sexta-feira, 22 de março de 2024

 

“Una Piccola” História de Família

Livro 1 - Parte 1 - Recomeço

CAPÍTULO 12 – UN PÓ DI TERRA

 

 


Em 1893, a vasta região da antiga Sesmaria dos Cocais, já havia sido desmembrada, formando diversos aglomerados de possessões. A maior parte dela era tomada por duas grandes fazendas de café, entre as quais foram sendo formadas outras menores e pequenos sítios. Em meio a esses desmembramentos havia uma povoação com algumas poucas casas de sapé construídas por imigrantes italianos que ali passaram a residir para trabalhar na plantação e colheita do café.

 

Em 1900, esse povoado ficou conhecido como Bairro do Santiago, devido ao sítio pertencente a um espanhol com aquele sobrenome. O bairro era atravessado por uma estrada utilizada para passagem de gado e, em cujo final, os tropeiros acampavam para seu descanso e o da boiada. Ali havia uma curva e por isso o local ficou sendo chamado de Dobrada do Santiago, ou simplesmente Dobrada, quando passou a ser Distrito de Matão, a mais progressista vila dos arredores, localizada a uns dez quilómetros a sudeste.  

 Desde que se casaram, Giuseppe Laitano e Isabela Crescente, nunca se conformaram com as carências da vida que levavam e sempre procuraram uma vida melhor. Queriam melhorar, menos para si mesmos e mais para os filhos que iam nascendo. Partindo de seu “paese” natal na Itália meridional, primeiro foram para o Vêneto, no norte da península. Dali partiram para a grande aventura, de atravessar o Atlântico e “fare l’América” no Brasil. Em seus primeiros cinco anos no Novo Mundo viveram presos a um contrato em Fazenda de Café. E quando libertos, partiram para mais uma migração.   

 Era o início de janeiro de 1904, quando a família Laitano, desobrigada da servidão temporária em Jaboticabal na Fazenda Pau D’Alho e finalmente livre para escolher seu próprio destino, partiu rumo ao sul. No caminho passou por Ribeirãozinho e alguns outros povoados menores. Por trem, carro de bois e a pé, os Laitano percorreram seu destino de pioneiros colonizadores, em mais uma nova etapa de sobrevivência familiar. Assim, após certo tempo de viagem chegavam à Dobrada.

 Seus escassos recursos foram suficientes para tomarem posse de um pequeno sítio nas imediações do povoado. Ali havia uma frágil casa de sapé, mas o lugar estava tão abandonado, que se viram obrigados a combater cobras e se acostumar com onças rondando suas portas nas altas horas da madrugada. Era o lugar mais selvagem e mais precário em que já haviam vivido, mas era o seu lugar. Teriam muito trabalho duro a fazer de sol-a-sol, mas o pedaço de chão sob aquele Sol era deles. Quase todo o pequeno capital que ganharam, foi absorvido para obter a posse dessa terra. Mas finalmente aquele chão era o começo daquilo com que sempre sonharam um dia ter.

 Porém, ao partir nessa viagem, Isabela não sabia que, coincidindo a instalação do novo lar em Dobrada, também teria o inicio de uma nova gravidez. Seria sua última gestação, a do temporão e quarto filho do casal, que se juntaria aos irmãos Leonne, de 15 anos, Leonardo, de 13 e Maria, com 10 anos de idade. Seu nome seria Natal, pois nasceria no dia 25 de dezembro. Um novo filho era uma nova alegria, mas também uma inesperada complicação.

 Porém começos e recomeços nunca são fáceis. Desde que os Laitano chegaram ao Brasil em 1897, passaram-se seis anos e, enquanto isso, outros 123 mil europeus, principalmente italianos chegavam ao Brasil, passando pela Hospedaria dos Imigrantes de São Paulo. Quase a metade dessas pessoas fixara-se em Ribeirão Preto, São Simão, Jaboticabal, São Carlos do Pinhal, Araraquara e outras cidades das imediações. Com tanta gente, a região ficou “inchada” de colonos europeus. Em consequência dessa saturação da mão-de-obra, a necessidade de trabalhadores na lavoura cafeeira diminuiu, enquanto a exportação de café declinava.

 Mas, enquanto os colonos de contrato na mão estavam seguros no trabalho por alguns anos, o imigrante livre precisava obter algum crédito imediato junto ao pequeno comércio local, para a sobrevivência de sua família. Por isso, levaria algum tempo para o sítio dos Laitano começar a ter criação e plantação produtivas. Então, do mesmo modo que todos os que estavam nessa situação, Giuseppe e Leonne, seu filho mais velho, foram logo buscar trabalho avulso nas plantações de café da região. Isabela e os filhos Leonardo e Maria ficaram cuidando do recém-nascido Natal e das culturas de seu próprio sítio.

 Giuseppe e Leonne trabalharam em diversas roças, mas principalmente e de forma alternada nas duas grandes fazendas de café da região. Enquanto fossem necessários e bem pagos permaneciam na Fazenda São Francisco de Paula, de Valdomiro Pinto Alves. Mas davam preferência ao trabalho na Fazenda Nossa Senhora Aparecida, onde eram mais bem tratados. Essa propriedade era da família Fedozzi, de um dos primeiros imigrantes italianos chegados à região.

 Os Fazendeiros, por segurança e maior lucratividade, ocupavam nas terras roxas, suas melhores terras, onde se utilizavam dos imigrantes com contratos assumidos na Hospedaria, que os prendiam ao trabalho, por cerca de quatro anos. Ao imigrante livre, mas que ainda precisava trabalhar nas fazendas, restava aceitar fazer todo o serviço que sobrava, por mais árduo que fosse, nas terras de menor produtividade e com pagamentos aviltantes. Muitas vezes eram tratados de modo pior do que os colonos de contrato.

 Mas por não terem vínculos que os obrigasse a se submeter a maus tratamentos, possuíam a liberdade de empregar sua mão-de-obra onde lhes eram oferecidas melhores condições. Por mínimo que fosse, tinham seu capital e eram donos de seus lotes de terra. Essas poucas diferenças os distinguiam dos novos imigrantes, colonos em servidão temporária nas fazendas. Surgia assim uma rixa entre italianos com e sem contrato, com e sem propriedade.

 Era o reaparecimento, agora modificado, da rivalidade já existente na Itália entre moradores de “paesi” vizinhos. Existia sim essa hostilidade nos cafezais, mas era coisa menor e não determinante no relacionamento. Vistos como estrangeiros, sentindo-se estranhos, longe da terra natal, em um país de língua e costumes diferentes e tendo as mesmas carências, surgia espontaneamente entre todos os “oriundi” um sentimento comum de “italianidade”, inexistente em sua própria pátria. Sentiam-se mais italianos no Brasil do que nunca.  

 Giuseppe, Leone e família, superando todas as contrariedades, assim viveram por mais quase quatro anos de duro trabalho, até conseguirem a obtenção de economias suficientes para se dedicarem à sua pequena propriedade. E conquistada essa relativa independência no final de 1906, iniciavam a tentativa de realização de uma nova fase em suas vidas. Queriam se dedicar mais ao seu pequeno pedaço de terra mais urbano, ocupando-se de tarefas nas imediações da vila onde vivia a família.

 Os filhos Leonardo e Maria, então com quinze e treze anos de idade, estiveram sempre ajudando Isabela, sua mãe, que apesar de ter apenas trinta e cinco anos, sua dura vivência já não lhe dava tanta disposição para cuidar de tudo; da família, principalmente tendo um bebê a mais e da casa, da horta e das criações. Mas se a disposição não era mais igual, tirava a mesma força que toda mulher sempre tem para cumprir as obrigações impostas e aceitas por si mesma, de cuidar de todas as tarefas “domésticas”. Leonardo e Maria, seus filhos menores davam-lhe grande ajuda, não há como negar, mas Isabela, mesmo exausta, sempre que podia os aliviava dos serviços mais pesados.

 Giuseppe e Leonne ficavam diariamente ausentes para trabalhar nas fazendas e ganhar “il soldi” necessários. Isabela cuidava também de todo o salário que entrava em casa. Em toda sua permanência em Dobrada, na casa dos Laitano nunca houve falta de dinheiro. Seu sítio supria a alimentação com a horta e galinhas. Havia porcos, mas eram para engordar e vender. Havia coelhos para Maria e Leonardo tratarem, não para comê-los, mas para vendê-los. Até cachorros havia para cuidar da segurança do sítio. Sapatos e panos eram comprados, mas as roupas eram feitas pelas mãos das duas mulheres da casa. Viviam sem ostentação e com simplicidade, como sempre na vida. Porém, agora estavam acumulando economias para uma vida melhor. E Isabela nutria suas forças do reconhecimento que todos tinham do seu esforço e dedicação à família. E seu grande zelo por todos e por tudo, nutria a família de esperança. Assim eram as verdadeiras “mammas dello mezzogiorno”.  

 A partir dos resultados domésticos, obtidos na horta e da criação com o trabalho de sua mulher, Giuseppe, que já se sentia velho aos quarenta anos, imaginava várias coisas a fazer, a partir de quando se libertasse do trabalho na plantação de café. A ideia predominante era que ele e Leonne – de dezessete anos - iriam ampliar a produção em seu sítio e vender as verduras e outras hortaliças, os frangos, o leite da cabra, os porcos e tudo mais que produzisse em suas terras. Por isso, assim que pôde, comprou um cavalo novo e uma carroça velha, visando comercializar seu “excesso de produção” pelas ruas de Dobrada.

 Dessa forma, todos os Laitano passaram a se dedicar à produção doméstica para consumo próprio e para vender. Giuseppe e Leonne compraram mais porcos, construíram um mangueirão para criá-los e engordá-los e viraram comerciantes e - por que não dizê-lo? – biscateiros. Essa nova atividade, tornou toda a família em “fazedores de tudo”. Nada era feito fora do sítio. Plantação, manutenção e colheita na horta, tratamento, abatimento, corte dos animais, cercas, galinheiro, tijolos, massa para construção, carpintaria, marcenaria. Tudo era feito por todos, além daquilo que já era normal nos seus costumes cotidianos em sua vida domiciliar.

 Leonne e o pai aumentavam a renda da família oferecendo seus trabalhos para manutenção e conserto de qualquer coisa que os seus fregueses precisassem. Cobravam pouco por seus serviços e na maior parte das vezes, os trocavam por recolhimento de lavagem para os porcos, ou até mesmo por porções de arroz, feijão, milho, café, açúcar e outros produtos.   

 Com todos trabalhando em casa, ou no comércio na vila, Leonardo, então com 15 anos, logo conseguiu o trabalho de ajudante de acendedor de lampiões, ali mesmo nas ruas centrais de Dobrada, onde ainda não havia chegado a energia elétrica. O cargo oficial de acendedor de lampiões a gás e querosene era de um velho chamado Carlim Prosa, que precisava do auxílio, pois ficou com a coluna torta de tanto carregar a escada para alcançar e acender os lumes dos postes de iluminação locais.

 Anos atrás, em 1901 a estrada de ferro vinda de Matão, ignorava a ainda nascente e diminuta Dobrada e chegava à próxima vila de Santa Ernestina indo daí até Taquaritinga, a ex Ribeirãozinho. Entretanto, Dobrada prosperava continuamente, sua população cada vez mais se ressentia por permanecer à margem do progresso geral da região. Nesses primórdios, os caminhos de ferro projetados eram cheios de curvas, porque era preciso atender os poderosos cafeicultores, além de que, os engenheiros ganhavam por quilómetros de trilhos construídos. Assim a ferrovia, ziguezagueando, margeava a vila, atingindo fazendas próximas, mas deixando-a esquecida.

 Posteriormente os caminhos tortuosos da ferrovia foram sendo paulatinamente retificados. As correções no trajeto deram maior incentivo a grita da população dobradense. Na época, a prosperidade econômica advinda das plantações de café, já tornava viável a reivindicação para escoar a volumosa produção de café até o porto de Santos de onde seria exportada. Mas demorou a chegar ali esse primeiro sinal de progresso. Foi somente em 1908, que finalmente se completou o prolongamento do ramal vindo de Matão até Dobrada. Os trilhos de bitola estreita da Estrada de Ferro Araraquarense, finalmente passavam pelo centro da vila - aonde foi construída uma Estação – e daí, tangenciando o limite de trás do sítio dos Laitano, continuavam em direção ao povoado de Santa Ernestina.

 Giuseppe e família, assim como toda a população, não continham sua alegria com as perspectivas de um sonhado progresso. Carlim Prosa, o velho acendedor de lampiões e seu ajudante Leonardo Laitano, incumbiram-se de colar nos postes, por ordem das autoridades, uma longa notícia publicada pelo jornal “O Popular” de Araraquara, que seria o atestado de conclusão da obra ferroviária que poria no mapa o distrito de Dobrada:

“Às cinco horas e meia da manhã do dia vinte e dois de janeiro de 1908 um trem especial da Companhia de Estradas de Ferro Araraquarense, partiu da cidade de Araraquara em viagem de inspeção até o final do prolongamento dos trilhos em construção. Na composição estavam o Prefeito de Araraquara, o Presidente da Cia. Araraquarense e seu Chefe de Tráfego, o Inspetor Geral da ferrovia Paulista e os Engenheiros encarregados do empreendimento ferroviário. Como era o objetivo da viagem, as autoridades visitaram demoradamente as obras de construção do prolongamento do ramal ferroviário.

 Em suas passagens pelas Estações de trem dos povoados, os excursionistas aproveitaram para visitar também as duas mais importantes propriedades agrícolas locais, cujo potencial cafeeiro justificou o prolongamento da estrada de ferro. Assim, em Dobrada, conheceram a Fazenda São Francisco de Paula, a grande propriedade cafeeira do Sr. Dr. Valdomiro Pinto Alves. Do mesmo modo, quando passaram pela Estação de Santa Ernestina, deslocaram-se até a imensa Fazenda Cambuhy, ao encontro do “quarto rei do café”, o riquíssimo Dr. Carlos Leôncio de Magalhães, mais conhecido como Seu Nhonhô.

 Depois de concluídas as necessárias visitas às obras, a comitiva foi obsequiada por um lauto almoço oferecido pelo Administrador da Obra no grande abarracamento existente no quilómetro seis do prolongamento dos trilhos.  Às cinco horas da tarde o trem especial regressou a Araraquara”.

 A alegria dos Laitano foi maior porque a vistoria dos trilhos da Araraquarense, além do progresso, os fez ganhar dinheiro. A família inteira contribuiu para o banquete no Acampamento do quilómetro seis. Em sua carroça Giuseppe levou seus familiares, inclusive o caçula Natal então com quatro anos de idade. Junto à família trouxe todos os alimentos que pode e mais o porco que Leonne abatera, separara em pedaços e que Isabela, com a filha Maria, cozinharam para serem servidos no ágape. Além de tantos outros alimentos e bebidas fornecidas por famílias de Dobrada e Santa Ernestina,

 Passada a euforia da chegada do ramal da linha de trem ao seu povoado, a população começou uma nova luta para obter a energia elétrica que também demoraria bastante para chegar. No ano seguinte de 1909, chegou à Taquaritinga, novamente ignorando Dobrada. Mas para Leonardo foi bom, pois com a demora ele permaneceria acendendo lampiões até 1912, quando então finalmente chegaria a esperada luz elétrica. 

 Essa grande demora da eletricidade a Dobrada teve outra boa consequência, pelo menos para a juventude local. Durante todos os anos que passaram na espera da energia elétrica, todas as vezes que chegava uma locomotiva à noite, a rapaziada de várias idades corria para a Estação para ver as imagens criadas pela luz do trem iluminando no negror das matas e na escuridão da topografia em frente. Pode parecer pouca tal diversão noturna, mas sem energia elétrica, além dos lampiões a gás, não havia nada para se ver, tampouco havia rádio para se ouvir e o cinema. Só vinha com um circo que muito raramente passava por lá.

 Neste mesmo ano de 1908 e em sentido contrário aos novos caminhos do trem, a família Cozza chegava à Dobrada para ali fixar residência. Foram recebidos com grande alegria pelos já urbanizados moradores locais, os Laitano.

 A viagem que fizeram não era tão longa, mas era cansativa. Afinal, apenas uns cinquenta e cinco quilómetros de distância separava a Fazenda Pau D’Álho em Jaboticabal do sítio dos Laitano em Dobrada. O primeiro trecho da viagem, de Jaboticabal até Taquaritinga, era o mais longo e o pior. Mal acomodados em meio aos seus pertences, Thomaz, Mariana e os filhos Filomena, Linda e Thomazino, enfrentaram os solavancos do carro de bois em que viajavam. Para “descansar”, durante os trinta quilómetros da viagem, saiam do carro e preferiam andar por alguns trechos do caminho.

 Partiram no início da madrugada, passavam as horas na estrada e a cidade parecia nunca chegar. Mas quando a alvorada pintava o céu com as primeiras luzes de sol, chegaram à estação da estrada de ferro de Taquaritinga. Descansaram esperando o trem, que demorava e somente chegou ao meio dia. Embarcaram e percorreram em meia hora os dezessete quilómetros até a estação de Santa Ernestina, onde o trem parou por poucos minutos e todos aguardaram sem sair de seu vagão.

 Faltavam os sete quilómetros finais no recém-inaugurado trecho da Estrada de Ferro Araraquarense até Dobrada. A notícia desse novo ramal foi o principal motivo para que a família Cozza finalmente decidisse mudar mais uma vez para um novo destino. Na correspondência trocada entre ambas as famílias, desde que passaram a morar em cidades diferentes, Isabela Laitano contara à amiga Mariana Rugiano Cozza o início das operações de trem até Dobrada.

 Mudar é sempre angustioso, mesmo que se tenha uma maneira insatisfatória de viver. Mesmo que se viva em um lugar sem progresso, com dias se sucedendo monotonamente iguais, como se o tempo houvesse parado, cria-se uma maneira boa de se viver.

 Mudar-se de um lugar para outro seguindo o arriscado intento de alcançar um sonho promissor, ou melhorar de vida são justificativas suficientes para dar coragem de abandonar um modo de viver bem e iniciar outro com esperança de dar certo. As duas famílias mudaram de vida mais de uma vez. Sabiam que a cada vez, viveriam uma nova e dolorosa reconstrução de seus costumes cotidianos, mas sempre mantinham a esperança e o sonho de que esta seria a derradeira vez e seria a melhor.

 Os Cozza repetiam o caminho dos Laitano e suas histórias de vida seguiam em paralelo. Viveram seu tempo de duro trabalho em servidão temporária, conseguirem até obter economias suficientes para adquirirem uma pequena propriedade em Dobrada, assim como os Laitano haviam conseguido anos antes, em 1904. Mas foram necessários mais quatro anos para Thomaz Cozza e família conquistarem essa relativa independência e, em 1908 iniciarem uma nova fase de suas vidas.

Em uma época em que a expectativa de vida era muito baixa, em que aos quarenta anos as pessoas já se achavam idosas e temiam ter menos forças para a realização de seus objetivos. Sentiam a ameaça da velhice e a chegada infalível da morte. Aos quarenta e quatro e quarenta e dois anos, Thomaz e Giuseppe tentavam apressar todas suas decisões. Suas esposas Mariana, com trinta e três anos e Isabela, com trinta sete, os acompanhavam com os mesmos temores, acrescidos do receio feminino da perda de seus encantos juvenis. Enfim, todos tinham pressa e necessidade de realização.

 Essa premência passava para seus filhos que queriam crescer, casar e progredir rapidamente. Por isso as tristes crianças do início do Século XX, não tinham tempo para brincar e tudo lhes parecia sério e rigoroso. E seus hábitos familiares eram tanto mais sóbrios quanto maior fosse a escassez econômica.

Embora tivessem uma roupa melhor, para a missa de domingo, nas visitas aos parentes e amigos, em outras festas e mesmo nas viagens, comumente suas vestes diárias eram simples, de panos baratos, gastas pelo uso e com remendos. Não se incomodavam em se vestir assim, talvez tivessem até certo orgulho disso.

 Solidariedade e hospitalidade eram princípios básicos entre as famílias amigas. Eram valores praticamente naturais entre as pessoas humildes, que minimizavam com isso as mútuas dificuldades recorrentes.  Os Cozza, portanto, nem precisaram se preocupar com certos detalhes da mudança. Era natural que iriam morar por algum tempo na casa dos Laitano, enquanto construíam sua própria casa no sítio já comprado, com a intermediação de Giuseppe.

 Mas toda a sobriedade e comedimento próprios da dura vida que levavam, eram deixados de lado e totalmente esquecidos nos encontros das famílias no almoço de domingo, pois após o sexto dia de trabalho, até Deus descansou.

 Foi em uma tarde de domingo, que os Cozza, chegados a Dobrada, foram diretamente ao sítio dos Laitano. Deixando ao chão, na entrada do terreno, todos os trastes trazidos. Dirigiram-se à grande mesa posta no quintal, debaixo da sombra de uma mangueira. A alegria demonstrada no reencontro das duas famílias era transmitida nos sorrisos, nos abraços, mas também através do choro comovido e solidário de quem revia queridos amigos, após tanto tempo.

 Foi então esquentado e servido um lauto almoço, previamente preparado para os recém-chegados. Todos comeram a variegada e saborosa comida, todos beberam a se fartar do vinho e da sangria abundante para os menores. E todos cantaram, com lágrima nos olhos, as canções de sua velha Itália. O ”rei da festa” de reencontro foi o menino Natal, que os Cozza viam pela vez primeira.

 A felicidade é assim; feita de momentos simples de alegria, entre um trabalho e outro, entre uma tristeza e outra. Todos sentiam o alívio com o que parecia ser o término de todas aquelas mudanças, que causavam essas interrupções de um modo de viva estabelecido, para o início arriscado de uma nova aventura.

 A noite já escurecia o dia quando todos se relaxavam dos excessos da gula. Natal foi posto para dormir. Somente então os Cozza começaram a contar as peripécias de sua viagem. Quem começou foi Mariana Cozza que, descreveu as confusões acontecidas desde que começou a “fazer as trouxas”, junto com os filhos, uma semana antes de partir.

 - Pusemo tudo no chão, disse. Primeiro separamo o que ia ficar: os armário, as cama, os colchão... Estava tudo tão velho que largamo tudo lá, para quem quisesse.

 - Muita coisa a gente queria levá, disse Filomena, mas a mãe não me deixou levar os brinquedo, as boneca.

 - Claro! Essas bruta moças de catorze e doze anos ainda brincando de boneca. Tem graça!  E além do mais, tinha muita coisa para enfiar nas trouxa. Era coisa que não acabava mais. Roupa, sapato, panela, milho e feijão sobrado da roça, queijo fresco, as galinha... viva não. Só duas preparadas para comer.

 - E nem o Niquinho, nosso cachorrinho, a mãe deixou levá, completou Linda, quase chorando. Ele ficou com minha amiguinha da casa ao lado da nossa. Eles se gostavam... – conteve o choro – acho que ele vai fica bem.

 - O Niquinho não dava para trazê memo...

 Thomazino começaria a falar do cachorrinho, mas Mariana sua mãe, cortou a conversa, que iria acabar em choradeira. Mas Thomaz quis mudar de assunto e, sem perceber, começou a contar outro assunto triste.

 - Tivemos que vendê toda nossa criação, começou Thomaz. Vendê é jeito de falá, assim como nóis, nossos vizinhos quase não tinham “dinaro”. Tudo foi quase dado.

- Mas ganhou dinheiro com a venda da Rosada, intrometeu-se Thomazino.

- “Ma che, bambino mio”! Exclamou Thomaz. Rosada era nossa vaca e quase teve briga na venda dela.

 - Foi uma angústia para nóis tudo vendê a Rosada, voltou a tomar a palavra Mariana e continuou: A vaca era tudo para nóis. A gente podia ser pobre, mas com ela ninguém passava fome. A gente tinha leite, manteiga e queijo. Tinha tanto que dava até pra vender na vila. Todo mundo vivia bem graça à nossa vaca.

 Mariana deu um suspiro, que foi acompanhado por toda a família e até pelos donos da casa. Linda, a filha do meio, aproveitou para expor seu lado sentimental.

 - Era mais que uma vaca, era uma companheira, uma amiga. As vaca são animal estúpido, mas Rosada entendia tudo que a gente conversava com ela. Todos nóis ia no seu cantinho falá com ela e com seus doces olhinhos redondos, prestava atenção e tudo ela compreendia. Nóis amava ela e ela amava nóis.

 - Mas nóis tinha de vendê a vaca, falou Filomena interrompendo a lengalenga da irmã.

 - A venda dela quase deu briga, falou Thomaz. Um “farabutto” comerciante napolitano veio em casa e depois de muito examinar, apalpar, a assustada Rosada, disse que não era uma vaca velha como aquela, o que precisava. Falou isso mais outras veiz e tamém que aquela era uma vaca que não conseguiria revender, que não mais tinha leite, que só daria manteiga ruim... Aí eu puxei a Rosada da mão dele antes que desse uns socos bem dado no “imbecille”. Desisti da venda e já ia guardando a vaca, quando ele mudou de conversa: “Tá bem, “va bene”, vou comprar apesar de tudo", disse. Mas estou fazendo um favor “per voi”. “Per questo” não posso “pagare” o que pediram...” Então voltei a puxar a vaca e ele balançando a cabeça como se estivesse descontente, pagou o preço.

  - Mas até agora nóis sente a falta dela, falou Linda, com tristeza.

 - Agora nóis não temo mais leite, nem mais manteiga, lamentou Thomazino.

- Mas nóis tinha de vender a vaca, concluiu Filomena encerrando o assunto.

 Os Laitano estavam encantados com o perfeito falar brasileiro dos velhos amigos. Eles ainda falavam com muitas palavras italianas e um pesado sotaque calabrês, pois na vila de Dobrada quase se falava mais a língua da península do que o brasileiro local.

 Mas percebendo que todos estavam tristes com a história da vaca, Filomena virou-se para Thomaz e sugeriu:

 - Pai, conta do Pelado!

- Ah filha, essa é uma história velha... Tamos contando agora causos da nossa mudança.

 - Mas que pelado é esse, quis saber a menina Maria Laitano, já achando graça.

 - Pelado era um papagaio, explicou Linda Cozza e, virando-se para o pai: Conta pai.

 - “Va bene”. Pelado era um papagaio velho, dizem que tinha uns cinquenta ano. Uns treis ano fai, que a gente ganhou ele. Foi quando morreu “seu” Lucca, um vizinho muito véio, de uma doença no pulmão. A mulher dele não quis ficar com o papagaio. Ela disse que não aguentava mais o bicho ficar imitando o chiado da respiração do falecido. Ficava o dia inteiro chiando como o véio. Ela não aguentava mais, e ofereceu o bicho pra nóis, com gaiola e tudo.

 - Nóis mudamo o nome dele, interveio Thomazino, a véia disse que ele chamava Papagaio memo.

- Nóis então demo pra ele nome de Pelado, explicou Filomena. Era um bicho véio e arrancava, ele memo, as pena.

- Ele chiava o tempo todo, continuou Mariana, acho que ficava chamando o véio Lucca. Mas isso não é nada...

- O véio Lucca tinha ensinado ele falá um monte de palavrão, disse Thomaz, retomando a história que havia começado.

 Todos riram e as crianças Cozza ameaçaram começar a dizer alguns xingamentos do repertório de Pelado. Mariana, mesmo rindo, ameaçou bater nos filhos se dissessem alguma palavra feia. E para evitar alguma, completou:

 - Quando cantávamos para ele, repetia o “iamo, iamo lá” e dançava. Aprendeu a chamar todos os nossos nomes...

- E xingava todos vizinho! Exclamou Thomazino, voltando a fazer todos rirem novamente.

 Os Laitano entraram na brincadeira e riam junto, enquanto todas as crianças começaram a dizer alguns nomes de uso cotidiano nas famílias italianas. “Porca miséria”, disse um; “maledetto”, outra; “cazzo”, mais alguém e, em coro; “stronzo”, “farabutto”...

 - Chega, chega com isso! Eram as mães, Isabela e Mariana, que também rindo, tentavam interromper o palavreado das crianças.

 - Acho que ele sentia falta dos antigos donos, disse Thomaz, e ficava agressivo por ter sido abandonado por eles. “Chi lo sa”? Ma nóis paramo de recebê visita por causa dele. Xingava de “pirla”, “finocchio”, “buggiardo” e “fanculo”, todo visitante home e de “mignotta”, “puttana”, “tria” e “zoccola”, as muié.

 - “Dio mio”! Exclamou Isabela e, morrendo de rir: Cumé que não mataram logo esse bicho “maledetto”?  

 Todos riam sem parar, pois o riso é fácil com barriga cheia e alguns copos de vinho. Mas Thomaz, o “dono da história”, conseguiu termina-la:

 - Pelado já era um papagaio véio, depenado. Depois dos primeiros dias percebemos que estava doente. Vivia com os óio grudado e com caganeira. Foi ficando cada vez mais queto (parou até de xingá os outro) e, depois de quase um ano, um dia amanheceu morto, caído do puleiro.

 Ninguém ficou muito triste com a morte de Pelado, mas o final foi o suficiente anticlímax para todos se sentirem cansados após tanta comida, bebida e risadas.

 - Deixa tudo aí! ”Domani vedremo”

 Foi a ordem de Isabela, a dona da casa. Todas as mulheres e o pequeno Thomazino foram dormir. A escuridão da noite já caía, já iam chegando às oito horas. Todos encontraram um lugar para deitar e dormir.

 Giusepe Laitano e Thomaz Cozza encostaram suas cadeiras ao tronco da árvore e acenderam os cigarros de palha que o dono da casa já tinha preparado desde a manhã. Iam começar aquela prosa mansa e tranquila de final de domingo. Leonne e Leonardo puxaram suas cadeiras para perto deles. Sentiam-se adultos e queriam participar do fim de noite.

 Houve um silêncio morno, relaxado de fim de festa. Os rapazes foram recebidos sem restrições. Algumas baforadas do fumo de palha, até que Giuseppe deu um longo trago, tomou fôlego e iniciou molemente a conversa amena.

 - Este fumo é de qualidade. É feito aqui memo por um caboclo véio que “próprio lui” planta, colhe e queima o tabaco.

- Mamma mia! Muito “meglio che quello” fedorento do Fortunato.

- Fortunato, o capataz da fazenda... Que é dele? Que sucede com “quello mascalzone farabutto”?

 - No ano depois que ocês foi embora, ele teve uma bruta briga com o Administrador, quase que saiu morte. Foi por pouco.

- Então Thomaz, ele foi embora?

 - Foi. O Administrador pagô tudo o que devia pra ele e (dizem) que até mais. Mas antes de sumir, apareceu lá na frente da porta da nossa casa com uma espingarda na mão. Foi um susto pra tudo nóis, Giuseppe. Ele, sem descer do cavalo, me chamou. Mariana não queria me deixar sair. “Ma, che cazzo! Aveva paura, ma hanno anche coglione, saí? Cheguei perto. Fortunato não disse nada. Estendeu a espingarda para mim pelo cabo e só disse: “È per voi uccidere le once di Dobrada”. E foi embora.

 - Ele deu uma espingarda para matar as onça daqui? Ma hoje não tem mais onça! Dobrada já progrediu muito até esse ano de 1908, Thomaz. Ma comé que ele sabia das onça?

 - Uma vez contei a ele que “tua mogle” Isabela, escrevia para Mariana contando que aqui tinha cobra no mato e onça rondando as porta, de noite.

 - “Vero”, tinha, ma não tem mais. E o Fortunato, sumiu pra sempre?

 - Nunca mais vi ele, Giuseppe. “Ma sai comè”, a gente me contô que ele se juntou a uns calabreses de quadrilha em São Carlos e começô a roubá fazendeiro e até matá. Falaro, agora memo, antes da gente viajá, que ele foi expulso do Brasil e mandado de vorta pra Catanzaro.

 A conversa foi ficando cada vez mais mole e logo esqueceram Fortunato e deixaram o sono vir chegando e encerrando um agradável domingo que ficaria na memória de todos.

 Como não fazia parte de seu dia-a-dia, os Laitano e nem os Cozza tinham conhecimento de uma nova Lei Federal, apelidada de “Lei Afonso Gordo”, em vigor desde janeiro de 1907. Muito menos se interessavam em saber que o Capataz da Fazenda Pau D’Álho, foi enquadrado nela.

 Essa lei de autoria do deputado federal por São Paulo, o Afonso Gordo, tratava da expulsão do Brasil, de estrangeiros “vagabundos, mendigos, cafetões, bandidos profissionais e anarquistas”. Fortunato foi enquadrado como “Anarquista Perigoso”. Mais do que xenofobia, a lei era uma “fobia político-ideológica”.

 O Governo não sabia outro modo de impedir o crescimento das mais de vinte Sociedades Anarquistas já existentes em São Paulo naquele ano. A prática do Anarquismo veio junto com os imigrantes, principalmente espanhóis e italianos. Apavorados e sem saber como combater a ideologia que estava crescendo entre o operariado paulistano e “se constituindo em refúgio de fomentadores da desordem”, as autoridades nacionais encontraram uma solução simples e radical: “Mandá-los de volta à sua pátria de origem, para fazerem anarquia lá”! E aproveitaram para enquadrar assim, todo e qualquer estrangeiro que supostamente burlasse a lei.

 

Mateus Cosentino

Sampa – 19.07.2017

 

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