“Una
Piccola” História de Família
Livro 1 -
Parte 1 - Recomeço
CAPÍTULO 09 – PASTA,
STORIA E LEGGENDE
A importância que os imigrantes
tiveram na história e no desenvolvimento da vila de Ribeirãozinho, no final do
Século XIX e início do XX, foi tão significativa que creio ser oportuno
transcrever aqui uma notícia muito interessante. Foi publicada pelo jornal “O
Estado de São Paulo”, em sua edição de 28 de maio de 1898, cinco anos após a
chegada dos primeiros Cosentino:
“Em Ribeirãozinho os brasileiros natos
estão numa bagagem medonha. A maior parte dos funcionários daquele município é
de nacionalidade estrangeira. São portugueses: o presidente de Câmara
Municipal, o subdelegado de polícia, o oficial de justiça e o juiz de paz. São
italianos: um vereador, o agente do correio, o carcereiro, o administrador do
cemitério, o coveiro, o arrumador, o alinhador e o professor municipal. Nota
curiosa e a nosso ver muito grave: o professor municipal não sabe uma palavra
de português”.
Essa notícia dá a verdadeira dimensão da “invasão” de imigrantes que
deixou a vila com tão grande quantidade de moradores falando apenas italiano,
que nem pareceu estranho o único professor local não falar “uma palavra de
português”. Por outro lado, isso pode significar que a criação de uma escola na
vila foi uma iniciativa de um ilustre imigrante oriundo d’Itália. Isso não deve
ser de todo estranho, porque a vila havia sido fundada há apenas trinta anos, a
primeira casa existente ali, foi construída apenas dois anos depois da fundação,
quando os primeiros imigrantes começaram a chegar nas fazendas de café ao
derredor.
Os primeiros Cosentino chegaram em 1893 e se estabeleceram na vila de
Ribeirãozinho. Eram três irmãos; Tereza, Giuseppe e Nicola, todos com esposos e
filhos. Matteo, Antonia Ielpo e as crianças Biase e Domenica, completariam a
imigração familiar em 1902.
A primeira atividade da família Cosentino nas terras brasileiras foi o
macarrão. Começou, desde que chegaram ao Brasil em 1893, como uma extensão da
cozinha, para atender os vizinhos, Dez anos depois, foi criada uma firma
registrada com o nome Fábrica de
Macarrão Mafalda, em homenagem à sexta filha do casal Giuseppe e Maria
Cosentino, nascida naquele ano. Domenico Albanese, o marido de Tereza
Cosentino, foi encarregado de gerenciar a empresa. Os irmãos de Tereza, Giuseppe
e Nicola, cuidavam então do Armazém de outros nascentes negócios da família.
Domenico Albanese gerenciava a empresa com toda a eficiência e comando
que aprendera a ter na Itália, onde havia sido oficial tenente “carabiniere” da
Guarda Nacional. Tinha também um bom tino comercial e transformara a fábrica em
verdadeira padaria, ocupando a esposa, cunhadas e ele próprio como eficientes
padeiros. Assim, além do macarrão – cuja maior parcela era colocada à venda no
armazém da família – passou a produzir pão italiano, linguiça calabresa,
queijo, e típicos temperos e massas para vários doces.
Toda a produção dos alimentos era a tarefa principal das mulheres da
família. Esse trabalho havia sido deixado para elas, desde que seus maridos
passaram a se dedicar a outros negócios mais rentáveis. Mães, esposas e donas
de casa, usavam as facilidades da empresa para fazer a comida doméstica para
maridos e filhos. A criançada permanecia brincando ao redor de suas saias,
enquanto elas trabalhavam e sempre sobrava algum servicinho leve para os
maiores. Pouca diferença havia entre empresa e família e isso tornava mais
fortes os laços de união familiar.
Assim como o marido Matteo e os filhos dele, Antonia foi a última a
chegar, Então Tereza Cosentino, esposa de Domenico Albanese, Maria Marinelli, esposa
de Giuseppe e Josefina Alagio, esposa de Nicola, prontificaram-se a ensinar à recém-chegada
Antonia os segredos da produção industrial da “pastasciutta”. Queriam
familiarizá-la o mais rápido possível aos hábitos e aos trabalhos de todos.
Antonia, com seus trinta e três anos sabia muito bem fazer macarrão,
mas apenas no processo doméstico em pequena
quantidade. Suas cunhadas mais aptas ao trabalho resolveram lhe dar uma
mãozinha, visando distribuir a tarefa para mais uma pessoa entre as três mestras
do pastifício. Tereza, de trinta e cinco anos, era a mais velha e a mais hábil.
Maria de trinta e um e Josefina de vinte e nove, juntaram-se para supervisionar
a iniciação de Antônia.
- Hoje vamo fazê pasta fresca de “tagliarini”. Disse Tereza, levando
Antonia para o salão da fábrica e a postou diante da grande mesa rústica com
grosso tampo de madeira impecavelmente liso.
- Bela “questa” mesa, né Tereza?
Diante da admiração da cunhada, Josefina correu a explicar orgulhosa.
- Non é bela mesmo? Foi feita na nostra serraria. O Nicola, “mio
marito”, está começando a fazer móveis lá.
Após a breve admiração da mesa, Tereza retornou à tarefa combinada de
fazer pasta.
- Hoje vamo fazê “tagliarini”.
- “Domani sarà un spaghetti, certo”? Falou Antonia, tentando ser, ao
mesmo tempo, simpática e engraçada.
- É isso Antonia, a massa pros dois é iguale, mas o talharine é piú
fácile de fazê. Você vai ver.
Maria e Josefina, com a alegria de quem gosta do que faz, já jogavam
sobre a mesa os ingredientes para fazer a massa.
- “Spaghetti” parece barbante e “tagliarini” tem forma de tira.
Todas riram com a obviedade da frase dita brincando por Maria, com a
voz impostada de professora.
Tereza, na tentativa de parar com a dispersão de todas, retornou ao
assunto principal enquanto as outras já iam arrumando os ingredientes sobre a
mesa.
- Antigamente, Antonia, nóis fabricava a pasta quase sem equipamento.
- Mas alora já temo uns, precipitou-se a dizer Maria.
- “State zitto! Adesso facciamo la pasta e poi mostreremo le macchine”!
Tereza e Maria tinham se esquecido do combinado. Os equipamentos eram
para serem mostrados na hora certa. Mas a reação de Josefina em italiano – que
se usava quando a conversa era para ser entendida somente pelos “oriundi” - fez
com que as outras a olhassem com certa surpresa. Mas Tereza deu continuidade ao
ensino de Antonia.
- Vamo prepará a massa. Qui tão todo os ingrediente: A farinha de
trigo, os ovos e o sal. É só... quer dizer: tem também um conservante para
alimento, que vem de Portugal. Uma vizinha portuguesa que traz para a gente e ensinou a pôr muito pouquinho. Ele
serve pra não criá fungo. Ela me falô que é feito com frutos verde parecido com
cereja. Só sei que funciona.
- E questa vasilha d’água? perguntou Antonia.
- É pra todas lavar as mão, disse Maria brincando, não se faz macarrão com
essas porca mãos sujas, completou rindo.
- Mas também serve pra por água na massa e não deixá ela ficá seca, corrigiu
Tereza.
Foram todas lavar as mãos na torneira da pia. Uma empurrando a outra e
brincando com o sabão de coco.
- A farinha que nóis usa é de “grano duro” de trigo importada, mais
cara, mas rende mais e deixa a massa melhor. Explicou Josefina, quando todas
voltaram para a mesa de trabalho.
- Mas por que tem dois pacotes de farinha aí na mesa? quis saber
Antonia.
- Um deles é de farinha argentina mais comum, explicou Josefina. A
gente faz um “mezzo a mezzo” pra ficar mais barato.
- E os ovo, parte a gente compra na vizinhança e parte a gente apanha
no nosso galinheiro, que tem aqui atrás no quintal, concluiu Maria.
Tereza percebeu que Antonia estava meio perdida em meio a essas
informações comerciais e começou a colocar os ingredientes sobre a mesa,
enquanto receitava e ia fazendo a massa.
- Para cada quilo de farinha misturada, coloco treis ovo inteiro, uma
pitada de sal e menos ainda de conservante.
Pegou as mãos de Antonia.
- Enfie a mão nessa pasta e vai amassando até ficá com a dureza certa
Antonia foi amassando.
- Pronto, ansim tá bom, disse Josefina e pegou a massa da mão de
Antonia, enquanto jogava farinha na mesa.
- É pra não grudá. E se a pasta ficá muito seca molha a mão na tigela
d’água e amassa mais um poco.
Ela mesma continuou amassando até sentir que já estava no ponto para
“abrir”. Então retornou a massa para Antonia, pedindo para que a deixasse com a
espessura de uns três centímetros.
- Cadê o pau-de-macarrão? perguntou Antonia.
As outras três riram. Esperavam por isso. Maria já tirara o pano que
cobria “as máquinas”.
Eram apenas três equipamentos e nenhum era o pau-de-macarrão. Maria era
a “maquinista” que geralmente operava os instrumentos e, por isso, foi
explicando o funcionamento de cada.
- Esse é um aparelhinho que próprio io comprei em Araraquara e serve
para deixar a massa bem fina, como quella que a gente cortava sobre o tampo da
mesa em forma de ‘tagliarini’. Enquanto falava ia introduzindo a massa entre os
dois rolos de metal da máquina,
- Esses dois rolo se mexe com a manivela. Um não vira, mas otro tem um
parafuso que regula a distância entre os rolo. “Ma questa” máquina é lenta e
precisa de molta passadas da massa, muita força na manivela até afiná certo...
a gente ainda usa, mas só de vez em quando.
- E este outro aqui, foi a Tereza que troxe da Itália.
Todas olharam para o instrumento como se estranhassem a geringonça. Era
um cone oco, dentro do qual se enchia de massa e depois, com um grosso parafuso,
com forma de “T”, ia-se comprimindo a massa contida dentro do cone. Com a
pressão, a massa já saía formatada de “spaghetti” ou “tagliarini”, conforme os
furos das formas colocadas na extremidade inferior. Tereza ia demonstrando o
seu funcionamento, dizendo:
- Questo já é um museu. Só serve pra fazê um pouquinho de macarrão.
Aqui a gente não usa mais.
- Então como vocês faz “spaghetti” fininho e tudo igual? quis saber
Antonia.
- Com essa bela máquina, que meu Nicola inventou na serraria!
Era Josefina quem mostrava com orgulho uma caixa de madeira. Abriu a
tampa da caixa e surgiram dois rolos de madeira semelhantes aos da maquininha
comprada em Araraquara. Também reguláveis, mas maiores na largura.
- Mas é de madeira só um pouco maior que quella otra, deixou escapar
Antonia e, sem conter certa malícia continuou; é uma bela cópia e não uma invencione.
Josefina deu um sorriso de superioridade e mostrou outros seis
cilindros de madeira soltos dentro da caixa, e foi explicando.
- Essa que é “cara mia” é a invencione dello mio marito. Um dos rolo da
máquina, como o da otra picolina não mexe e só serve para afinar a massa. Mas o
outro a gente troca. Ele têm uns talho, tá vendo? A massa passa por ele e já
fica pronta na grossura certa. Manivelando já sai no formato de “tagliarini o
spaghetti, capiche”? Temos treis tamanhos para cada macarrão, mas podemo fazê mais.
- Olha aqui Antonia, depois da gente passá na máquina, continuou Tereza,
se corta tudo no mesmo tamanho de trinta centímetro e deixa nos varal que estão
lá no quintal pra secá no sol. Depois de tudo seco a gente pesa na balança e
embrulha os meio quilo naquele papel grosso azul, da bobina ali.
- Pronto Antonia, é só isso, disse Maria.
- Quando a gente começô vendê macarrão, os brasileiros daqui nem
conhecia a “pastasciutta”. Adesso quase não conseguimo atendê eles tudo.
- Então agora vamo fazê junto e de verdade uns cinco quilo de
talharine!
E todas se puseram a trabalhar. Josefina e Maria cantavam, enquanto Tereza
prestava atenção e acudia Antonia para que ela não errasse. Cada uma fez, antes
que chegasse a hora do almoço, uma quantidade de pasta, que sabiam totalizar cinco
quilos após secarem. Mas só iriam colocar o macarrão nos varais, depois do
almoço. E cada uma pegou a sua trouxa de comida feita ao mesmo tempo em que
fabricaram o talharine, pra levar para casa.
<<<O>>>
Assim eram os Cosentino, os pioneiros empreendedores locais. Sem dúvida
se constituíram em um marco importante no desenvolvimento de Ribeirãozinho, depois
Taquaritinga, desde o final do Século XIX, em seus primeiros anos no Brasil,
até a década de 1930. Atuaram em múltiplos empreendimentos, tais como a citada
fábrica de macarrão, padaria, comércio de gêneros alimentícios, ferragens,
material de construção, serraria, fábrica de móveis, olaria, produzindo
tijolos, telhas. No povoado de Icoarana, foram proprietários de uma fazenda de
café, onde instalaram máquina de beneficiar esse produto.
Seguindo sua ascensão comercial, foram adquirindo Hotel, Livraria,
Gráfica, Foram Agentes-comissários de Empresas de Importação/Exportação de
Santos e de São Paulo e da Companhia de navegação, de Seguros e correspondentes
de Bancos. Também eram representantes da conceituada firma F. Matarazzo e das
afamadas Camas Patente. Além disso, também foram revendedores de automóveis
italianos FIAT e distribuidores da gasolina Texaco.
Na década de 1920 a família construiu o primeiro prédio assobradado em
dois pavimentos em Taquaritinga, na Rua Marechal Deodoro, 1033, onde morou um
núcleo da família. Além desse prédio, construíram também vários outros prédios,
pois já foi citado que atuavam no Ramo da Construção.
Porém seus mais ousados e queridos empreendimentos foram os pioneiros
cinemas da cidade...
Mas nos adiantamos e já estamos muito longe desse início de século em
que estávamos narrando. Vamos então voltar ao começo do Século XX.
<<<O>>>
No ano de 1903 os Cosentino já estavam bem estabelecidos na vila de
Ribeirãozinho, fixando-se no quadrilátero de ruas, formado entre a Marechal
Deodoro, Prudente de Morais, Rui Barbosa e Treze de Maio. Todos viviam
cotidianamente como uma única família, nessa área que ficou conhecida como “O
Quarteirão dos Cosentino”. Lá, foram instalados alguns de seus negócios e cada
irmão construiu a casa de seu próprio lar. Na época já perfaziam o número de
vinte e seis pessoas, entre as quais oito adultos e dezoito crianças. (Dali
mais cinco anos nasceriam outros cinco filhos, totalizando as trinta e uma
pessoas da primeira e segunda geração dos imigrantes da família.)
Tereza Cosentino, casada na Itália em 1890, com Domenico Albanese, eram
ambos os responsáveis pela padaria nesse ano de 1903. Ela estava grávida de seu
sétimo filho (que se chamaria José). Os três mais velhos, nascidos italianos,
deveriam estar estudando, pois Antonia já estava com doze anos de idade,
Paschoal com dez, ambos nascidos italianos e o brasileiro Braz, com oito
anos. Os menorzinhos, Marta, de seis
anos, Eugênio, de quatro, e Sílvio, com apenas dois anos, ainda não
frequentavam a escola.
Giuseppe Cosentino, o Beppe, e Maria Marinelli sua esposa desde 1892,
tinham na época cinco filhos. Apenas dois; Domingas de dez anos nascida na
Itália e o brasileirinho Antonio de oito, tinham então idade escolar. Os outros
brasileiros, Walter, de seis, Wanda, de quatro e Ítalo com dois aninhos, nem
sabiam o que era escola. Nesse mesmo ano de 1903 iria nascer Mafalda, a sexta entre
os oito filhos do casal. Nessa época Beppe era há algum tempo o principal sócio
da firma José Cosentino & Irmãos, a “Casa Italiana”, armazém da família que
se localizava na esquina da Rua Prudente de Moraes com a Rua do Commercio
(atual Marechal Deodoro), no Quarteirão Cosentino. Desta empresa nasceram
diversas outras da família.
Nicola Cosentino casou-se com Josefina Alagia, exatamente no ano de
1893, quando emigrou para o Brasil e assim, todos os cinco filhos do casal
nasceram brasileiros. Pedro, o mais velho, com nove anos era o único “figlio
maschio” e também o único a frequentar escola. Yolanda, de sete, Maria, de
cinco, Angelina, de três e Adelina de um aninho, ainda não tinham idade
escolar. Mas Nicola, como todo o restante da família já estava bem resolvido,
desdobrando toras e começando a fabricar móveis, na já citada serraria da
Família.
Quando chegou a Ribeirãozinho, no ano de 1902, Matteo já trazia os dois
filhos de seu primeiro casamento, contraído em 1890, com Domenica Maria Ielpo,
falecida ao dar a luz a sua filha. As duas crianças eram Biase, de doze anos em
1903 e Domenica com oito. Evidentemente essas crianças frequentavam a escola,
bem cuidados que eram pela sua “segunda mãe”, Antonia Ielpo, irmã mais velha de
Domenica e segunda esposa de Matteo desde 1900. O “último imigrante Cosentino”
trazia valores monetários para serem investidos em mais negócios familiares,
mas ainda estudava onde aplicar seu capital familiar. Enquanto isso ia ajudando
na serraria e no armazém. (Cinco anos depois, em 1908, Matteo teria um filho
brasileiro, seu terceiro e o primeiro de Antonia. Chamar-se-ia Mansueto
Cosentino e viria a ser meu pai. Mas isso, depois eu conto.)
Por ora devo explicar os porquês de nos documentos italianos virem
primeiro os sobrenomes e depois o nome e porque os mesmos nomes se repetiam
tantas vezes dentro da família. Eu mesmo achava confuso ter tio, primo e avô
com nomes iguais. A repetição dos nomes era causada pelo fato de que os nomes
de batismo eram dados em homenagem aos parentes. E existe uma estrutura: O
primogênito masculino terá o nome do avô paterno, o próximo filho homem, o nome
do avô materno e as filhas seguiam do mesmo modo os nomes das avós. Tios e
tias, primos e primas, paternos e maternos, seriam homenageados daí por diante.
Nos almoços de domingos, quando toda a família se reunia, se um nome era
chamado, no mínimo três pessoas respondiam.
No Brasil esses costumes foram sendo abandonados aos poucos e de duas
maneiras. A primeira foi o aportuguesamento dos nomes. Por exemplo, chamo-me
Mateus em homenagem ao meu avô paterno, Matteo. A segunda mudança foi a adoção dos
complementos após o sobrenome, como “Filho”, “Júnior”, “Neto” e até “Sobrinho”,
como é o hábito brasileiro. Mas aqui o abuso em repetir nomes completos foi
cada vez menos usado, para dirimir as prováveis confusões de “personagens".
Os bem sucedidos Cosentino, não só abrasileiram os nomes, como queriam
falar melhor o portuguese. Creio que em 1903, após aquela notícia dada pelo
jornal de grande prestígio, em 1898, já deveria haver na vila professoras
“nativas”, isto é, habilitadas ao ensino de português. Porque todas as crianças
da minha família em idade escolar foram alfabetizadas nessa estranha e bela
“última flor do Lácio”.
<<<O>>>
Certamente também fizeram um pouco parte da História da vila que
escolheram para morar e da qual passarei aqui a contar alguns acontecimentos.
Começo retroagindo ao dia dois de dezembro do remoto ano de 1825. Nessa
data, na cidade do Rio de Janeiro, nasceu uma criança do sexo masculino, filho
de família muito importante. A mãe dessa criança morreu no ano seguinte, em
dezembro de 1826. Desde seu primeiro ano e durante um bom lapso de tempo, o
bebê foi amamentado, com carinho e boa vontade por uma senhora, que acabara de
ser mãe pela vez primeira. Chamava-se ela Maria Francisca de Jesus. Sua
dedicação e a qualidade do leite fizeram a criança tão forte, saudável e feliz
que, ao término de sua missão "amamentícia", o comovido pai, em sinal
de gratidão a essa nobre mulher, presenteou-a, em 1830, com uma gleba de terras
nos sertões de Araraquara que se estendiam até as barrancas onde o Rio Tietê se
encontrava com o Rio Paraná.
Corajosamente Maria Francisca de Jesus, acompanhada dos filhos, migrou
para o interior paulista, penetrando no sertão inóspito e selvático, a fim de tomar posse de suas terras. Os
Castilho – esse era o nome da família – em seu primeiro contato com suas terras
instalaram-se à beira de um riacho e ali passaram a se ocupar em diversas
culturas agrícolas, além de se dedicar à criação de gado bovino e suíno. Esses
últimos se reproduziam tanto, que o local ficou sendo conhecido como “Ribeirão
dos Porcos”.
Desde sempre Dona Maria Francisca de Jesus, em suas andanças por suas
terras, teve por hábito a utilização de uma capa preta, a qualquer tempo,
fizesse chuva ou sol. O uso constante dessa vestimenta deu-lhe a alcunha de
“mulher da capa preta”. A partir daí e para todo o sempre todos seus
descendentes seriam conhecidos como “os Capa Preta”.
Os Capa Preta foram bravos desbravadores do sertão paulista.
Tornando-se proprietários de escravos, foram os precursores da pecuária e da
lavoura em grande escala na região. Venderam vastas glebas inexploradas de seu
latifúndio, cercando-se de fazendas produtivas, que se constituíram em núcleo
de construtores de estradas, porto fluvial e de fundadores de povoados.
Mas é preciso completar essa história. É necessário informar que os
pais daquele menino amamentado, se chamavam Pedro de Alcântara e Maria
Leopoldina. O menino, batizado com o nome do pai, ficou mais conhecido como Dom
Pedro II, Imperador do Brasil, evidentemente filho da Imperatriz do Brasil e
Princesa da Áustria e do Imperador Dom Pedro I. A imensa gleba doada à Maria
Francisca de Jesus era uma Sesmaria e o primeiro local da instalação da
família, foi o Ribeirão dos Porcos.
<<<O>>>
Quase quarenta anos após a chegada de Maria Francisca de Jesus Castilho,
a Capa Preta, exatamente em oito de junho do ano de 1868, onze famílias
proprietárias de fazendas dentro da antiga Sesmaria, reuniram-se sob o comando
do araraquarense de trinta e seis anos de idade, Bernardino José Sampaio. Nessa
reunião todos concordaram em doar vários alqueires de suas próprias terras para
a fundação de um povoado às margens do
Ribeirão dos Porcos.. Deram a ele o nome de São Sebastião dos Coqueiros.
A família do fundador Sampaio foi a principal doadora, dispondo de
quase quarta parte da área total. Essa doação, somada à da família da viúva
Castro e a da família Camargo, representava mais da metade da gleba. As demais
oito famílias, a saber; Espírito Santo (viúva), Esteves, Pereira da Costa,
Silva Leite, Ferreira da Costa (viúvo), Souza, Fonseca e Santana, completavam o
total de terras doadas. Considerando maridos e mulheres, eram dezenove os doadores,
que fizeram lavrar um oficio da fundação da vila, assinado por todos. O
documento teve o seguinte teor:
“Dizemos nós abaixo-assinados
que é verdade
somos senhores e possuidores com igual administração de diversas partes
de terras na Fazenda
denominada Boa Vista no Ribeirão dos Porcos,
de cujas partes damos muito de nossas livres
e espontâneas vontades a São Sebastião dos Coqueiros,
sessenta e quatro alqueires
de terra a fim
de que nessa fazenda
se levante um
templo àquele
Mártir, cujas terras
no valor de cento
e oitenta mil réis
damos (...) Em dito
São Sebastião dos Coqueiros
cedemos toda posse
e direito em
ditas terras as quais
ficam lhe pertencendo de hoje em diante, e para firmeza mandamos passar o presente que
firmamos. Ribeirão dos Porcos, em oito de junho de 1868”
Apenas dois anos após a fundação do povoado, foi erguida pelo caboclo
Joaquim Jerônimo a primeira residência local. Era uma casinha de barrotes, coberta
de palha e de chão
batido. Nesse mesmo
ano de 1870, o fundador Bernardino José
Sampaio iniciava a primeira cultura de café
da região em
sua Fazenda
Paraguaçu e na Fazenda São Bento de
seu sobrinho. Essa atividade foi
acompanhada nas fazendas do Moinho, Contendas e Grama dos três cunhados de Bernardino,
todos da família Domingues da Silva, a grande fomentadora do progresso da
aldeia recém-fundada.
O primeiro nome do povoado de São Sebastião dos Coqueiros foi trocado em
1880, quando elevado à categoria de Distrito de Paz da Comarca de Jaboticabal,
sob a denominação de São Sebastião do Ribeirãozinho. Somente depois de
decorridos vinte e quatro anos de sua fundação, em 1892, o Distrito é elevado
primeiro à categoria de Vila em julho e um mês após, é criado o Município de
Ribeirãozinho, emancipado política e administrativamente de Jaboticabal. Em
dezembro do mesmo ano é instalada a primeira
Câmara Municipal constituída por cinco vereadores.
Apenas um ano após a transformação da vila em município, chegaram a
Ribeirãozinho os primeiros Cosentino. Daí em diante, as famílias de Tereza,
Giuseppe e Nicola iniciaram seus empreendimentos por décadas de sucesso,
abençoados por São Sebastião o padroeiro do município.
<<<O>>>
Desde sua chegada, os Cosentino habituaram-se, aos domingos, após a
missa na capela, a unir seus esforços culinários para o almoço coletivo nas
mesas unidas no quintal, com toda a família e constantes convidados. Bom vinho
e sangria para as crianças, muito molho para a macarronada, galinha assada
recheada, salada de batatas em maionese caseira, muitas risadas, muita
conversa, algumas discussões, choros e brigas. Assim eram os grandes almoços
italianos, com quase cinquenta pessoas entre adultos e crianças. Era uma
verdadeira festa que durava a tarde inteira e, muitas vezes iam pela noite
adentro regados com uma bela sopa para “enxaguar” toda a comida e vinho
ingeridos.
Num certo domingo desses, ao terminar o almoço e logo após a deliciosa
goiabada com queijo, as alegres conversas de todos foram interrompidas por um sonoro
grito de criança. Era Antonia, a filha mais velha, de doze anos, de Tereza
Cosentino Albanese. Algumas crianças riam e outras corriam em alvoroço,
afastando-se do grupo. Toda a conversa sessou e as mulheres correram para ver o
que acontecia.
- Larga isso menino!
Matteo já puxava seu filho Biase pela orelha, Domenico Albanese,
tentava obrigar o menino também de doze anos a largar um osso muito maior que
qualquer outro de galinha que haviam acabado de comer.
Biase ria e dava volteios no ar com seu troféu na mão, incitado pelos
outros meninos, até que Nicola, o tio dele arrancou-lhe das mãos o brinquedo.
- “Dove” você pegou isso maledeto?
- Foi um cachorro que escavou um buraco e ia pegando o osso quando
peguei primeiro...
- Mas onde foi isso, “porca miseria”?
- Lá no Jardim municipal, tio.
Houve um silêncio total. Todos sabiam o que poderia ser aquela ossada.
Então, aproximando-se da dupla, um senhor de provecta idade, delicadamente
pegou o osso da mão de Nicola, que o entregou sem resistência. Ele e sua mulher
estavam entre os casais convidados ao comensal dominical. Olhou atentamente a
peça óssea com demora e diagnosticou:
- É uma clavícula. Uma clavícula humana direita.
Ante as exclamações de espanto que ele já esperava, fez uma pausa
enquanto dava mais uma olhada e com voz grave concluiu:
- É uma ossada certamente feminina!
Quem dava esse preciso veredito
era Dom Benito, ou melhor, Dr. Benito Villa Marins, o primeiro médico
residente em Ribeirãozinho. Formado médico
na Espanha, sua terra natal, lá clinicou por longos anos, até o reinado de
Isabel II, quando por seu ideário republicano, passou a ser perseguido e, ao
final, expatriado, junto a outros tantos, para o Brasil, como revolucionário.
Famoso e respeitado por todos na vila, desde quando, há muitos anos foi
buscado em sua residência na vila de Caconde, para salvar um Capa Preta, ferido
gravemente por um seu escravo espancado e revoltado. Milagrosamente curando
José Francisco de Castilho, Dom Benito deixou-se ficar em Ribeirãozinho, onde
acabou por se casar com Dona Maria Agostinha de Castilho, filha mais velha do
Capa Preta, seu paciente agradecido. Por essa forma, o médico espanhol
tornou-se proprietário de uma extensa gleba na Cachoeira, terra dos Castilhos,
denominada “Córrego d’Agulha”. Desde então, Dom Benito entregou-se aos labores
da lavoura. Aos setenta e dois anos o Doutor, era um palestrante que se
satisfazia em contar com abundância de detalhes suas muitas reminiscências
europeias e brasileiras.
Tendo obtido a atenção de todos e mesmo sabendo que quase todos
conheciam a história local que iria começar a contar, iniciou sua narrativa. Passou
a discorrer, sem largar o osso, que usava como uma batuta, sobre uma das
primeiras providências tomadas pelos pioneiros fundadores, que foi a instalação
de um cemitério na vila de São Sebastião dos Coqueiros. Acrescentou que na mesma
época um pouco mais para baixo na direção do riacho foi erguida a capela de
Nossa Senhora Aparecida e a primeira casa de alvenaria, para servir de moradia
para o padre, quando estivesse na vila. Mas somente em 1897, um ano após a
emancipação da vila, foi instaurada a Paróquia de São Sebastião. Nessas mesmas
imediações, pouco tempo depois, foram instaladas a delegacia de polícia e a
cadeia...
Dom Benito parou sua narrativa. Notou que estava perdendo a atenção de
seus ouvintes divagando por detalhes esparsos e fora do tema. Percebeu ainda
não ter largado a clavícula e a depositou sobre a mesa, onde acabavam de comer.
Sua esposa, discretamente a pegou e procurando não chamar a atenção de ninguém,
colocou-a na lixeira ali próxima. De nada adiantou o comportamento discreto
dela, pois todos mantinham a atenção voltada para aquele osso de mulher
defunta. Doutor Benito, deu um forte pigarro e conseguindo novamente obter o
olhar de todos, retornou ao assunto do cemitério original dos pioneiros.
Explicou que a vila cresceu incontrolável em torno do local escolhido,
reduzindo as dimensões de nosso Campo Santo a um quadrilátero de ruas e, como
os presentes sabiam, a necrópole ali permaneceu até 1896, há sete anos atrás.
Naquele ano a municipalidade transferiu cemitério para outro endereço. O que
não ficou claramente explicado aos habitantes, foi um fato insólito, ou seja,
durante as obras de reurbanização da região central, quando no lugar foi
construído o Jardim Municipal, foram encontrados os restos mortais das pessoas
ali sepultadas. Mas foi tomada a decisão de deixar ali intocadas as ossadas.
Isso porque não havia como trasladá-las, visto que não havia como serem identificadas,
pois foram enterrados sem ter sido feito nenhum registro dos respectivos
óbitos. Por isso, muitas crianças com certa frequência encontravam nos
canteiros da Praça, ossos surgidos após chuvas ou escavações de cães. As
crianças os pegavam, lavavam e guardavam para brincar de assustar amigos e
familiares, do mesmo modo como o menino Biase acabara de fazer nesse domingo.
Dom Benito terminou sua narração, com um movimento de braço como se
esperasse aplausos. Ao invés disso houve algumas risadas e um murmurinho de
alguns ouvintes assustados com a possibilidade de tropeçar com algum osso humano
ao fazer o “footing” nos fins de semana, Percebendo então que poderia
permanecer centralizando as atenções, resolveu contar outra história de
cemitério. Tomou mais um gole do bom vinho que era servido e batendo com seu
anel no copo, indagou em alta voz:
- Vocês sabem por que o cemitério foi transferido para outro local?
Praticamente todos, tinham alguma ideia a esse respeito, mas poucos
podiam afirmar, entre tantos boatos sobre isso, qual era o verdadeiro. Então
até quem estava certo que sabia, resolveu calar. E o bom médico, em sua
esperteza, contava com isso.
- Porque era pequenininho.
Dom Benito olhou surpreso em direção à inesperada resposta. Tinha sido
Biase, o inquieto menino, causador de toda essa conversa. O médico contador de
histórias teve ímpeto de mandá-lo calar a boca, mas se conteve e quis passar a
mão na cabeça da criança, que se esquivou. Então forçou um sorrido, para dizer:
- É isso mesmo! Seu filho é muito inteligente Matteo. Mas deixem-me
explicar os detalhes.
Começou contando que a mudança foi realizada havia sete anos atrás, em
1896, quando fazia vinte oito anos da fundação da Vila de Ribeirãozinho e,
portanto, também da antiga necrópole, já então muito “tiquitita” ante o
progresso local, como falou o menino. Exatamente no dia vinte e dois de abril
daquele ano, Bernardino José Sampaio, o idealizador da fundação da vila, então
com sessenta e cinco anos, caiu do cavalo sobre o qual estava trafegando na Rua
do Sapo, sendo acometido por um fulminante colapso cardíaco, vindo a falecer na mesma hora. Seu cunhado,
cofundador e proprietário da Fazenda Contendas, Andrelino Domingues da Silva,
decidiu que Bernardino Sampaio não poderia ser enterrado naquele cemitério
porque este não estava de acordo com a antiga tradição de que os mortos devem
ser enterrados sempre ao sul das povoações. Além disso, não havia mais lugar
para novos jazigos. Então Andrelino doou outro terreno para instalação de um
novo Campo Santo mais condizente à estatura histórica do falecido Bernardino
que, além de ser um dos fundadores de Ribeirãozinho, foi nomeado em 1892, Juiz
de Paz e eleito presidente da Câmara Municipal, no mesmo ano. Não deixou
descendente, embora casado com a sua sobrinha Francisca da Silva Sampaio, filha
de sua irmã Anna da Silva Sampaio, esta casada com José Domingues da Silva. (Portanto,
sua sogra era também sua irmã.)
Outra vez Dom Benito percebeu se dispersar, repetindo um necrológio
desnecessário e do conhecimento de todos. Porém sentindo que todos, até as
crianças, mantinham-se atentos apressou-se em continuar.
Andrelino deu caráter de urgência urgentíssima a todos os
procedimentos, de modo que o morto ilustre fosse sepultado no dia seguinte ao seu óbito, antes do sol se por. E
conseguiu o feito e lá está o ilustre primeiro corpo enterrado na sepultura
número um no novo cemitério.
Terminaria seu discurso neste
momento se não observasse o Giuseppe Cosentino se inclinar ao ouvido do irmão
Matteo, cochichando algum segredo. Então por mais uma vez continuou, agora para
mostrar que era total a sua sapiência dos fatos.
Rapidamente então alterou a voz para dizer que o que havia acabado de
contar era a história oficial.
Entretanto havia indícios de que na madrugada entre o dia vinte e dois
e vinte e três, às escondidas, foi feito o sepultamento de um homem de cor, que
morrera vitimado pela febre amarela. Conta-se que o Prefeito da época e as
demais autoridades, tudo fizeram para ocultar o registro de óbito da morte do
negro, que jamais poderia tomar a primazia da esperada inauguração do novo
cemitério com o corpo de um ilustre desconhecido.
Conseguindo o resultado esperado de fazer todos se alegrarem com seu
relato, o primeiro e ilustre médico da cidade chamou sua esposa e pôs-se a se
despedir agradecido dos seus anfitriões, encerrando com isso mais um grandioso
almoço dominical dos Cosentino.
Mateus Cosentino
Sampa – 16.07.2017
Licença Criativa
- Esta obra está
licenciada para Mateus Cosentino.
Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao
autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode
criar obras derivadas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
O QUE VOCÊ ACHOU?