“Una
Piccola” História de Família
Livro 1 -
Parte 1 - Recomeço
CAPÍTULO 12 – UN PÓ DI TERRA
Em 1893, a vasta região da antiga
Sesmaria dos Cocais, já havia sido desmembrada, formando diversos aglomerados
de possessões. A maior parte dela era tomada por duas grandes fazendas de café,
entre as quais foram sendo formadas outras menores e pequenos sítios. Em meio a
esses desmembramentos havia uma povoação com algumas poucas casas de sapé
construídas por imigrantes italianos que ali passaram a residir para trabalhar na
plantação e colheita do café.
Em 1900, esse povoado ficou conhecido como Bairro do Santiago, devido ao
sítio pertencente a um espanhol com aquele sobrenome. O bairro era atravessado
por uma estrada utilizada para passagem de gado e, em cujo final, os tropeiros
acampavam para seu descanso e o da boiada. Ali havia uma curva e por isso o
local ficou sendo chamado de Dobrada do Santiago, ou simplesmente Dobrada,
quando passou a ser Distrito de Matão, a mais progressista vila dos arredores,
localizada a uns dez quilómetros a sudeste.
Desde que se casaram, Giuseppe Laitano e Isabela Crescente, nunca se
conformaram com as carências da vida que levavam e sempre procuraram uma vida
melhor. Queriam melhorar, menos para si mesmos e mais para os filhos que iam
nascendo. Partindo de seu “paese” natal na Itália meridional, primeiro foram
para o Vêneto, no norte da península. Dali partiram para a grande aventura, de atravessar
o Atlântico e “fare l’América” no Brasil. Em seus primeiros cinco anos no Novo
Mundo viveram presos a um contrato em Fazenda de Café. E quando libertos, partiram
para mais uma migração.
Era o início de janeiro de 1904, quando a família Laitano, desobrigada
da servidão temporária em Jaboticabal na Fazenda Pau D’Alho e finalmente livre
para escolher seu próprio destino, partiu rumo ao sul. No caminho passou por
Ribeirãozinho e alguns outros povoados menores. Por trem, carro de bois e a pé,
os Laitano percorreram seu destino de pioneiros colonizadores, em mais uma nova
etapa de sobrevivência familiar. Assim, após certo tempo de viagem chegavam à
Dobrada.
Seus escassos recursos foram suficientes para tomarem posse de um
pequeno sítio nas imediações do povoado. Ali havia uma frágil casa de sapé, mas
o lugar estava tão abandonado, que se viram obrigados a combater cobras e se
acostumar com onças rondando suas portas nas altas horas da madrugada. Era o
lugar mais selvagem e mais precário em que já haviam vivido, mas era o seu
lugar. Teriam muito trabalho duro a fazer de sol-a-sol, mas o pedaço de chão
sob aquele Sol era deles. Quase todo o pequeno capital que ganharam, foi
absorvido para obter a posse dessa terra. Mas finalmente aquele chão era o
começo daquilo com que sempre sonharam um dia ter.
Porém,
ao partir nessa viagem, Isabela não sabia que, coincidindo a instalação do novo
lar em Dobrada, também teria o inicio de uma nova gravidez. Seria sua última
gestação, a do temporão e quarto filho do casal, que se juntaria aos irmãos
Leonne, de 15 anos, Leonardo, de 13 e Maria, com 10 anos de idade. Seu nome
seria Natal, pois nasceria no dia 25 de dezembro. Um novo filho era uma nova
alegria, mas também uma inesperada complicação.
Porém começos e recomeços nunca são fáceis. Desde que os Laitano
chegaram ao Brasil em 1897, passaram-se seis anos e, enquanto isso, outros 123
mil europeus, principalmente italianos chegavam ao Brasil, passando pela
Hospedaria dos Imigrantes de São Paulo. Quase a metade dessas pessoas fixara-se
em Ribeirão Preto, São Simão, Jaboticabal, São Carlos do Pinhal, Araraquara e
outras cidades das imediações. Com tanta gente, a região ficou “inchada” de
colonos europeus. Em consequência dessa saturação da mão-de-obra, a necessidade
de trabalhadores na lavoura cafeeira diminuiu, enquanto a exportação de café
declinava.
Mas, enquanto os colonos de contrato na mão estavam seguros no trabalho
por alguns anos, o imigrante livre precisava obter algum crédito imediato junto
ao pequeno comércio local, para a sobrevivência de sua família. Por isso,
levaria algum tempo para o sítio dos Laitano começar a ter criação e plantação
produtivas. Então, do mesmo modo que todos os que estavam nessa situação,
Giuseppe e Leonne, seu filho mais velho, foram logo buscar trabalho avulso nas
plantações de café da região. Isabela e os filhos Leonardo e Maria ficaram
cuidando do recém-nascido Natal e das culturas de seu próprio sítio.
Giuseppe e Leonne trabalharam em diversas roças, mas principalmente e
de forma alternada nas duas grandes fazendas de café da região. Enquanto fossem
necessários e bem pagos permaneciam na Fazenda São Francisco de Paula, de Valdomiro
Pinto Alves. Mas davam preferência ao trabalho na Fazenda Nossa Senhora
Aparecida, onde eram mais bem tratados. Essa propriedade era da família
Fedozzi, de um dos primeiros imigrantes italianos chegados à região.
Os Fazendeiros, por segurança e maior lucratividade, ocupavam nas terras
roxas, suas melhores terras, onde se utilizavam dos imigrantes com contratos assumidos
na Hospedaria, que os prendiam ao trabalho, por cerca de quatro anos. Ao
imigrante livre, mas que ainda precisava trabalhar nas fazendas, restava
aceitar fazer todo o serviço que sobrava, por mais árduo que fosse, nas terras
de menor produtividade e com pagamentos aviltantes. Muitas vezes eram tratados
de modo pior do que os colonos de contrato.
Mas por não terem vínculos que os obrigasse a se submeter a maus
tratamentos, possuíam a liberdade de empregar sua mão-de-obra onde lhes eram
oferecidas melhores condições. Por mínimo que fosse, tinham seu capital e eram
donos de seus lotes de terra. Essas poucas diferenças os distinguiam dos novos
imigrantes, colonos em servidão temporária nas fazendas. Surgia assim uma rixa entre
italianos com e sem contrato, com e sem propriedade.
Era o reaparecimento, agora modificado, da rivalidade já existente na
Itália entre moradores de “paesi” vizinhos. Existia sim essa hostilidade nos
cafezais, mas era coisa menor e não determinante no relacionamento. Vistos como
estrangeiros, sentindo-se estranhos, longe da terra natal, em um país de língua
e costumes diferentes e tendo as mesmas carências, surgia espontaneamente entre
todos os “oriundi” um sentimento comum de “italianidade”, inexistente em sua
própria pátria. Sentiam-se mais italianos no Brasil do que nunca.
Giuseppe, Leone e família, superando todas as contrariedades, assim
viveram por mais quase quatro anos de duro trabalho, até conseguirem a obtenção
de economias suficientes para se dedicarem à sua pequena propriedade. E
conquistada essa relativa independência no final de 1906, iniciavam a tentativa
de realização de uma nova fase em suas vidas. Queriam se dedicar mais ao seu
pequeno pedaço de terra mais urbano, ocupando-se de tarefas nas imediações da
vila onde vivia a família.
Os filhos Leonardo e Maria, então com quinze e treze anos de idade,
estiveram sempre ajudando Isabela, sua mãe, que apesar de ter apenas trinta e
cinco anos, sua dura vivência já não lhe dava tanta disposição para cuidar de
tudo; da família, principalmente tendo um bebê a mais e da casa, da horta e das
criações. Mas se a disposição não era mais igual, tirava a mesma força que toda
mulher sempre tem para cumprir as obrigações impostas e aceitas por si mesma,
de cuidar de todas as tarefas “domésticas”. Leonardo e Maria, seus filhos
menores davam-lhe grande ajuda, não há como negar, mas Isabela, mesmo exausta,
sempre que podia os aliviava dos serviços mais pesados.
Giuseppe e Leonne ficavam diariamente ausentes para trabalhar nas
fazendas e ganhar “il soldi” necessários. Isabela cuidava também de todo o salário
que entrava em casa. Em toda sua permanência em Dobrada, na casa dos Laitano
nunca houve falta de dinheiro. Seu sítio supria a alimentação com a horta e
galinhas. Havia porcos, mas eram para engordar e vender. Havia coelhos para
Maria e Leonardo tratarem, não para comê-los, mas para vendê-los. Até cachorros
havia para cuidar da segurança do sítio. Sapatos e panos eram comprados, mas as
roupas eram feitas pelas mãos das duas mulheres da casa. Viviam sem ostentação
e com simplicidade, como sempre na vida. Porém, agora estavam acumulando
economias para uma vida melhor. E Isabela nutria suas forças do reconhecimento
que todos tinham do seu esforço e dedicação à família. E seu grande zelo por
todos e por tudo, nutria a família de esperança. Assim eram as verdadeiras “mammas
dello mezzogiorno”.
A partir dos resultados domésticos, obtidos na horta e da criação com o
trabalho de sua mulher, Giuseppe, que já se sentia velho aos quarenta anos,
imaginava várias coisas a fazer, a partir de quando se libertasse do trabalho
na plantação de café. A ideia predominante era que ele e Leonne – de dezessete
anos - iriam ampliar a produção em seu sítio e vender as verduras e outras
hortaliças, os frangos, o leite da cabra, os porcos e tudo mais que produzisse
em suas terras. Por isso, assim que pôde, comprou um cavalo novo e uma carroça
velha, visando comercializar seu “excesso de produção” pelas ruas de Dobrada.
Dessa forma, todos os Laitano passaram a se dedicar à produção
doméstica para consumo próprio e para vender. Giuseppe e Leonne compraram mais
porcos, construíram um mangueirão para criá-los e engordá-los e viraram
comerciantes e - por que não dizê-lo? – biscateiros. Essa nova atividade,
tornou toda a família em “fazedores de tudo”. Nada era feito fora do sítio.
Plantação, manutenção e colheita na horta, tratamento, abatimento, corte dos
animais, cercas, galinheiro, tijolos, massa para construção, carpintaria,
marcenaria. Tudo era feito por todos, além daquilo que já era normal nos seus
costumes cotidianos em sua vida domiciliar.
Leonne e o pai aumentavam a renda da família oferecendo seus trabalhos
para manutenção e conserto de qualquer coisa que os seus fregueses precisassem.
Cobravam pouco por seus serviços e na maior parte das vezes, os trocavam por
recolhimento de lavagem para os porcos, ou até mesmo por porções de arroz,
feijão, milho, café, açúcar e outros produtos.
Com todos trabalhando em casa, ou no comércio na vila, Leonardo, então
com 15 anos, logo conseguiu o trabalho de ajudante de acendedor de lampiões, ali
mesmo nas ruas centrais de Dobrada, onde ainda não havia chegado a energia
elétrica. O cargo oficial de acendedor de lampiões a gás e querosene era de um
velho chamado Carlim Prosa, que precisava do auxílio, pois ficou com a coluna
torta de tanto carregar a escada para alcançar e acender os lumes dos postes de
iluminação locais.
Anos atrás, em 1901 a estrada de ferro vinda de Matão, ignorava a ainda
nascente e diminuta Dobrada e chegava à próxima vila de Santa Ernestina indo daí
até Taquaritinga, a ex Ribeirãozinho. Entretanto, Dobrada prosperava
continuamente, sua população cada vez mais se ressentia por permanecer à margem
do progresso geral da região. Nesses primórdios, os caminhos de ferro
projetados eram cheios de curvas, porque era preciso atender os poderosos
cafeicultores, além de que, os engenheiros ganhavam por quilómetros de trilhos
construídos. Assim a ferrovia, ziguezagueando, margeava a vila, atingindo fazendas
próximas, mas deixando-a esquecida.
Posteriormente os caminhos tortuosos da ferrovia foram sendo
paulatinamente retificados. As correções no trajeto deram maior incentivo a
grita da população dobradense. Na época, a prosperidade econômica advinda das
plantações de café, já tornava viável a reivindicação para escoar a volumosa
produção de café até o porto de Santos de onde seria exportada. Mas demorou a
chegar ali esse primeiro sinal de progresso. Foi somente em 1908, que finalmente
se completou o prolongamento do ramal vindo de Matão até Dobrada. Os trilhos de
bitola estreita da Estrada de Ferro Araraquarense, finalmente passavam pelo
centro da vila - aonde foi construída uma Estação – e daí, tangenciando o
limite de trás do sítio dos Laitano, continuavam em direção ao povoado de Santa
Ernestina.
Giuseppe e família, assim como toda a população, não continham sua
alegria com as perspectivas de um sonhado progresso. Carlim Prosa, o velho
acendedor de lampiões e seu ajudante Leonardo Laitano, incumbiram-se de colar
nos postes, por ordem das autoridades, uma longa notícia publicada pelo jornal
“O Popular” de Araraquara, que seria o atestado de conclusão da obra
ferroviária que poria no mapa o distrito de Dobrada:
“Às cinco horas e meia da manhã do dia vinte e dois de
janeiro de 1908 um trem especial da Companhia de Estradas de Ferro
Araraquarense, partiu da cidade de Araraquara em viagem de inspeção até o final
do prolongamento dos trilhos em construção. Na composição estavam o Prefeito de
Araraquara, o Presidente da Cia. Araraquarense e seu Chefe de Tráfego, o Inspetor
Geral da ferrovia Paulista e os Engenheiros encarregados do empreendimento
ferroviário. Como era o objetivo da viagem, as autoridades visitaram
demoradamente as obras de construção do prolongamento do ramal ferroviário.
Em suas passagens pelas Estações de trem dos povoados,
os excursionistas aproveitaram para visitar também as duas mais importantes
propriedades agrícolas locais, cujo potencial cafeeiro justificou o
prolongamento da estrada de ferro. Assim, em Dobrada, conheceram a Fazenda São
Francisco de Paula, a grande propriedade cafeeira do Sr. Dr. Valdomiro Pinto
Alves. Do mesmo modo, quando passaram pela Estação de Santa Ernestina,
deslocaram-se até a imensa Fazenda Cambuhy, ao encontro do “quarto rei do
café”, o riquíssimo Dr. Carlos Leôncio de Magalhães, mais conhecido como Seu
Nhonhô.
Depois de concluídas as necessárias visitas às obras,
a comitiva foi obsequiada por um lauto almoço oferecido pelo Administrador da
Obra no grande abarracamento existente no quilómetro seis do prolongamento dos
trilhos. Às cinco horas da tarde o trem
especial regressou a Araraquara”.
A alegria dos Laitano foi maior porque a vistoria dos trilhos da
Araraquarense, além do progresso, os fez ganhar dinheiro. A família inteira
contribuiu para o banquete no Acampamento do quilómetro seis. Em sua carroça
Giuseppe levou seus familiares, inclusive o caçula Natal então com quatro anos
de idade. Junto à família trouxe todos os alimentos que pode e mais o porco que
Leonne abatera, separara em pedaços e que Isabela, com a filha Maria,
cozinharam para serem servidos no ágape. Além de tantos outros alimentos e
bebidas fornecidas por famílias de Dobrada e Santa Ernestina,
Passada a euforia da chegada do ramal da linha de trem ao seu povoado,
a população começou uma nova luta para obter a energia elétrica que também
demoraria bastante para chegar. No ano seguinte de 1909, chegou à Taquaritinga,
novamente ignorando Dobrada. Mas para Leonardo foi bom, pois com a demora ele
permaneceria acendendo lampiões até 1912, quando então finalmente chegaria a esperada
luz elétrica.
Essa grande demora da eletricidade a Dobrada teve outra boa
consequência, pelo menos para a juventude local. Durante todos os anos que
passaram na espera da energia elétrica, todas as vezes que chegava uma locomotiva
à noite, a rapaziada de várias idades corria para a Estação para ver as imagens
criadas pela luz do trem iluminando no negror das matas e na escuridão da topografia
em frente. Pode parecer pouca tal diversão noturna, mas sem energia elétrica,
além dos lampiões a gás, não havia nada para se ver, tampouco havia rádio para
se ouvir e o cinema. Só vinha com um circo que muito raramente passava por lá.
Neste mesmo ano de 1908 e em sentido contrário aos novos caminhos do
trem, a família Cozza chegava à Dobrada para ali fixar residência. Foram
recebidos com grande alegria pelos já urbanizados moradores locais, os Laitano.
A viagem que fizeram não era tão longa, mas era cansativa. Afinal,
apenas uns cinquenta e cinco quilómetros de distância separava a Fazenda Pau
D’Álho em Jaboticabal do sítio dos Laitano em Dobrada. O primeiro trecho da
viagem, de Jaboticabal até Taquaritinga, era o mais longo e o pior. Mal
acomodados em meio aos seus pertences, Thomaz, Mariana e os filhos Filomena,
Linda e Thomazino, enfrentaram os solavancos do carro de bois em que viajavam. Para
“descansar”, durante os trinta quilómetros da viagem, saiam do carro e
preferiam andar por alguns trechos do caminho.
Partiram no início da madrugada, passavam as horas na estrada e a
cidade parecia nunca chegar. Mas quando a alvorada pintava o céu com as
primeiras luzes de sol, chegaram à estação da estrada de ferro de Taquaritinga.
Descansaram esperando o trem, que demorava e somente chegou ao meio dia.
Embarcaram e percorreram em meia hora os dezessete quilómetros até a estação de
Santa Ernestina, onde o trem parou por poucos minutos e todos aguardaram sem
sair de seu vagão.
Faltavam os sete quilómetros finais no recém-inaugurado trecho da
Estrada de Ferro Araraquarense até Dobrada. A notícia desse novo ramal foi o principal
motivo para que a família Cozza finalmente decidisse mudar mais uma vez para um
novo destino. Na correspondência trocada entre ambas as famílias, desde que
passaram a morar em cidades diferentes, Isabela Laitano contara à amiga Mariana
Rugiano Cozza o início das operações de trem até Dobrada.
Mudar é sempre angustioso, mesmo que se tenha uma maneira
insatisfatória de viver. Mesmo que se viva em um lugar sem progresso, com dias
se sucedendo monotonamente iguais, como se o tempo houvesse parado, cria-se uma
maneira boa de se viver.
Mudar-se de um lugar para outro seguindo o arriscado intento de
alcançar um sonho promissor, ou melhorar de vida são justificativas suficientes
para dar coragem de abandonar um modo de viver bem e iniciar outro com
esperança de dar certo. As duas famílias mudaram de vida mais de uma vez. Sabiam
que a cada vez, viveriam uma nova e dolorosa reconstrução de seus costumes
cotidianos, mas sempre mantinham a esperança e o sonho de que esta seria a derradeira
vez e seria a melhor.
Os Cozza repetiam o caminho dos Laitano e suas histórias de vida seguiam
em paralelo. Viveram seu tempo de duro trabalho em servidão temporária,
conseguirem até obter economias suficientes para adquirirem uma pequena
propriedade em Dobrada, assim como os Laitano haviam conseguido anos antes, em
1904. Mas foram necessários mais quatro anos para Thomaz Cozza e família
conquistarem essa relativa independência e, em 1908 iniciarem uma nova fase de
suas vidas.
Em uma época em que a expectativa de vida era muito baixa, em que aos
quarenta anos as pessoas já se achavam idosas e temiam ter menos forças para a
realização de seus objetivos. Sentiam a ameaça da velhice e a chegada infalível
da morte. Aos quarenta e quatro e quarenta e dois anos, Thomaz e Giuseppe
tentavam apressar todas suas decisões. Suas esposas Mariana, com trinta e três
anos e Isabela, com trinta sete, os acompanhavam com os mesmos temores,
acrescidos do receio feminino da perda de seus encantos juvenis. Enfim, todos
tinham pressa e necessidade de realização.
Essa premência passava para seus filhos que queriam crescer, casar e
progredir rapidamente. Por isso as tristes crianças do início do Século XX, não
tinham tempo para brincar e tudo lhes parecia sério e rigoroso. E seus hábitos familiares
eram tanto mais sóbrios quanto maior fosse a escassez econômica.
Embora tivessem uma roupa melhor, para a missa de domingo, nas visitas
aos parentes e amigos, em outras festas e mesmo nas viagens, comumente suas
vestes diárias eram simples, de panos baratos, gastas pelo uso e com remendos. Não
se incomodavam em se vestir assim, talvez tivessem até certo orgulho disso.
Solidariedade e hospitalidade eram princípios básicos entre as famílias
amigas. Eram valores praticamente naturais entre as pessoas humildes, que
minimizavam com isso as mútuas dificuldades recorrentes. Os Cozza, portanto, nem precisaram se
preocupar com certos detalhes da mudança. Era natural que iriam morar por algum
tempo na casa dos Laitano, enquanto construíam sua própria casa no sítio já
comprado, com a intermediação de Giuseppe.
Mas toda a sobriedade e comedimento próprios da dura vida que levavam,
eram deixados de lado e totalmente esquecidos nos encontros das famílias no
almoço de domingo, pois após o sexto dia de trabalho, até Deus descansou.
Foi em uma tarde de domingo, que os Cozza, chegados a Dobrada, foram
diretamente ao sítio dos Laitano. Deixando ao chão, na entrada do terreno, todos
os trastes trazidos. Dirigiram-se à grande mesa posta no quintal, debaixo da
sombra de uma mangueira. A alegria demonstrada no reencontro das duas famílias
era transmitida nos sorrisos, nos abraços, mas também através do choro comovido
e solidário de quem revia queridos amigos, após tanto tempo.
Foi então esquentado e servido um lauto almoço, previamente preparado para
os recém-chegados. Todos comeram a variegada e saborosa comida, todos beberam a
se fartar do vinho e da sangria abundante para os menores. E todos cantaram,
com lágrima nos olhos, as canções de sua velha Itália. O ”rei da festa” de
reencontro foi o menino Natal, que os Cozza viam pela vez primeira.
A felicidade é assim; feita de momentos simples de alegria, entre um
trabalho e outro, entre uma tristeza e outra. Todos sentiam o alívio com o que
parecia ser o término de todas aquelas mudanças, que causavam essas interrupções
de um modo de viva estabelecido, para o início arriscado de uma nova aventura.
A noite já escurecia o dia quando todos se relaxavam dos excessos da
gula. Natal foi posto para dormir. Somente então os Cozza começaram a contar as
peripécias de sua viagem. Quem começou foi Mariana Cozza que, descreveu as confusões
acontecidas desde que começou a “fazer as trouxas”, junto com os filhos, uma
semana antes de partir.
- Pusemo tudo no chão, disse. Primeiro separamo o que ia ficar: os
armário, as cama, os colchão... Estava tudo tão velho que largamo tudo lá, para
quem quisesse.
- Muita coisa a gente queria levá, disse Filomena, mas a mãe não me deixou
levar os brinquedo, as boneca.
- Claro! Essas bruta moças de catorze e doze anos ainda brincando de
boneca. Tem graça! E além do mais, tinha
muita coisa para enfiar nas trouxa. Era coisa que não acabava mais. Roupa,
sapato, panela, milho e feijão sobrado da roça, queijo fresco, as galinha... viva
não. Só duas preparadas para comer.
- E nem o Niquinho, nosso cachorrinho, a mãe deixou levá, completou
Linda, quase chorando. Ele ficou com minha amiguinha da casa ao lado da nossa.
Eles se gostavam... – conteve o choro – acho que ele vai fica bem.
- O Niquinho não dava para trazê memo...
Thomazino começaria a falar do cachorrinho, mas Mariana sua mãe, cortou
a conversa, que iria acabar em choradeira. Mas Thomaz quis mudar de assunto e,
sem perceber, começou a contar outro assunto triste.
- Tivemos que vendê toda nossa criação, começou Thomaz. Vendê é jeito
de falá, assim como nóis, nossos vizinhos quase não tinham “dinaro”. Tudo foi
quase dado.
- Mas ganhou dinheiro com a venda da Rosada, intrometeu-se Thomazino.
- “Ma che, bambino mio”! Exclamou Thomaz. Rosada era nossa vaca e quase
teve briga na venda dela.
- Foi uma angústia para nóis tudo vendê a Rosada, voltou a tomar a
palavra Mariana e continuou: A vaca era tudo para nóis. A gente podia ser
pobre, mas com ela ninguém passava fome. A gente tinha leite, manteiga e queijo.
Tinha tanto que dava até pra vender na vila. Todo mundo vivia bem graça à nossa
vaca.
Mariana deu um suspiro, que foi acompanhado por toda a família e até
pelos donos da casa. Linda, a filha do meio, aproveitou para expor seu lado
sentimental.
- Era mais que uma vaca, era uma companheira, uma amiga. As vaca são
animal estúpido, mas Rosada entendia tudo que a gente conversava com ela. Todos
nóis ia no seu cantinho falá com ela e com seus doces olhinhos redondos, prestava
atenção e tudo ela compreendia. Nóis amava ela e ela amava nóis.
- Mas nóis tinha de vendê a vaca, falou Filomena interrompendo a lengalenga
da irmã.
- A venda dela quase deu briga, falou Thomaz. Um “farabutto” comerciante
napolitano veio em casa e depois de muito examinar, apalpar, a assustada
Rosada, disse que não era uma vaca velha como aquela, o que precisava. Falou
isso mais outras veiz e tamém que aquela era uma vaca que não conseguiria
revender, que não mais tinha leite, que só daria manteiga ruim... Aí eu puxei a
Rosada da mão dele antes que desse uns socos bem dado no “imbecille”. Desisti
da venda e já ia guardando a vaca, quando ele mudou de conversa: “Tá bem, “va
bene”, vou comprar apesar de tudo", disse. Mas estou fazendo um favor “per
voi”. “Per questo” não posso “pagare” o que pediram...” Então voltei a puxar a
vaca e ele balançando a cabeça como se estivesse descontente, pagou o preço.
- Mas até agora nóis sente a
falta dela, falou Linda, com tristeza.
- Agora nóis não temo mais leite, nem mais manteiga, lamentou Thomazino.
- Mas nóis tinha de vender a vaca, concluiu Filomena encerrando o
assunto.
Os Laitano estavam encantados com o perfeito falar brasileiro dos
velhos amigos. Eles ainda falavam com muitas palavras italianas e um pesado
sotaque calabrês, pois na vila de Dobrada quase se falava mais a língua da
península do que o brasileiro local.
Mas percebendo que todos estavam tristes com a história da vaca, Filomena
virou-se para Thomaz e sugeriu:
- Pai, conta do Pelado!
- Ah filha, essa é uma história velha... Tamos contando agora causos da
nossa mudança.
- Mas que pelado é esse, quis saber a menina Maria Laitano, já achando
graça.
- Pelado era um papagaio, explicou Linda Cozza e, virando-se para o
pai: Conta pai.
- “Va bene”. Pelado era um papagaio velho, dizem que tinha uns
cinquenta ano. Uns treis ano fai, que a gente ganhou ele. Foi quando morreu
“seu” Lucca, um vizinho muito véio, de uma doença no pulmão. A mulher dele não
quis ficar com o papagaio. Ela disse que não aguentava mais o bicho ficar
imitando o chiado da respiração do falecido. Ficava o dia inteiro chiando como
o véio. Ela não aguentava mais, e ofereceu o bicho pra nóis, com gaiola e tudo.
- Nóis mudamo o nome dele, interveio Thomazino, a véia disse que ele
chamava Papagaio memo.
- Nóis então demo pra ele nome de Pelado, explicou Filomena. Era um
bicho véio e arrancava, ele memo, as pena.
- Ele chiava o tempo todo, continuou Mariana, acho que ficava chamando
o véio Lucca. Mas isso não é nada...
- O véio Lucca tinha ensinado ele falá um monte de palavrão, disse
Thomaz, retomando a história que havia começado.
Todos riram e as crianças Cozza ameaçaram começar a dizer alguns
xingamentos do repertório de Pelado. Mariana, mesmo rindo, ameaçou bater nos
filhos se dissessem alguma palavra feia. E para evitar alguma, completou:
- Quando cantávamos para ele, repetia o “iamo, iamo lá” e dançava.
Aprendeu a chamar todos os nossos nomes...
- E xingava todos vizinho! Exclamou Thomazino, voltando a fazer todos
rirem novamente.
Os Laitano entraram na brincadeira e riam junto, enquanto todas as
crianças começaram a dizer alguns nomes de uso cotidiano nas famílias
italianas. “Porca miséria”, disse um; “maledetto”, outra; “cazzo”, mais alguém
e, em coro; “stronzo”, “farabutto”...
- Chega, chega com isso! Eram as mães, Isabela e Mariana, que também
rindo, tentavam interromper o palavreado das crianças.
- Acho que ele sentia falta dos antigos donos, disse Thomaz, e ficava
agressivo por ter sido abandonado por eles. “Chi lo sa”? Ma nóis paramo de
recebê visita por causa dele. Xingava de “pirla”, “finocchio”, “buggiardo” e
“fanculo”, todo visitante home e de “mignotta”, “puttana”, “tria” e “zoccola”,
as muié.
- “Dio mio”! Exclamou Isabela e, morrendo de rir: Cumé que não mataram
logo esse bicho “maledetto”?
Todos riam sem parar, pois o riso é fácil com barriga cheia e alguns
copos de vinho. Mas Thomaz, o “dono da história”, conseguiu termina-la:
- Pelado já era um papagaio véio, depenado. Depois dos primeiros dias
percebemos que estava doente. Vivia com os óio grudado e com caganeira. Foi
ficando cada vez mais queto (parou até de xingá os outro) e, depois de quase um
ano, um dia amanheceu morto, caído do puleiro.
Ninguém ficou muito triste com a morte de Pelado, mas o final foi o suficiente
anticlímax para todos se sentirem cansados após tanta comida, bebida e risadas.
- Deixa tudo aí! ”Domani vedremo”
Foi a ordem de Isabela, a dona da casa. Todas as mulheres e o pequeno Thomazino
foram dormir. A escuridão da noite já caía, já iam chegando às oito horas.
Todos encontraram um lugar para deitar e dormir.
Giusepe Laitano e Thomaz Cozza encostaram suas cadeiras ao tronco da
árvore e acenderam os cigarros de palha que o dono da casa já tinha preparado
desde a manhã. Iam começar aquela prosa mansa e tranquila de final de domingo.
Leonne e Leonardo puxaram suas cadeiras para perto deles. Sentiam-se adultos e
queriam participar do fim de noite.
Houve um silêncio morno, relaxado de fim de festa. Os rapazes foram
recebidos sem restrições. Algumas baforadas do fumo de palha, até que Giuseppe
deu um longo trago, tomou fôlego e iniciou molemente a conversa amena.
- Este fumo é de qualidade. É feito aqui memo por um caboclo véio que
“próprio lui” planta, colhe e queima o tabaco.
- Mamma mia! Muito “meglio che quello” fedorento do Fortunato.
- Fortunato, o capataz da fazenda... Que é dele? Que sucede com “quello
mascalzone farabutto”?
- No ano depois que ocês foi embora, ele teve uma bruta briga com o Administrador,
quase que saiu morte. Foi por pouco.
- Então Thomaz, ele foi embora?
- Foi. O Administrador pagô tudo o que devia pra ele e (dizem) que até
mais. Mas antes de sumir, apareceu lá na frente da porta da nossa casa com uma
espingarda na mão. Foi um susto pra tudo nóis, Giuseppe. Ele, sem descer do
cavalo, me chamou. Mariana não queria me deixar sair. “Ma, che cazzo! Aveva
paura, ma hanno anche coglione, saí? Cheguei perto. Fortunato não disse nada.
Estendeu a espingarda para mim pelo cabo e só disse: “È per voi uccidere le
once di Dobrada”. E foi embora.
- Ele deu uma espingarda para matar as onça daqui? Ma hoje não tem mais
onça! Dobrada já progrediu muito até esse ano de 1908, Thomaz. Ma comé que ele
sabia das onça?
- Uma vez contei a ele que “tua mogle” Isabela, escrevia para Mariana
contando que aqui tinha cobra no mato e onça rondando as porta, de noite.
- “Vero”, tinha, ma não tem mais. E o Fortunato, sumiu pra sempre?
- Nunca mais vi ele, Giuseppe. “Ma sai comè”, a gente me contô que ele
se juntou a uns calabreses de quadrilha em São Carlos e começô a roubá
fazendeiro e até matá. Falaro, agora memo, antes da gente viajá, que ele foi
expulso do Brasil e mandado de vorta pra Catanzaro.
A conversa foi ficando cada vez mais mole e logo esqueceram Fortunato e
deixaram o sono vir chegando e encerrando um agradável domingo que ficaria na
memória de todos.
Como não fazia parte de seu dia-a-dia, os Laitano e nem os Cozza tinham
conhecimento de uma nova Lei Federal, apelidada de “Lei Afonso Gordo”, em vigor
desde janeiro de 1907. Muito menos se interessavam em saber que o Capataz da
Fazenda Pau D’Álho, foi enquadrado nela.
Essa lei de autoria do deputado federal por São Paulo, o Afonso Gordo,
tratava da expulsão do Brasil, de estrangeiros “vagabundos, mendigos, cafetões,
bandidos profissionais e anarquistas”. Fortunato foi enquadrado como
“Anarquista Perigoso”. Mais do que xenofobia, a lei era uma “fobia político-ideológica”.
O Governo não sabia outro modo de impedir o crescimento das mais de
vinte Sociedades Anarquistas já existentes em São Paulo naquele ano. A prática
do Anarquismo veio junto com os imigrantes, principalmente espanhóis e italianos.
Apavorados e sem saber como combater a ideologia que estava crescendo entre o operariado
paulistano e “se constituindo em refúgio de fomentadores da desordem”, as
autoridades nacionais encontraram uma solução simples e radical: “Mandá-los de
volta à sua pátria de origem, para fazerem anarquia lá”! E aproveitaram para
enquadrar assim, todo e qualquer estrangeiro que supostamente burlasse a lei.
Mateus Cosentino
Sampa – 19.07.2017
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