sexta-feira, 1 de março de 2024

 

“Una Piccola” História de Família

Livro 1 - Parte 1 - Recomeço

CAPÍTULO 09 – PASTA, STORIA E LEGGENDE

  


A importância que os imigrantes tiveram na história e no desenvolvimento da vila de Ribeirãozinho, no final do Século XIX e início do XX, foi tão significativa que creio ser oportuno transcrever aqui uma notícia muito interessante. Foi publicada pelo jornal “O Estado de São Paulo”, em sua edição de 28 de maio de 1898, cinco anos após a chegada dos primeiros Cosentino:

 “Em Ribeirãozinho os brasileiros natos estão numa bagagem medonha. A maior parte dos funcionários daquele município é de nacionalidade estrangeira. São portugueses: o presidente de Câmara Municipal, o subdelegado de polícia, o oficial de justiça e o juiz de paz. São italianos: um vereador, o agente do correio, o carcereiro, o administrador do cemitério, o coveiro, o arrumador, o alinhador e o professor municipal. Nota curiosa e a nosso ver muito grave: o professor municipal não sabe uma palavra de português”.

Essa notícia dá a verdadeira dimensão da “invasão” de imigrantes que deixou a vila com tão grande quantidade de moradores falando apenas italiano, que nem pareceu estranho o único professor local não falar “uma palavra de português”. Por outro lado, isso pode significar que a criação de uma escola na vila foi uma iniciativa de um ilustre imigrante oriundo d’Itália. Isso não deve ser de todo estranho, porque a vila havia sido fundada há apenas trinta anos, a primeira casa existente ali, foi construída apenas dois anos depois da fundação, quando os primeiros imigrantes começaram a chegar nas fazendas de café ao derredor.

Os primeiros Cosentino chegaram em 1893 e se estabeleceram na vila de Ribeirãozinho. Eram três irmãos; Tereza, Giuseppe e Nicola, todos com esposos e filhos. Matteo, Antonia Ielpo e as crianças Biase e Domenica, completariam a imigração familiar em 1902.

 A primeira atividade da família Cosentino nas terras brasileiras foi o macarrão. Começou, desde que chegaram ao Brasil em 1893, como uma extensão da cozinha, para atender os vizinhos, Dez anos depois, foi criada uma firma registrada com o nome  Fábrica de Macarrão Mafalda, em homenagem à sexta filha do casal Giuseppe e Maria Cosentino, nascida naquele ano. Domenico Albanese, o marido de Tereza Cosentino, foi encarregado de gerenciar a empresa. Os irmãos de Tereza, Giuseppe e Nicola, cuidavam então do Armazém de outros nascentes negócios da família.

Domenico Albanese gerenciava a empresa com toda a eficiência e comando que aprendera a ter na Itália, onde havia sido oficial tenente “carabiniere” da Guarda Nacional. Tinha também um bom tino comercial e transformara a fábrica em verdadeira padaria, ocupando a esposa, cunhadas e ele próprio como eficientes padeiros. Assim, além do macarrão – cuja maior parcela era colocada à venda no armazém da família – passou a produzir pão italiano, linguiça calabresa, queijo, e típicos temperos e massas para vários doces.     

 Toda a produção dos alimentos era a tarefa principal das mulheres da família. Esse trabalho havia sido deixado para elas, desde que seus maridos passaram a se dedicar a outros negócios mais rentáveis. Mães, esposas e donas de casa, usavam as facilidades da empresa para fazer a comida doméstica para maridos e filhos. A criançada permanecia brincando ao redor de suas saias, enquanto elas trabalhavam e sempre sobrava algum servicinho leve para os maiores. Pouca diferença havia entre empresa e família e isso tornava mais fortes os laços de união familiar.

 Assim como o marido Matteo e os filhos dele, Antonia foi a última a chegar, Então Tereza Cosentino, esposa de Domenico Albanese, Maria Marinelli, esposa de Giuseppe e Josefina Alagio, esposa de Nicola, prontificaram-se a ensinar à recém-chegada Antonia os segredos da produção industrial da “pastasciutta”. Queriam familiarizá-la o mais rápido possível aos hábitos e aos trabalhos de todos.

 Antonia, com seus trinta e três anos sabia muito bem fazer macarrão, mas apenas no processo doméstico em pequena  quantidade. Suas cunhadas mais aptas ao trabalho resolveram lhe dar uma mãozinha, visando distribuir a tarefa para mais uma pessoa entre as três mestras do pastifício. Tereza, de trinta e cinco anos, era a mais velha e a mais hábil. Maria de trinta e um e Josefina de vinte e nove, juntaram-se para supervisionar a iniciação de Antônia.

- Hoje vamo fazê pasta fresca de “tagliarini”. Disse Tereza, levando Antonia para o salão da fábrica e a postou diante da grande mesa rústica com grosso tampo de madeira impecavelmente liso.

- Bela “questa” mesa, né Tereza?

 Diante da admiração da cunhada, Josefina correu a explicar orgulhosa.

 - Non é bela mesmo? Foi feita na nostra serraria. O Nicola, “mio marito”, está começando a fazer móveis lá.

 Após a breve admiração da mesa, Tereza retornou à tarefa combinada de fazer pasta.

 - Hoje vamo fazê “tagliarini”.

- “Domani sarà un spaghetti, certo”? Falou Antonia, tentando ser, ao mesmo tempo, simpática e  engraçada.

 - É isso Antonia, a massa pros dois é iguale, mas o talharine é piú fácile de fazê. Você vai ver.

 Maria e Josefina, com a alegria de quem gosta do que faz, já jogavam sobre a mesa os ingredientes para fazer a massa.

- “Spaghetti” parece barbante e “tagliarini” tem forma de tira.

Todas riram com a obviedade da frase dita brincando por Maria, com a voz impostada de professora.

 Tereza, na tentativa de parar com a dispersão de todas, retornou ao assunto principal enquanto as outras já iam arrumando os ingredientes sobre a mesa.

 - Antigamente, Antonia, nóis fabricava a pasta quase sem equipamento.

 - Mas alora já temo uns, precipitou-se a dizer Maria.

 - “State zitto! Adesso facciamo la pasta e poi mostreremo le macchine”!

 Tereza e Maria tinham se esquecido do combinado. Os equipamentos eram para serem mostrados na hora certa. Mas a reação de Josefina em italiano – que se usava quando a conversa era para ser entendida somente pelos “oriundi” - fez com que as outras a olhassem com certa surpresa. Mas Tereza deu continuidade ao ensino de Antonia.

 - Vamo prepará a massa. Qui tão todo os ingrediente: A farinha de trigo, os ovos e o sal. É só... quer dizer: tem também um conservante para alimento, que vem de Portugal. Uma vizinha portuguesa que traz para a  gente e ensinou a pôr muito pouquinho. Ele serve pra não criá fungo. Ela me falô que é feito com frutos verde parecido com cereja. Só  sei que funciona.

 - E questa vasilha d’água? perguntou Antonia.

 - É pra todas lavar as mão, disse Maria brincando, não se faz macarrão com essas porca mãos sujas, completou rindo.

 - Mas também serve pra por água na massa e não deixá ela ficá seca, corrigiu Tereza.  

 Foram todas lavar as mãos na torneira da pia. Uma empurrando a outra e brincando com o sabão de coco.

- A farinha que nóis usa é de “grano duro” de trigo importada, mais cara, mas rende mais e deixa a massa melhor. Explicou Josefina, quando todas voltaram para a mesa de trabalho.

 - Mas por que tem dois pacotes de farinha aí na mesa? quis saber Antonia.

- Um deles é de farinha argentina mais comum, explicou Josefina. A gente faz um “mezzo a mezzo” pra ficar mais barato.

 - E os ovo, parte a gente compra na vizinhança e parte a gente apanha no nosso galinheiro, que tem aqui atrás no quintal, concluiu Maria.

 Tereza percebeu que Antonia estava meio perdida em meio a essas informações comerciais e começou a colocar os ingredientes sobre a mesa, enquanto receitava e ia fazendo a massa.

 - Para cada quilo de farinha misturada, coloco treis ovo inteiro, uma pitada de sal e menos ainda de conservante.

 Pegou as mãos de Antonia. 

 - Enfie a mão nessa pasta e vai amassando até ficá com a dureza certa

 Antonia foi amassando.

 - Pronto, ansim tá bom, disse Josefina e pegou a massa da mão de Antonia, enquanto jogava farinha na mesa.

 - É pra não grudá. E se a pasta ficá muito seca molha a mão na tigela d’água e amassa mais um poco.

 Ela mesma continuou amassando até sentir que já estava no ponto para “abrir”. Então retornou a massa para Antonia, pedindo para que a deixasse com a espessura de uns três centímetros.

 - Cadê o pau-de-macarrão? perguntou Antonia.

 As outras três riram. Esperavam por isso. Maria já tirara o pano que cobria “as máquinas”.

 Eram apenas três equipamentos e nenhum era o pau-de-macarrão. Maria era a “maquinista” que geralmente operava os instrumentos e, por isso, foi explicando o funcionamento de cada.

- Esse é um aparelhinho que próprio io comprei em Araraquara e serve para deixar a massa bem fina, como quella que a gente cortava sobre o tampo da mesa em forma de ‘tagliarini’. Enquanto falava ia introduzindo a massa entre os dois rolos de metal da máquina,

 - Esses dois rolo se mexe com a manivela. Um não vira, mas otro tem um parafuso que regula a distância entre os rolo. “Ma questa” máquina é lenta e precisa de molta passadas da massa, muita força na manivela até afiná certo... a gente ainda usa, mas só de vez em quando. 

 - E este outro aqui, foi a Tereza que troxe da Itália.

 Todas olharam para o instrumento como se estranhassem a geringonça. Era um cone oco, dentro do qual se enchia de massa e depois, com um grosso parafuso, com forma de “T”, ia-se comprimindo a massa contida dentro do cone. Com a pressão, a massa já saía formatada de “spaghetti” ou “tagliarini”, conforme os furos das formas colocadas na extremidade inferior. Tereza ia demonstrando o seu funcionamento, dizendo:

 - Questo já é um museu. Só serve pra fazê um pouquinho de macarrão. Aqui a gente não usa mais.

 - Então como vocês faz “spaghetti” fininho e tudo igual? quis saber Antonia.

 - Com essa bela máquina, que meu Nicola inventou na serraria!

 Era Josefina quem mostrava com orgulho uma caixa de madeira. Abriu a tampa da caixa e surgiram dois rolos de madeira semelhantes aos da maquininha comprada em Araraquara. Também reguláveis, mas maiores na largura.

 - Mas é de madeira só um pouco maior que quella otra, deixou escapar Antonia e, sem conter certa malícia continuou; é uma bela cópia e não uma invencione.

 Josefina deu um sorriso de superioridade e mostrou outros seis cilindros de madeira soltos dentro da caixa, e foi explicando.

 - Essa que é “cara mia” é a invencione dello mio marito. Um dos rolo da máquina, como o da otra picolina não mexe e só serve para afinar a massa. Mas o outro a gente troca. Ele têm uns talho, tá vendo? A massa passa por ele e já fica pronta na grossura certa. Manivelando já sai no formato de “tagliarini o spaghetti, capiche”? Temos treis tamanhos para cada macarrão, mas podemo fazê mais.

 - Olha aqui Antonia, depois da gente passá na máquina, continuou Tereza, se corta tudo no mesmo tamanho de trinta centímetro e deixa nos varal que estão lá no quintal pra secá no sol. Depois de tudo seco a gente pesa na balança e embrulha os meio quilo naquele papel grosso azul, da bobina ali.

 - Pronto Antonia, é só isso, disse Maria.

 - Quando a gente começô vendê macarrão, os brasileiros daqui nem conhecia a “pastasciutta”. Adesso quase não conseguimo atendê eles tudo.

 - Então agora vamo fazê junto e de verdade uns cinco quilo de talharine!

 E todas se puseram a trabalhar. Josefina e Maria cantavam, enquanto Tereza prestava atenção e acudia Antonia para que ela não errasse. Cada uma fez, antes que chegasse a hora do almoço, uma quantidade de pasta, que sabiam totalizar cinco quilos após secarem. Mas só iriam colocar o macarrão nos varais, depois do almoço. E cada uma pegou a sua trouxa de comida feita ao mesmo tempo em que fabricaram o talharine, pra levar para casa.

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 Assim eram os Cosentino, os pioneiros empreendedores locais. Sem dúvida se constituíram em um marco importante no desenvolvimento de Ribeirãozinho, depois Taquaritinga, desde o final do Século XIX, em seus primeiros anos no Brasil, até a década de 1930. Atuaram em múltiplos empreendimentos, tais como a citada fábrica de macarrão, padaria, comércio de gêneros alimentícios, ferragens, material de construção, serraria, fábrica de móveis, olaria, produzindo tijolos, telhas. No povoado de Icoarana, foram proprietários de uma fazenda de café, onde instalaram máquina de beneficiar esse produto.

 Seguindo sua ascensão comercial, foram adquirindo Hotel, Livraria, Gráfica, Foram Agentes-comissários de Empresas de Importação/Exportação de Santos e de São Paulo e da Companhia de navegação, de Seguros e correspondentes de Bancos. Também eram representantes da conceituada firma F. Matarazzo e das afamadas Camas Patente. Além disso, também foram revendedores de automóveis italianos FIAT e distribuidores da gasolina Texaco.

 Na década de 1920 a família construiu o primeiro prédio assobradado em dois pavimentos em Taquaritinga, na Rua Marechal Deodoro, 1033, onde morou um núcleo da família. Além desse prédio, construíram também vários outros prédios, pois já foi citado que atuavam no Ramo da Construção.

 Porém seus mais ousados e queridos empreendimentos foram os pioneiros cinemas da cidade...

 Mas nos adiantamos e já estamos muito longe desse início de século em que estávamos narrando. Vamos então voltar ao começo do Século XX.

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No ano de 1903 os Cosentino já estavam bem estabelecidos na vila de Ribeirãozinho, fixando-se no quadrilátero de ruas, formado entre a Marechal Deodoro, Prudente de Morais, Rui Barbosa e Treze de Maio. Todos viviam cotidianamente como uma única família, nessa área que ficou conhecida como “O Quarteirão dos Cosentino”. Lá, foram instalados alguns de seus negócios e cada irmão construiu a casa de seu próprio lar. Na época já perfaziam o número de vinte e seis pessoas, entre as quais oito adultos e dezoito crianças. (Dali mais cinco anos nasceriam outros cinco filhos, totalizando as trinta e uma pessoas da primeira e segunda geração dos imigrantes da família.)

 Tereza Cosentino, casada na Itália em 1890, com Domenico Albanese, eram ambos os responsáveis pela padaria nesse ano de 1903. Ela estava grávida de seu sétimo filho (que se chamaria José). Os três mais velhos, nascidos italianos, deveriam estar estudando, pois Antonia já estava com doze anos de idade, Paschoal com dez, ambos nascidos italianos e o brasileiro Braz, com oito anos.  Os menorzinhos, Marta, de seis anos, Eugênio, de quatro, e Sílvio, com apenas dois anos, ainda não frequentavam a escola.   

 Giuseppe Cosentino, o Beppe, e Maria Marinelli sua esposa desde 1892, tinham na época cinco filhos. Apenas dois; Domingas de dez anos nascida na Itália e o brasileirinho Antonio de oito, tinham então idade escolar. Os outros brasileiros, Walter, de seis, Wanda, de quatro e Ítalo com dois aninhos, nem sabiam o que era escola. Nesse mesmo ano de 1903 iria nascer Mafalda, a sexta entre os oito filhos do casal. Nessa época Beppe era há algum tempo o principal sócio da firma José Cosentino & Irmãos, a “Casa Italiana”, armazém da família que se localizava na esquina da Rua Prudente de Moraes com a Rua do Commercio (atual Marechal Deodoro), no Quarteirão Cosentino. Desta empresa nasceram diversas outras da família.

 Nicola Cosentino casou-se com Josefina Alagia, exatamente no ano de 1893, quando emigrou para o Brasil e assim, todos os cinco filhos do casal nasceram brasileiros. Pedro, o mais velho, com nove anos era o único “figlio maschio” e também o único a frequentar escola. Yolanda, de sete, Maria, de cinco, Angelina, de três e Adelina de um aninho, ainda não tinham idade escolar. Mas Nicola, como todo o restante da família já estava bem resolvido, desdobrando toras e começando a fabricar móveis, na já citada serraria da Família.

 Quando chegou a Ribeirãozinho, no ano de 1902, Matteo já trazia os dois filhos de seu primeiro casamento, contraído em 1890, com Domenica Maria Ielpo, falecida ao dar a luz a sua filha. As duas crianças eram Biase, de doze anos em 1903 e Domenica com oito. Evidentemente essas crianças frequentavam a escola, bem cuidados que eram pela sua “segunda mãe”, Antonia Ielpo, irmã mais velha de Domenica e segunda esposa de Matteo desde 1900. O “último imigrante Cosentino” trazia valores monetários para serem investidos em mais negócios familiares, mas ainda estudava onde aplicar seu capital familiar. Enquanto isso ia ajudando na serraria e no armazém. (Cinco anos depois, em 1908, Matteo teria um filho brasileiro, seu terceiro e o primeiro de Antonia. Chamar-se-ia Mansueto Cosentino e viria a ser meu pai. Mas isso, depois eu conto.)

 Por ora devo explicar os porquês de nos documentos italianos virem primeiro os sobrenomes e depois o nome e porque os mesmos nomes se repetiam tantas vezes dentro da família. Eu mesmo achava confuso ter tio, primo e avô com nomes iguais. A repetição dos nomes era causada pelo fato de que os nomes de batismo eram dados em homenagem aos parentes. E existe uma estrutura: O primogênito masculino terá o nome do avô paterno, o próximo filho homem, o nome do avô materno e as filhas seguiam do mesmo modo os nomes das avós. Tios e tias, primos e primas, paternos e maternos, seriam homenageados daí por diante. Nos almoços de domingos, quando toda a família se reunia, se um nome era chamado, no mínimo três pessoas respondiam.

 No Brasil esses costumes foram sendo abandonados aos poucos e de duas maneiras. A primeira foi o aportuguesamento dos nomes. Por exemplo, chamo-me Mateus em homenagem ao meu avô paterno, Matteo. A segunda mudança foi a adoção dos complementos após o sobrenome, como “Filho”, “Júnior”, “Neto” e até “Sobrinho”, como é o hábito brasileiro. Mas aqui o abuso em repetir nomes completos foi cada vez menos usado, para dirimir as prováveis confusões de “personagens".

 Os bem sucedidos Cosentino, não só abrasileiram os nomes, como queriam falar melhor o portuguese. Creio que em 1903, após aquela notícia dada pelo jornal de grande prestígio, em 1898, já deveria haver na vila professoras “nativas”, isto é, habilitadas ao ensino de português. Porque todas as crianças da minha família em idade escolar foram alfabetizadas nessa estranha e bela “última flor do Lácio”.

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Certamente também fizeram um pouco parte da História da vila que escolheram para morar e da qual passarei aqui a contar alguns acontecimentos.

 Começo retroagindo ao dia dois de dezembro do remoto ano de 1825. Nessa data, na cidade do Rio de Janeiro, nasceu uma criança do sexo masculino, filho de família muito importante. A mãe dessa criança morreu no ano seguinte, em dezembro de 1826. Desde seu primeiro ano e durante um bom lapso de tempo, o bebê foi amamentado, com carinho e boa vontade por uma senhora, que acabara de ser mãe pela vez primeira. Chamava-se ela Maria Francisca de Jesus. Sua dedicação e a qualidade do leite fizeram a criança tão forte, saudável e feliz que, ao término de sua missão "amamentícia", o comovido pai, em sinal de gratidão a essa nobre mulher, presenteou-a, em 1830, com uma gleba de terras nos sertões de Araraquara que se estendiam até as barrancas onde o Rio Tietê se encontrava com o Rio Paraná.

 Corajosamente Maria Francisca de Jesus, acompanhada dos filhos, migrou para o interior paulista, penetrando no sertão inóspito e selvático,  a fim de tomar posse de suas terras. Os Castilho – esse era o nome da família – em seu primeiro contato com suas terras instalaram-se à beira de um riacho e ali passaram a se ocupar em diversas culturas agrícolas, além de se dedicar à criação de gado bovino e suíno. Esses últimos se reproduziam tanto, que o local ficou sendo conhecido como “Ribeirão dos Porcos”.

 Desde sempre Dona Maria Francisca de Jesus, em suas andanças por suas terras, teve por hábito a utilização de uma capa preta, a qualquer tempo, fizesse chuva ou sol. O uso constante dessa vestimenta deu-lhe a alcunha de “mulher da capa preta”. A partir daí e para todo o sempre todos seus descendentes seriam conhecidos como “os Capa Preta”.

 Os Capa Preta foram bravos desbravadores do sertão paulista. Tornando-se proprietários de escravos, foram os precursores da pecuária e da lavoura em grande escala na região. Venderam vastas glebas inexploradas de seu latifúndio, cercando-se de fazendas produtivas, que se constituíram em núcleo de construtores de estradas, porto fluvial e de fundadores de povoados.  

 Mas é preciso completar essa história. É necessário informar que os pais daquele menino amamentado, se chamavam Pedro de Alcântara e Maria Leopoldina. O menino, batizado com o nome do pai, ficou mais conhecido como Dom Pedro II, Imperador do Brasil, evidentemente filho da Imperatriz do Brasil e Princesa da Áustria e do Imperador Dom Pedro I. A imensa gleba doada à Maria Francisca de Jesus era uma Sesmaria e o primeiro local da instalação da família, foi o Ribeirão dos Porcos.

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 Quase quarenta anos após a chegada de Maria Francisca de Jesus Castilho, a Capa Preta, exatamente em oito de junho do ano de 1868, onze famílias proprietárias de fazendas dentro da antiga Sesmaria, reuniram-se sob o comando do araraquarense de trinta e seis anos de idade, Bernardino José Sampaio. Nessa reunião todos concordaram em doar vários alqueires de suas próprias terras para a fundação de um povoado às margens do Ribeirão dos Porcos.. Deram a ele o nome de São Sebastião dos Coqueiros.

 A família do fundador Sampaio foi a principal doadora, dispondo de quase quarta parte da área total. Essa doação, somada à da família da viúva Castro e a da família Camargo, representava mais da metade da gleba. As demais oito famílias, a saber; Espírito Santo (viúva), Esteves, Pereira da Costa, Silva Leite, Ferreira da Costa (viúvo), Souza, Fonseca e Santana, completavam o total de terras doadas. Considerando maridos e mulheres, eram dezenove os doadores, que fizeram lavrar um oficio da fundação da vila, assinado por todos. O documento teve o seguinte teor:   

 “Dizemos nós abaixo-assinados que é verdade somos senhores e possuidores com igual administração de diversas partes de terras na Fazenda denominada Boa Vista no Ribeirão dos Porcos, de cujas partes damos muito de nossas livres e espontâneas vontades a São Sebastião dos Coqueiros, sessenta e quatro alqueires de terra a fim de que nessa fazenda se levante um templo àquele Mártir, cujas terras no valor de cento e oitenta mil réis damos (...) Em dito São Sebastião dos Coqueiros cedemos toda posse e direito em ditas terras as quais ficam lhe pertencendo de hoje em diante, e para firmeza mandamos passar o presente que firmamos. Ribeirão dos Porcos, em oito de junho de 1868”

 Apenas dois anos após a fundação do povoado, foi erguida pelo caboclo Joaquim Jerônimo a primeira residência local. Era uma casinha de barrotes, coberta de palha e de chão batido. Nesse mesmo ano de 1870, o fundador Bernardino José Sampaio iniciava a primeira cultura de café da região em sua Fazenda Paraguaçu e na Fazenda São Bento de seu sobrinho. Essa atividade foi acompanhada nas fazendas do Moinho, Contendas e Grama dos três cunhados de Bernardino, todos da família Domingues da Silva, a grande fomentadora do progresso da aldeia recém-fundada.

 O primeiro nome do povoado de São Sebastião dos Coqueiros foi trocado em 1880, quando elevado à categoria de Distrito de Paz da Comarca de Jaboticabal, sob a denominação de São Sebastião do Ribeirãozinho. Somente depois de decorridos vinte e quatro anos de sua fundação, em 1892, o Distrito é elevado primeiro à categoria de Vila em julho e um mês após, é criado o Município de Ribeirãozinho, emancipado política e administrativamente de Jaboticabal. Em dezembro do mesmo ano é instalada a primeira Câmara Municipal constituída por cinco vereadores.

 Apenas um ano após a transformação da vila em município, chegaram a Ribeirãozinho os primeiros Cosentino. Daí em diante, as famílias de Tereza, Giuseppe e Nicola iniciaram seus empreendimentos por décadas de sucesso, abençoados por São Sebastião o padroeiro do município.

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 Desde sua chegada, os Cosentino habituaram-se, aos domingos, após a missa na capela, a unir seus esforços culinários para o almoço coletivo nas mesas unidas no quintal, com toda a família e constantes convidados. Bom vinho e sangria para as crianças, muito molho para a macarronada, galinha assada recheada, salada de batatas em maionese caseira, muitas risadas, muita conversa, algumas discussões, choros e brigas. Assim eram os grandes almoços italianos, com quase cinquenta pessoas entre adultos e crianças. Era uma verdadeira festa que durava a tarde inteira e, muitas vezes iam pela noite adentro regados com uma bela sopa para “enxaguar” toda a comida e vinho ingeridos.

 Num certo domingo desses, ao terminar o almoço e logo após a deliciosa goiabada com queijo, as alegres conversas de todos foram interrompidas por um sonoro grito de criança. Era Antonia, a filha mais velha, de doze anos, de Tereza Cosentino Albanese. Algumas crianças riam e outras corriam em alvoroço, afastando-se do grupo. Toda a conversa sessou e as mulheres correram para ver o que acontecia.

- Larga isso menino!

 Matteo já puxava seu filho Biase pela orelha, Domenico Albanese, tentava obrigar o menino também de doze anos a largar um osso muito maior que qualquer outro de galinha que haviam acabado de comer.

 Biase ria e dava volteios no ar com seu troféu na mão, incitado pelos outros meninos, até que Nicola, o tio dele arrancou-lhe das mãos o brinquedo.

- “Dove” você pegou isso maledeto?

 - Foi um cachorro que escavou um buraco e ia pegando o osso quando peguei primeiro...

 - Mas onde foi isso, “porca miseria”?

 - Lá no Jardim municipal, tio.

 Houve um silêncio total. Todos sabiam o que poderia ser aquela ossada. Então, aproximando-se da dupla, um senhor de provecta idade, delicadamente pegou o osso da mão de Nicola, que o entregou sem resistência. Ele e sua mulher estavam entre os casais convidados ao comensal dominical. Olhou atentamente a peça óssea com demora e diagnosticou:

 - É uma clavícula. Uma clavícula humana direita.

Ante as exclamações de espanto que ele já esperava, fez uma pausa enquanto dava mais uma olhada e com voz grave concluiu:

- É uma ossada certamente feminina!

Quem dava esse preciso veredito  era Dom Benito, ou melhor, Dr. Benito Villa Marins, o primeiro médico residente em Ribeirãozinho. Formado  médico na Espanha, sua terra natal, lá clinicou por longos anos, até o reinado de Isabel II, quando por seu ideário republicano, passou a ser perseguido e, ao final, expatriado, junto a outros tantos, para o Brasil, como revolucionário.  

 Famoso e respeitado por todos na vila, desde quando, há muitos anos foi buscado em sua residência na vila de Caconde, para salvar um Capa Preta, ferido gravemente por um seu escravo espancado e revoltado. Milagrosamente curando José Francisco de Castilho, Dom Benito deixou-se ficar em Ribeirãozinho, onde acabou por se casar com Dona Maria Agostinha de Castilho, filha mais velha do Capa Preta, seu paciente agradecido. Por essa forma, o médico espanhol tornou-se proprietário de uma extensa gleba na Cachoeira, terra dos Castilhos, denominada “Córrego d’Agulha”. Desde então, Dom Benito entregou-se aos labores da lavoura. Aos setenta e dois anos o Doutor, era um palestrante que se satisfazia em contar com abundância de detalhes suas muitas reminiscências europeias e brasileiras.

Tendo obtido a atenção de todos e mesmo sabendo que quase todos conheciam a história local que iria começar a contar, iniciou sua narrativa. Passou a discorrer, sem largar o osso, que usava como uma batuta, sobre uma das primeiras providências tomadas pelos pioneiros fundadores, que foi a instalação de um cemitério na vila de São Sebastião dos Coqueiros. Acrescentou que na mesma época um pouco mais para baixo na direção do riacho foi erguida a capela de Nossa Senhora Aparecida e a primeira casa de alvenaria, para servir de moradia para o padre, quando estivesse na vila. Mas somente em 1897, um ano após a emancipação da vila, foi instaurada a Paróquia de São Sebastião. Nessas mesmas imediações, pouco tempo depois, foram instaladas a delegacia de polícia e a cadeia...

 Dom Benito parou sua narrativa. Notou que estava perdendo a atenção de seus ouvintes divagando por detalhes esparsos e fora do tema. Percebeu ainda não ter largado a clavícula e a depositou sobre a mesa, onde acabavam de comer. Sua esposa, discretamente a pegou e procurando não chamar a atenção de ninguém, colocou-a na lixeira ali próxima. De nada adiantou o comportamento discreto dela, pois todos mantinham a atenção voltada para aquele osso de mulher defunta. Doutor Benito, deu um forte pigarro e conseguindo novamente obter o olhar de todos, retornou ao assunto do cemitério original dos pioneiros.

 Explicou que a vila cresceu incontrolável em torno do local escolhido, reduzindo as dimensões de nosso Campo Santo a um quadrilátero de ruas e, como os presentes sabiam, a necrópole ali permaneceu até 1896, há sete anos atrás. Naquele ano a municipalidade transferiu cemitério para outro endereço. O que não ficou claramente explicado aos habitantes, foi um fato insólito, ou seja, durante as obras de reurbanização da região central, quando no lugar foi construído o Jardim Municipal, foram encontrados os restos mortais das pessoas ali sepultadas. Mas foi tomada a decisão de deixar ali intocadas as ossadas. Isso porque não havia como trasladá-las, visto que não havia como serem identificadas, pois foram enterrados sem ter sido feito nenhum registro dos respectivos óbitos. Por isso, muitas crianças com certa frequência encontravam nos canteiros da Praça, ossos surgidos após chuvas ou escavações de cães. As crianças os pegavam, lavavam e guardavam para brincar de assustar amigos e familiares, do mesmo modo como o menino Biase acabara de fazer nesse domingo.

 Dom Benito terminou sua narração, com um movimento de braço como se esperasse aplausos. Ao invés disso houve algumas risadas e um murmurinho de alguns ouvintes assustados com a possibilidade de tropeçar com algum osso humano ao fazer o “footing” nos fins de semana, Percebendo então que poderia permanecer centralizando as atenções, resolveu contar outra história de cemitério. Tomou mais um gole do bom vinho que era servido e batendo com seu anel no copo, indagou em alta voz:

 - Vocês sabem por que o cemitério foi transferido para outro local?

 Praticamente todos, tinham alguma ideia a esse respeito, mas poucos podiam afirmar, entre tantos boatos sobre isso, qual era o verdadeiro. Então até quem estava certo que sabia, resolveu calar. E o bom médico, em sua esperteza, contava com isso.

- Porque era pequenininho.

Dom Benito olhou surpreso em direção à inesperada resposta. Tinha sido Biase, o inquieto menino, causador de toda essa conversa. O médico contador de histórias teve ímpeto de mandá-lo calar a boca, mas se conteve e quis passar a mão na cabeça da criança, que se esquivou. Então forçou um sorrido, para dizer:

 - É isso mesmo! Seu filho é muito inteligente Matteo. Mas deixem-me explicar os detalhes.

 Começou contando que a mudança foi realizada havia sete anos atrás, em 1896, quando fazia vinte oito anos da fundação da Vila de Ribeirãozinho e, portanto, também da antiga necrópole, já então muito “tiquitita” ante o progresso local, como falou o menino. Exatamente no dia vinte e dois de abril daquele ano, Bernardino José Sampaio, o idealizador da fundação da vila, então com sessenta e cinco anos, caiu do cavalo sobre o qual estava trafegando na Rua do Sapo, sendo acometido por um fulminante colapso cardíaco, vindo  a falecer na mesma hora. Seu cunhado, cofundador e proprietário da Fazenda Contendas, Andrelino Domingues da Silva, decidiu que Bernardino Sampaio não poderia ser enterrado naquele cemitério porque este não estava de acordo com a antiga tradição de que os mortos devem ser enterrados sempre ao sul das povoações. Além disso, não havia mais lugar para novos jazigos. Então Andrelino doou outro terreno para instalação de um novo Campo Santo mais condizente à estatura histórica do falecido Bernardino que, além de ser um dos fundadores de Ribeirãozinho, foi nomeado em 1892, Juiz de Paz e eleito presidente da Câmara Municipal, no mesmo ano. Não deixou descendente, embora casado com a sua sobrinha Francisca da Silva Sampaio, filha de sua irmã Anna da Silva Sampaio, esta casada com José Domingues da Silva. (Portanto, sua sogra era também sua irmã.)

 Outra vez Dom Benito percebeu se dispersar, repetindo um necrológio desnecessário e do conhecimento de todos. Porém sentindo que todos, até as crianças, mantinham-se atentos apressou-se em continuar.

 Andrelino deu caráter de urgência urgentíssima a todos os procedimentos, de modo que o morto ilustre fosse sepultado no dia seguinte ao seu óbito, antes do sol se por. E conseguiu o feito e lá está o ilustre primeiro corpo enterrado na sepultura número um no novo cemitério.

 Terminaria seu  discurso neste momento se não observasse o Giuseppe Cosentino se inclinar ao ouvido do irmão Matteo, cochichando algum segredo. Então por mais uma vez continuou, agora para mostrar que era total a sua sapiência dos fatos.

 Rapidamente então alterou a voz para dizer que o que havia acabado de contar era a história oficial.

Entretanto havia indícios de que na madrugada entre o dia vinte e dois e vinte e três, às escondidas, foi feito o sepultamento de um homem de cor, que morrera vitimado pela febre amarela. Conta-se que o Prefeito da época e as demais autoridades, tudo fizeram para ocultar o registro de óbito da morte do negro, que jamais poderia tomar a primazia da esperada inauguração do novo cemitério com o corpo de um ilustre desconhecido.

 Conseguindo o resultado esperado de fazer todos se alegrarem com seu relato, o primeiro e ilustre médico da cidade chamou sua esposa e pôs-se a se despedir agradecido dos seus anfitriões, encerrando com isso mais um grandioso almoço dominical dos Cosentino. 

  

Mateus Cosentino

Sampa – 16.07.2017

  

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