmo dos caboclos locais, forçados a aceitar a servidão passada de pai para filho por centenas de anos. Deixava claro a quem quisesse ouvir que ao fim do Contrato, todos imigrantes como ele mesmo,  deveriam se libertar dessa servidão de quatro anos.

 Em contrapartida os fazendeiros, criavam artifícios para impedir esse direito à liberdade, na tentativa de manter os trabalhadores presos às suas terras. Endividá-los foi a mais eficiente dessas artimanhas. Conseguiram com isso, que os corpos de trabalhadores livres ficassem prisioneiros, mesmo que não impedissem que suas mentes continuassem sonhando com a liberdade. Conseguiram diminuir suas expectativas pessoais e enfraquecer seus sonhos individuais. Porém, os imigrantes,  pelos filhos que tinham, pelo fortalecimento que lhes dava a responsabilidade de dar futuro à suas famílias, não se dobravam de todo a amos, senhores ou patrões. Era, portanto inevitável o surgimento do conflito permanente na relação entre imigrantes e fazendeiros, causando diversas revoltas e até mesmo rebeliões.

 Tal situação fazia com que, um bom número de imigrantes, após de curta passagem pelos latifúndios, os abandonassem. Ignorando as imposições contratuais, eles fugiam, mantendo-se  incógnitos e, sem qualquer imposição contratual, passavam a trabalhar em novas frentes do café mais ao norte do Estado e no Triângulo Mineiro.

 Nessas regiões de nova cafeicultura, desde sua chegada o imigrante europeu era aproveitado como mão-de-obra nos cafezais já em plena produção, onde ele preferia trabalhar. Os fazendeiros aceitaram isso, pois preferiam utilizar caboclos, ou até mesmo indígenas remanescentes, na derrubada da mata destinada às novas plantações. Tinham a preferência dos fazendeiros para esse desmatamento pela sua produtividade maior. Seu custo menor e o conhecimento das técnicas de desmatamento eram grande vantagem nesse tipo de serviço, em relação ao desconhecimento e desinteresse do camponês europeu por essa atividade depredadora.

Entretanto a família Laitano permaneceu por longos cinco anos, suportando esse tempo todo o desrespeito com que era tratada. Leonne calava sua revolta, vendo seu pai fazer o mesmo. Não que fosse muito diferente no mezzogiorno italiano, as relações de trabalho entre seu pai e os donos do lugar. Mas o rapaz não tinha como se lembrar disso, pois quando lá vivia, além de ser muito criança, não convivia, como aqui, com seu pai no trabalho cotidiano e somente se lembrava dele chegando em casa fazendo festa com toda a família. 

Leonne simplesmente não entendia e, portanto não aceitava os gritos, as ofensas e ordens de trabalho forçado que todos recebiam. Assim, foi interiorizando e escondendo e quando queria reagir e seu próprio pai o impedia. Como aceitar a submissão paterna? Como concordar que um simples contrato obrigava a submeter-se a tal servidão? Ignorava as tão fortes causas que podiam criar tal situação.

 Além disso, como toda sua família, vivia isolado em uma fazenda de grande extensão territorial muito distante de outras. Como todos os trabalhadores, desgastava-se no árduo trabalho cotidiano plantando e colhendo café. Como poderia ter explicações se, além disso,  não frequentava escola, não aprendera nem a escrever e se só vivia para trabalhar?

 Somente com Leonardo, seu irmão menor, confidenciava, confabulava e expunha sua revolta. Eram cúmplices, mas nem imaginavam  que o maltrato recebido tinha causas em antigos costumes arraigados na mente dos fazendeiros. Esses Barões do café, acostumados a trabalhar com escravos em passado ainda recente, não atinavam, ou não se importavam, que agora lidavam com trabalhadores europeus livres e assalariados.  E os tratavam do mesmo modo com que cruelmente tratavam seus antigos escravos africanos desamparados da Lei e igualados a mercadorias.

 Giuseppe, explicava ao filho que ao assinar o Contrato, estava dando sua palavra de que iria cumprir tudo o que estava escrito nele. Por isso se sujeitava a não fazer nada que fosse contrário às suas cláusulas e aceitava as ordens do capataz e a fiscalização do administrador. Achava também que tudo poderia melhorar, pois já há algum tempo as notícias da situação de semiescravidão dos imigrantes era do conhecimento do Governo da Itália, que criara uma lei para amparar os emigrantes e eliminar os maus tratos que seus cidadãos sofriam no Brasil.

 - “Siate calmi figlio mio, che le cose andrà meglio per tutti noi”.

 Mas desde que chegou à Fazenda Pau D’Alho, Leonne via o Capataz Fortunato tratar sua família e a de todos os outros, com brutalidade e desrespeito. Ele nem imaginava que aquele calabrês ignorante reproduzia o modo de tratamento que ele mesmo sofria do proprietário e do administrador da fazenda. E, com sua índole autoritária tornava ainda mais brutal o tratamento que repassava aos seus conterrâneos imigrantes.

 Fortunato, calabrês de Catanzaro, era um sujeito mal encarado de grandes bigodes negros. Por sua valentia tornara-se capataz da Fazenda Pau d’Alho. Supervisionava o trabalho de todos, sempre montado em um belo cavalo negro, mantendo a cabeça coberta por um chapéu da mesma cor. Mantinha permanentemente atrás da orelha um cigarro de palha, sempre apagado, de fumo de rolo dos mais fedorentos. Antes de qualquer palavra aos colonos, sacava do bolso uma binga em forma de bala  de grosso calibre, tirava o cigarro de trás da orelha, calmamente o acendia e dava uma baforada jogando a fétida fumaça em direção ao rosto de sua vítima. E atrás da fumaça, gritava frases que demonstravam sua brutal ignorância.

 Fortunato era sem dúvida a pessoa mais odiada da Fazenda. Os colonos mais antigos diziam que ele chegara há mais de dez anos, vindo de São Carlos. Veio sozinho como se fosse solteiro, mas pelo menos um fim de semana ao mês, sumia. Um imigrante vizinho aos Laitano, disse tê-lo visto naquela cidade, num sábado e ele não estava sozinho. Em São Carlos havia uma espécie de bairro, onde viviam quase todos os calabreses vindos de Catanzaro, em geral muito “bona gente”. Um dos moradores contou que Fortunato havia sido “brigante” na Calábria e condenado à morte pelo assassinato de quatro pessoas.

 Naquele início de século a aplicação da lei e a manutenção da ordem na região cafeicultora, ainda era bastante precária. Não era raro os fazendeiros contratarem bandidos inescrupulosos e foras da lei, mantendo-os como capangas para ameaçar, roubar e até matar quem ameaçasse seus domínios. Alguns desses marginais se tornaram personagens lendários, no folclore do interior paulista.

 O brigante da Itália meridional chegado ao Brasil, era qualificado por analogia,  simplesmente como capanga servil dos poderosos. Claro que os brigantes na Itália também viviam na ilegalidade e em seu meio poderia haver alguns capangas ou bandidos mercenários. Tanto assim que na própria península italiana eram definidos pelos poderosos do mesmo modo como ladrões e bandidos. Entretanto a grande diferença entre as quadrilhas rurais de foras da lei paulistanas e os brigantes na Itália era a motivação original.

 Os brigantes italianos, por falta de opções, lutavam contra a opressão social, a política governamental dos donos de terras. Em sua grande maioria eram rebeldes e guerrilheiros,  que do ponto de vista do poder, eram pejorativamente chamados de terroristas, para justificar a repressão policial contra eles.

 No “mezzogiorno” italiano, os brigantes eram protegidos pela “omertà” da população. Esse era um pacto de honra cultural, que calava a todos e os fazia nada revelar sobre crimes, ou as circunstâncias em que eles foram realizados, a identificação de quem os cometiam e ou qualquer coisa que pudesse incriminar os foragidos da lei, fosse qual fosse a gravidade do crime praticado. Esse era o sentimento de “onorabilità”, um senso de honra que estava acima de tudo, mesmo entre os fora da lei e até aos que exploravam os “paesanos” que os protegiam com seu silêncio.

 Hábitos culturais como “onorabilità” e “omertà” deram cobertura à atitudes e organizações de origem aparentemente nobre, como a “cozza mostra” e o “brigantismo”. Porém ao longo do tempo, permitiram e incentivaram o abuso e a impunidade de muitos,  desde o início mal intencionados incentivaram a corrupção de outros tantos inicialmente carregados de boas intenções. Era o que meu pai queria dizer quando afirmava que “a ocasião faz o ladrão”.

Isso provavelmente ocorreu com o capataz Fortunato, de início motivado por  revolta, bravura e heroísmo. Ao final, terminou sua luta perseguido e derrotado, sofrido e impossibilitado de reagir. Sem opções deixou-se corromper pela vingança contra todos e conseguiu emigrar para escapar das duras penas que os tribunais italianos lhe imputaram. Perdeu qualquer senso de honra e compaixão que um dia deve ter tido. Passou a crer que somente a força e a crueldade o fariam vencer e que “omertà” era sinônimo de valentia e comportamento de macho dominante. Por sua própria escolha seria o instrumento dos que tinham a força e poder, tornando-se o opressor dos fracos, como ele mesmo havia sido vítima em sua própria juventude.

 Mesmo chegada há apenas um ano à fazenda, Mariana Cozza havia adivinhado muitas coisas. Seus instintos intuíam que os Laitano já haviam tomado a decisão de irem embora, mas também sentia que Isabela sempre reagia à mudança. Desde que casara na Itália, há quinze anos, ela estava sempre se mudando com o marido e os filhos. De seu “paese” no sul, viajaram até o norte e de lá resolveram seguir para o Brasil e agora mesmo iriam novamente ter que mudar.

 Sempre que partiam, era para escapar das dificuldades causadas pela falta de recursos e pelo ameaçar da estrema pobreza. Esperavam no lugar em que estavam até se acabarem todas as esperanças de uma vida melhor. Isabela passava seus medos para Giuseppe, que também ficava indeciso. Assim, ambos atrasavam a partida, enquanto não eram superadas as incertezas de um futuro melhor. Entretanto todo o medo e indecisões acabavam quando a vida precária que estavam levando atingia seus filhos. Ante as ameaças à saúde das crianças, Isabela e Giuseppe colocavam a “paura” de lado, criaram coragem para partir.

Como agora, quando outra vez, precisavam partir, pois estavam vivendo os mesmos dias, as mesmas coisas... “Tutte uguali” sem evolução. Se permanecessem ali na fazenda, passariam a vida toda sem progredir. Não traziam mais aquele sonho imigrante de ganhar rapidamente dinheiro, mas tinham o dever e a esperança de buscar uma melhor condição de vida para seus filhos. Precisavam dar a eles uma terra própria, livre de contratos e capatazes.

 Esperavam o final da colheita para partir. E entre tantos motivos já citados, agora os filhos Leonne e Leonardo estavam se tornando rebeldes e revoltados com essa vida. Isabela se apavorava com a possibilidade deles tentarem enfrentar os maus tratos de Fortunato. Giuseppe já estava preparando a partida, queria deixar a fazenda, assinando tudo o que havia por assinar e levantando tudo o que tinha direito a receber. Queria sair sem nada dever e sem deixar nada para receber. Queria ir embora e esquecer de vez esses cinco anos na Fazenda Pau D’Alho.

 Mas a fatalidade vem de repente e sem aviso. Uma manhã, Maria a filha de dez anos acordou reclamando dor de cabeça. Ao encostar o dorso da mão na fronte da menina, Isabela sentiu a temperatura alta de febre. Ao ajudar Maria a se sentar na cama, a filha pareceu sentir uma pequena tontura e reclamou de dores no corpo. Mãe experiente de três filhos não se apavorou, já havia curado diversas gripes na família. Apesar de não estar fria a manhã, massageou os pés e pernas da filha, vestiu meias grossas na menina para manter seus pés aquecidos. Agasalhou-a com um seu casaco de lã e a deitou, cobrindo-a novamente.

 A vizinha Mariana já estava lá. Não vendo Isabela tratar das galinhas, como em todas as manhãs, correu para a casa da amiga. Ambas já estavam providenciando a receita que haviam aprendido na fazenda para curar gripes e resfriados; chá de limão reforçado com raiz de gengibre. Era tiro e queda.

Porém quando Maria começou a sorver o chá, foi tomada por alguns calafrios e ameaçou vomitar. Só então as mulheres começaram a se preocupar. Enquanto Mariana corria para esquentar na água alguns panos para fazer compressas na febril Maria, Isabela fazia massagens nas costas da filha. A essa altura todos estavam ao redor da cama de Maria, demonstrando medo e solidariedade para querer ajudar.

 - Ei gente! Afasta, afasta. A menina precisa respirar, disse Mariana, enquanto afastava os dois homens e as cinco crianças.

 - Isso! Deixa que nós duas cuidamo de tudo, completou Isabela, já comandando: Giuseppe e Thomaz, vão pro trabalho. Explica pro Fortunato nossas falta pra não ter problema com ele.

 Olhou para a criançada e completou:

 - Vocês leva Leonne, Leonardo e Thomazino junto pra lavoura. E, vocês – apontando para Filomena e Linda - vejam se “seu” Güido tá em casa!

 Na fazenda, carente de recursos médicos, havia diversos tipos de curandeiros. Abundavam mais os “pretos-velhos” de ambos os sexos, originariamente escravos exauridos de força para o trabalho na plantação. Sem ter parentes e nem para onde ir, viviam de cuidar dos colonos com rezas africanas miscigenadas ao catolicismo, acompanhadas de vários passes das mãos por sobre a cabeça dos pacientes e indicação de chás com as ervas medicinais tão numerosas nos trópicos, conhecidas de longa data pelos antigos indígenas da região.

 “Seu” Güido não era um desses curandeiros, ele era também um ancião, mas italiano “oriundo”. Em sua longa vivência de Brasil, incorporou em suas rezas e bênçãos de firme crença católica, algumas ervas que os “pretos-véios” o ensinaram a usar.

 As meninas voltaram trazendo “seu” Güido. Ele limpou os pés descalços, entrou sem nada falar e foi direto à cama onde Maria dormia. As duas mulheres e as três meninas entraram juntas. Maria acordou e se assustou. Procurou a mãe, que lhe estendeu o braço e segurou sua mão.

 O velho Güido não tocou na menina. Ajoelhou-se diante dela, juntou as mãos e começou a rezar em voz baixa, cercado pelo silêncio de todos. Ao terminar, com a mão direita, fez  sinais da cruz na testa, nos olhos, na boca e no peito de Maria, repetindo sempre:

 - “In nomine di Padre, Figlio e dello Spirito Santo”.

 Seu diagnóstico inicial estava pronto, baseado no aspecto da menina, sua respiração e temperatura. Mas sua vasta experiência o impedia de ser conclusivo em uma primeira visita. Deixou algumas ervas receitando chás, indicando  muito repouso e prometeu voltar em dois dias. Isabela quis lhe dar uma galinha em agradecimento, mas ele não aceitou.

 - “Dopo vedremo”, disse e já se retirando; “non si preoccupare, deve essere niente, solo um bruto freddo”.

 Houve um certo alívio na casa; seria apenas um forte resfriado. E pelo menos parecia. A menina agasalhada dormia, apesar de não ser um sono muito tranquilo.

 Quando Giuseppe, Thomaz e os meninos retornaram do trabalho, foram logo tranquilizados pelas mulheres. Mariana estava fazendo Maria tomar um chá. Sentada na cama a menina ao ver o pai e os irmãos sorriu deixando todos aliviados e contentes. Giuseppe contou que Fortunato ao saber o motivo da ausência das esposas, não esboçou nenhuma recriminação, apenas ouviu e nada disse.

 O dia seguinte transcorreu do mesmo modo. Os homens foram ao trabalho e as mulheres ficaram cuidando de Maria. Mas no terceiro dia, ao cantar dos galos, Güido já esperava à porta, como havia prometido. Na presença de todos, mesmo antes que os homens saíssem, repetiu o ritual anterior prolongando-o com mais orações rezadas por todos.

 Saiu junto com os homens, tentando manter todos sossegados e dizendo que voltaria ainda no mesmo dia. Recomendou apenas continuar dando chá e bastante água à Maria. Somente ele não estava sossegado, pois percebendo um início de amarelamento na pele e no branco dos olhos da menina, completou seu diagnóstico.

 Güido sabia que aquele amarelo era “quiteriça” – assim ele chamava a icterícia – era a febre amarela, não tinha dúvidas. Vivera três epidemias seguidas dessa “maledetta febre gialla”, vindas há sete, cinco e um ano atrás, nos anos de 1896, 1898 e 1902. Febre amarela era uma doença difícil de entender e de tratar. Não era todo mundo que ficava doente, a doença durava pouco; uns dez dias, mas quase sempre era fatal. Esses três surtos dizimaram tanta gente na região que alguns povoados, vilas e cidades não conseguiram se recompor e retornar a ser o que eram antes.

 Havia alguns anos que cientistas brasileiros já haviam descoberto as verdadeiras causas da febre amarela. Neste nosso atual Século XXI, todos conhecem plenamente a causalidade daquela peste. Mas em 1903 esse conhecimento não chegara ainda a ser generalizado e mesmo onde era divulgado, não era de todo aceito. Até mesmo pessoas ligadas à medicina e saúde não aceitavam que as epidemias fulminantes de febre amarela eram causadas por um diminuto vírus denominado flavivírus. Parecia mais incrível uma tão fatal epidemia ser transmitida ao ser humano pela picada de um simples pernilongo, um mosquito conhecido cientificamente com o nome “Aedes Aegypti”. Por isso ninguém atribuía os períodos de maior ocorrência da epidemia, à intensificação desses insetos nas épocas de grande calor e umidade das chuvas do inicio de novembro até o mês de abril.

 A ignorância da origem da doença gerava diagnósticos estapafúrdios. No início falava-se até que era consequência da miscigenação, da “mistura de raças”.  Depois culparam o clima, o ar, o vento, propagadores dos “miasmas”, os vapores de exalação pútrida gerada no solo, no lixo e nos esgotos, pelos dejetos em decomposição de vegetais, de animais e principalmente de pessoas contagiadas pela febre. Mais recentemente, no alvorecer das descobertas da microbiologia, responsabilizavam pelas epidemias,  os “cogumelos”, os  “bolores”, os  “mofos”,  e os “micróbios”, como bactérias, fungos e protozoários.

 O fato é que a peste amarela atingia o setor cafeeiro contaminando em maior frequência os imigrantes, que pareciam mais suscetíveis à doença. E eles, apavorados fugiam das fazendas, onde ocorriam as epidemias. Ninguém atinava que os europeus eram provavelmente menos imunes à doença por nunca terem tido contato anterior com o agente causador dela.

 Em agosto de 1902, o sanitarista Emílio Ribas, Diretor do Serviço Sanitário do Estado de São Paulo, esteve em São Simão, uma vila da região de Ribeirão Preto, que estava em meio ao terceiro surto local da epidemia amarela. O sanitarista sofria então forte campanha contrária às suas teses sobre as causas da febre. Nessa época a tese predominante, entre tantas outras estapafúrdias, apontava que a doença era transmitida por contágio entre pessoas.

 Sua ida a São Simão foi exatamente para coletar amostras de sangue entre o grande número de pessoas contaminadas e também das poucas não contaminadas e levá-las ao laboratório do Sanitário da Capital. Convencido do acerto de seu diagnóstico, juntamente com seus colegas Adolfo Lutz e Oscar Moreira, deixou-se picar por inseto contaminado no laboratório. A partir da constatação da contaminação dos três sanitaristas, corajosa  demonstração de verdadeira fé em sua tese, Oswaldo Cruz iniciou a empreender a eliminação dos focos de mosquito no Rio de Janeiro, como já estava acontecendo na Capital paulista e várias cidades do Estado.

 Essas medidas sanitárias paulatinamente levaram à diminuição da quantidade de mosquitos e  consequentemente da erradicação epidêmica na região. Inclusive na fazenda Pau D’Alho, em Jaboticabal, último município atingido pela doença. O mal foi praticamente contido em maio de 1903 e já em 1904 foi eliminado temporariamente do Estado de São Paulo.

 Muitos anos se passaram e muitas vidas se perderam até o mosquito transmissor do vírus ser identificado como o propagador a peste. Em sua estada em São Simão, Emílio Ribas, deixou amigos, ensinamentos e uma narração histórica da origem desse mal. Contou que a febre, em sua forma endêmica, ocorria nas cidades de Salvador e Rio de Janeiro e no porto de Santos, há mais de um século. Em cada lugar e em diversos tempos adquiriu  diversos nomes, tais como;  “typho icteroide”, “typho amaril”, “mal de Sião”, “vômito negro” e... “febre das Antilhas”.

 Pois ali, na região antilhana, há registros de sua presença desde 1686. A febre era então atribuída pelos puritanos “aos pecados da população, corrompida por vícios e libertinagem”. Mas a chegada  da doença ao Brasil na forma epidêmica é datada com exatidão. Os primeiros registros datam em três de dezembro de 1849 o início de sua propagação, quando aportou ao Rio de Janeiro um navio negreiro procedente de New Orleans, tendo feito antes escalas em Havana e Salvador. Juntamente com as mercadorias e homens infectados, não faltavam em seus porões muitos mosquitos vetores, prontos para transmitir o tal flavivírus.

 Assim, a partir da Capital do Império, essa “doença carioca”, seguiu para Santos em vapores carregados de imigrantes europeus. Daí, para São Paulo e com o progressivo avanço da malha ferroviária, seguia rumo ao interior do Estado nos vagões dos trens, levando a doença juntamente com as cargas e as famílias de imigrantes da Europa. A febre amarela caminhava para as novas áreas de ocupação de São Paulo, acompanhando a riqueza das plantações do café.

 Entretanto “seu” Güido não tinha tanto conhecimento dessa história e nem precisava dele. Sua única preocupação naquela hora era a saúde da menina Maria, acometida de uma doença mortal. Nem pensava em ir buscar algum auxílio médico em hospitais. Sua experiência o fizera aprender que as administrações municipais, inteiramente sem recursos, esgotados pela própria epidemia, apenas podiam tratar os doentes internados com paliativos para a espera de uma morte menos sofrida.

 A maioria dos poucos médicos presentes na região atendia apenas aos donos de fazendas e seus parentes. Eram os únicos privilegiados que podiam pagar as altíssimas despesas de um atendimento  particular cobrado por um profissional da saúde. A vinda de um deles, incluindo os medicamentos necessários, estava fora das possibilidades de qualquer pessoa, além dos ricos fazendeiros. Somente eles poderiam pagar preços que variavam entre quarenta mil réis e sessenta mil réis por visita. Güido já fizera as contas e explicava aos desesperados imigrantes familiares dos doentes, que chamar um médico custaria o mesmo que um hectare de terra, ou a mesma coisa que um colono ganhava  cuidando por um ano inteiro de mil pés de café.

 Güido não tinha alternativa, precisava recorrer aos sacerdotes católicos oriundos. A atuação desses padres nas fazendas era permanente e sua simples presença sacerdotal conseguia evitar crueldades e os abusos de muitos fazendeiros no trato com os imigrantes. Eram pessoas altruístas e abnegadas que procuravam todos os modos possíveis para aliviar as misérias e, se necessário, intervir em defesas dos injustiçados,  denunciando às autoridades brasileiras e italianas, todo tipo de maus tratos.

 Além disso, vinha deles o único socorro sempre presente para vencer doenças e todo tipo de carências dos imigrantes. Os padres e até algumas freiras substituíam com sua fé religiosa, os médicos, enfermeiras e medicamentos ausentes. Mesmo que na maior parte das vezes sua atuação medicinal fosse dar consolo, ânimo e esperança aos doentes, apenas através de palavras e orações, jamais mediam esforços em sua filantropia. Eram poucos e percorriam, a pé ou a cavalo, grandes distâncias para encontrar quem precisasse de ajuda e para que pudessem dar aos seus assistidos, ao menos uma morte digna e cristã.

 A menina Maria já passava pelo sexto dia da doença, quando “seu” Güido chegou com um padre. O sacerdote não pode vir antes, apesar de estar ali pela redondeza, porque teve que atender muitos doentes pelo caminho. Güido e o religioso constataram que a doença estacionara, mas a menina estava muito fraca, muito mais amarela. Seus brônquios estavam carregados de catarro e a forte febre permanecia. Juntamente com a mãe, trocaram as roupas da cama de Maria, benzeram a casa, as pessoas e a água, que fizeram a paciente tomar em bastante quantidade.

 Como sempre acontecia na presença de religiosos, alguns vizinhos vieram rezar na casa dos Laitano, trazendo seus terços e santos. Aparamentados, o pároco e Güido rezaram uma missa improvisada. O cheiro de incenso tomou conta do ar e trouxe uma sensação de sagrado a todas aquelas pessoas de fé. Até Maria, que assistia o ato sentada na cama ao lado dos seus parentes, se sentiu melhor.   

 Porém, apenas dois dias após o padre ter ido embora e apesar da presença constante de Güido, Maria começou a perder sangue. As hemorragias eram de pouca monta, mas progressivamente iam atingindo as gengivas, o nariz a urina e provavelmente o estômago também. 

 As famílias já começavam a perder esperanças, quando diante da entrada da casa, um homem acabando de apear de seu cavalo, adentra sem pedir licença. Ninguém se assustou porque em sua mão trazia uma valise. Era um milagre!

Era um médico! Um anjo de meia idade sem muitas palavras, que medicou a menina, tomou um bom banho, descansou alguns minutos, jantou, voltou a medicar Maria e dormiu em uma cama improvisada no chão. Ao amanhecer reexaminou a paciente, deixou alguns remédios e recomendações, almoçou e pronunciou o mais longo discurso de toda a sua permanência ali.

 - Fiz o que sei fazer. Às vezes dá certo, outras vezes não. Depende mais da menina reagir bem ao tratamento. Vamos todos pensar positivo.

 Esperou Giuseppe trazer seu cavalo tratado e encilhado e foi-se embora sem aceitar pagamento, agradecimentos e nem mesmo beijos na mão.

 No dia seguinte a menina Maria estava livre da grave doença infecciosa. Estava debilitada, mas definitivamente curada.

 À noite, antes da janta, todos os Laitano e Cozza, inclusive Maria, se ajoelharam no quarto onde a doença fora derrotada em dez dias e rezaram a Ave Maria, o Padre Nosso até a última conta do terço. Agradeceram a Deus, pela graça alcançada e por Ele lhes ter trazido “seu” Güido, o padre, o médico, os remédios e as orações de toda a vizinhança.

 No primeiro mês de 1904, os Laitano juntaram todos seus trastes em trouxas e no mesmo carro de boi que os levava sempre ao trabalho, foram finalmente embora da Fazenda Pau D’Alho, a caminho do povoado de Dobrada, onde já havia uma família de amigos esperando por eles.

 No início da viagem de despedia da família Laitano de sua “servidão” na fazenda, ao passarem pelo portão na saída, viram ao longe a imagem sombria e escura de Fortunato os observando imóvel sobre seu cavalo negro. A pequena Maria deu um adeus com a mão para ele, ele quase levantou o braço em resposta, mas parou o movimento, deu a volta e cavalgou lentamente  fazenda adentro. Nunca mais o viram.

 Somente em 1906, quase três anos depois, os Cozza também deixaram a servidão temporária da fazenda de café e foram morar na vila de Dobrada, para onde já haviam ido os Laitano. Apenas a partir de então, passaram a rezar e agradecer também a Fortunato pela cura de Maria. Ninguém imaginou e foi difícil acreditar que foi “quello brutamonte” quem mandou buscar o médico em Ribeirão Preto para tratar a menina.

 Mas o que nunca nenhum deles ficou sabendo foi que na pior das epidemias, a de 1896, Fortunato Cachuchelli perdeu para a febre amarela a esposa e seu único filho. Em São Carlos somente restou viúva, sua irmã mais velha.

 

Mateus Cosentino

Sampa – 17.07.2017

 

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