“Una
Piccola” História de FamíliaLivro 1 -
Parte 1 - RecomeçoCAPÍTULO 14 – QUELLA
CITTÀ VIOLENTA
No domingo do dia seguinte ao Natal de 1909, a população de
Taquaritinga passava as horas preguiçosamente, descansando dos festejos
natalinos e do abuso do comer e beber nas fartas mesas rodeadas de familiares e
amigos. As únicas atividades sociais do dia haviam sido realizadas pela manhã.
Nada mais do que ir orar na missa dominical e depois limpar as louças, talheres
e arrumar a casa das “consequências” das festas de Natal do dia anterior. A
tarde transcorria entre cochilos, conversas lânguidas e amenas, em cadeiras
almofadadas, entre parentes e vizinhos que se mantiveram acordados. A noite
chegava, convidando todos a dormir. E quase todos ainda dormiam, às quatro da madrugada, enquanto em uma casa, com muitas pessoas em seu interior esfumaçado e à meia luz, bebiam e faziam barulho ao som de música lenta. Subitamente ouve-se ali o som de tiro. De dentro da casa, todos correm, uns em direção de onde viera o estampido e outros em fuga. A cidade acorda, mas ninguém se atreve a ir ao local. Todos sabem que o disparo veio da “Casa de Anita”. Na época, Taquaritinga ainda era palco dos mais lamentáveis e reprováveis atentados contra a segurança e a vida das pessoas. Por isso, somente ao amanhecer, os moradores começaram a tomar conhecimento do estúpido e brutal assassinato ocorrido na madrugada.
O moço da cidade conseguiu fugir e correu para chamar o médico. O Dr. Manoel Fadigas chegou rapidamente, encontrando Anita ainda agonizante no chão com o corpo seminu, esvaindo-se em sangue. Como sempre, o Dr. Fadigas veio acompanhado por sua esposa, Dona Zizinha, senhora religiosa e de grande bondade que sempre auxiliava o marido no atendimento aos enfermos.
Anita agonizava nos estertores da morte e, apesar da dor, balbuciava entre soluços e lágrimas, algumas palavras dirigidas à Dona Zizinha. Eram suas últimas palavras, era um pedido. Não queria ser sepultada com aquelas roupas que a identificavam como prostituta. Pediu à Senhora que, uma vez morta, fosse vestida com roupas de uma mulher honesta, de família, pois “não queria se apresentar perante Deus com a roupa de mulher da vida como as que usava no bordel, porque lhe causaria muita tristeza e vergonha”.
Dona Zizinha prometeu cumprir esse último pedido de Anita, aquela quase menina de infeliz vida mundana, falecida em seus braços. Horas depois, a esposa do Dr. Fadigas, voltou de sua residência e vestiu o corpo inerte da falecida com o vestido escolhido dentre os que compunham o seu guarda-roupa. Assim, Anita foi sepultada com a solene roupa que Dona Zizinha usara há dois dias, na Missa do Galo de sexta-feira, na chegada do Natal.
Anita foi a primeira prostituta de destaque em Taquaritinga e se evidenciou pela sua beleza cabocla, de cor morena, muito bonita e irrequieta, que atraia grande número de admiradores. Muito disputada pelos frequentadores de sua casa, certamente provocava cenas de ciúmes, de inveja, rixas entre rivais envolvidos em ardentes tramas etílicas e amorosas. Eis aí o clima de glória e de desdita que acabaram por levar a bela Anita ao seu trágico fim, alvo de uma emboscada e de mais uma das muitas tocaias de então. Era apenas outra vítima de cruéis assassinatos escondidos sob o manto escuro da noite.
No domingo seguinte o jornal noticiava o fato sem grande destaque e resumia: “O assassinato de Ana de Souza, mais conhecida por Anita, enquadra-se entre os tantos crimes misteriosos e não elucidados nesses lupanares, ambientes de promiscuidade e luxúria. O autor do disparo, protegido pela escuridão da noite, fugiu e muito provavelmente jamais será identificado, escapando imune da responsabilidade de seu brutal e hediondo crime”.
Suspeitas recaíram sobre diversas pessoas, mas nada se pôde provar contra nenhuma. O principal apontado foi o marido de Anita, por vingança de ter sido abandonado pela mulher. Outro indiciado foi um negociante estabelecido na Rua da Estação, na esquina da Rua do Sapo, “homem de maus instintos, sempre às voltas com a Justiça”, que não era correspondido em seus assédios apaixonados por Anita. Finalmente também ficou sob suspeita, o Administrador de uma fazenda no Alto da Serra, que não escondia sua incontrolável paixão pela moça assassinada.
Nada se provou contra ninguém, assim como nunca se soube quem teria sido o “moço da cidade” que estava ao lado de Anita no infeliz momento do disparo. Nunca ninguém procurou saber quem fora que chamou o Dr. Fadigas e este declarou em juízo não o conhecer.
No Registro de Óbitos do Cartório do Registro Civil, livro 7C, às fls. 71 e 71-v, o falecimento de Anita consta com o seguinte teor: “Aos vinte e sete dias do mês de Dezembro de 1909 nesta cidade de Taquaritinga, em meu cartório, compareceu Ernesto Antunes dos Santos, residente nesta cidade, e exibindo um atestado médico firmado pelo Doutor Manoel Fadigas de Souza, declarou-me que hoje às quatro horas da manhã, nesta cidade, em domicílio à Rua Bernardino Sampaio, esquina da Rua Prudente de Moraes, faleceu em consequência de um ferimento penetrante do abdomen, com grande hemorragia interna, Ana de Souza, de cor branca, com dezenove anos de idade, natural deste Estado, (...), a qual era casada com Ignacio Dias de Souza, a quem deixou viúvo, não deixando bens a inventariar e tendo deixado uma filha ilegítima (...), com um ano e meio de idade e cujo cadáver vai ser sepultado no cemitério desta cidade. Em firmeza do que é para constar, lavrei este termo que assino-o e dou fé. Eu Ernesto Pinto Ferraz, Oficial do Registro Civil o escrevi”.
Pronto, caso encerrado pela Justiça, mas para sempre aberto na história de Taquaritinga.
Se as notícias oficiais sobre o assassinato de Anita tentavam minimizar a existência de um concorrido bordel nas barbas da sociedade taquaritinguense, esse mesmo motivo escuso fazia fervilhar as histórias nas rodas das famílias de bem e nos bares da cidade, onde a cada conto era adicionado mais um ponto.
Na sexta-feira, véspera do réveillon de 1910, após fechar as portas do seu Cine Theatro, ao final da sessão, Brás Cosentino visualizou na esquina, o grupo dos quatro amigos de sempre, falando alto e gesticulando animadamente. Como ele previa, falavam do caso Anita. Ao verem chegar o último amigo esperado, se dirigiram ao bar de frente à Praça, para molhar a conversa bebericando. Conversa vai e bebida vem, outras histórias macabras foram surgindo. Jovens entre os vinte e trinta anos, tinham muitas histórias do tipo para contar dos tempos em que Taquaritinga ainda se chamava Ribeirãozinho. Todos já haviam ouvido contar, ou eram até testemunhas da criminalidade dos últimos anos do século anterior e da primeira década desses anos 1900. Naqueles tempos eram comuns os crimes de emboscada, os latrocínios, os assassinatos de tocaia e traição.
Desde os idos anos de 1870, “grileiros” alteravam marcos divisórios das propriedades, falsificavam assinaturas de juízes, títulos de propriedade e tudo o que pudesse permitir ocupar terras alheias. Evidentemente toda essa criminalidade cartorial precisava ter a contrapartida da violência de muitos “capangas”, liquidando qualquer infeliz que se opusesse a quem se apoderasse de suas terras. Além de formarem verdadeiras quadrilhas, esses “bandidos contratados” se juntavam aos ladrões de cavalo e assaltantes de trem, tipos de fora-da-lei, comuns naquelas bandas do interior de então. Por seu lado, os fazendeiros, “legítimos proprietários”, passaram também a recrutar a seu serviço, capangas profissionais. Essa total ausência de lei e ordem tornaram tristemente célebres as cidades da região, incluindo o antigo povoado de Ribeirãozinho.
Na mesa do bar, os moços, já mais alegres com os primeiros efeitos alcoólicos, riram-se quando um deles lembrou que ainda havia, entre os mais idosos das cidades vizinhas, aqueles que se referiam à Taquaritinga, como “terra de ladrão de cavalo, atividade principal da cidade”. Riam-se não porque concordassem, mas porque eram “coisas do tempo de Ribeirãozinho e que não aconteceriam mais na Taquaritinga daquele Ano Novo de 1910”. (Mas apesar disso, a fama perdurou, pelo menos até meados do Século XX.)
Em meio às risadas, Antônio Cosentino conseguiu dizer:
- Nem tão de Taquaritinga assim. Não faz só dois anos que emboscaram nosso amigo Sebastião Augusto Duarte? Foi ali, na saída para Jaboticabal, na beira do riacho. Morreu tão moço e sem nenhum motivo. Acho até que o confundiram com outra pessoa...
- É assim mesmo, interrompeu Nicola Ordine. Ficavam bêbados e nem sabiam o que estavam fazendo. Estou lembrando que há cinco anos, em 1904, chacinaram o casal Bonatti só para roubar o pouco dinheiro que traziam. Mataram cruelmente os dois velhinhos indefesos, que nem ofereceram resistência.
- Dois anos antes disso, completou José Armentano. Lembram? Tocaiaram o Coronel Dionízio Benitz, quase no mesmo lugar. Na margem do córrego Ribeirãozinho, na saída para Monte alto.
- É mesmo, naquele tempo todo mundo andava armado, ou não andava por aí sozinho, disse Nicola.
- Não tinha lei mesmo, completou Armentano e continuou: Nenhum desses crimes e tantos outros assim selvagens e brutais, nunca foram esclarecidos e os criminosos escaparam da Justiça.
Alfredo Prata ficara todo esse tempo quieto, só ouvindo os outros falarem. Mas agora achava que era sua vez. Era a hora de falar de coisa que sabia melhor que os outros.
- Espera um pouco Alfredo, interferiu Antônio Cosentino. Meu pai não concorda com a fama de valente do Galinha,
- Já ouvi o tio José falar isso, disse Braz. Mas o Alfredo sabe tudo sobre o Tenente Galinha.
- Eu só sei o que vi Braz. Mas seu tio José, sabe dele pelo que ouviu na própria Força Pública em suas viagens à Araraquara, através dos amigos do Tenente da Volante. Então, deixe o filho dele contar.
Antônio era o mais novo do grupo e ficou cheio de si com apoio recebido do primo mais velho. Esperou o efeito de surpresa dos outros passar e começou:
- Papai conta que o Alferes Galinha gostava de exibir a sua “otoridade”, promovendo ações de confronto, barulho e correrias. Cultivava sua fama, de aventureiro, valente, corajoso que enfrentava qualquer perigo. Quem não o conhecia se admirava, se assustava ou fugia. Mas, aquela coragem e valentia eram pura ilusão. Ele não passava de um covarde.
- Mas o Galinha, pelo menos, acabou com o Canguçu e o Vaca Braba, que infernizaram nossa cidade por tanto tempo e deixaram todo mundo apavorado, aparteou Armentano.
- Era você Braz quem estava comigo quando aqueles dois malfeitores foram emboscados e trucidados pela “Capitura” do Galinha?
Quem perguntava era Alfredo Prata, testemunha do acontecimento. Ele tinha os mesmos dez anos de idade que Braz na ocasião. Estava voltando da pescaria com dois peixinhos pegos no riacho e assistiu com os olhos arregalados o início da matança dos marginais. Jogou-se ao chão assustado para ver o resto.
- E quem era esse? Perguntaram todos os quatro ao mesmo tempo.
Todos conheciam e gostavam de Vitoriano de Lacerda, o popular Tianinho. Agora, aos trinta e dois anos, diariamente o viam percorrendo as ruas e casas comerciais da cidade, carregando sacos cheios de papel, latas e ferro velho que apanhava. A tudo vendia para complementar a mísera pensão que recebia, por ter participado da Guarda Nacional há apenas dois anos. Daí o chamarem também de Tenente, ou Alferes Tianinho. Em 1907, desfilava pelas ruas com orgulho, garbo e imponência, ostentando sua farda azul, ornada com cordões dourados no ombro e botões da mesma cor no casaco. Agora, dispensado com insuficiente remuneração, dizia-se “coletor”.
Era um caboclo simples, mas que sempre teve o respeito e o carinho de todos os taquaritinguenses de então, independentemente de classe social. E assim foi tratado até o fim de sua vida, aos setenta e quatro anos, em 1951. (Vagamente, se não me falha a memória, lembro de tê-lo visto velho, alguns anos antes de falecer, ainda andando pelas ruas, carregando um sujo e cheio saco de estopa.)
- Então, disse Armentano, só o Alfredo e o Tianinho viram essa emboscada do Alferes Galinha e sua famigerada tropa de “Capitura”. Mas a história é contada e recontada há tanto tempo e por tanta gente, cada um a descrevendo de um jeito... Seria bom ouvir de você Alfredo, “testemunha ocular do crime”, como realmente aconteceu.
- Nem era casa, era um pequeno boteco, disse Braz interrompendo a narrativa. Ali se reuniam todos os valentões e desordeiros, como o Chico Rodrigues, o cadete Reducindo, o Fuão Adolpho...
- Lembram desse Fuão? Indagou Armentano. Foi aquele idiota que, de tão bêbado, acabou pisoteado e morto, caído de seu próprio cavalo.
- E tinha outros mais, retomou Alfredo. Mas naquela hora, antes do primeiro tiro da tropa do Tenente Galinha, estava tudo quieto. A “Capitura” tinha chegado sem fazer barulho. Aí começou o tiroteio, gritaria e correria. Eu me joguei no chão.
Todos suspenderam a respiração e estancaram o movimento dos copinhos de cachaça que estavam indo beber.
- Estava se aproximando, a hora da matança galinácea, disse Antônio em tom dramático.
Sem dar atenção à brincadeira, Alfredo continuou.
- Ali deitado, eu vi o Galinha atrás da escolta, protegido pelo Isidoro, seu homem de confiança e Ajudante de Ordens. A tropa dividiu-se em dois grupos de cinco homens, que se encostavam nos muros dos casebres, aguardando ordens do Alferes.
- O subdelegado de Ribeirãozinho, o Pepino, vinha junto à captura, não é? Quis saber o Antônio.
- Coisa do Delegado Dr. Boto, esclareceu Ordine. Ele sempre mandava o Pepino para dar caráter oficial nas matanças de bandidos, que ele autorizava sem tirar a bunda da cadeira.
- Com a cabeça levantada não consegui identificar quase ninguém, continuou Alfredo. Mas uns dias depois o subdelegado Pepino me contou quem estava em cada grupo. No dele estavam o Serelepe, o Boca de Fogo, o pombeiro Zé Pintinho e um soldado novo. Disse que o Serelepe, não deixou o pombeiro, que era a maior patente, comandar. Me falou assim: “O neguinho tampinha do Serelepe estava danado, só queria sangue”, contou Pepino.
- Tinha dois pombeiros, informou Armentano. Dizem que eles eram do bando do Canguçu, que se venderam ao Galinha.
- É o que dizem, confirmou Alfredo. Ficou um em cada grupo. O Manoel do Saco ficou no grupo comandado pelo Ajudante de Ordens Isidoro. Conforme me informaram, os outros eram o Cuiabano, o Gambá e outro soldadeco. Este grupo ficou esperando a ação do outro. Zé Pintinho, mandado à frente para verificar se o famoso e violento Jesuíno Vaca Braba estava mesmo, na casa nº 105 da Rua 24 de Fevereiro, ali na esquina, onde sempre passava as noites na companhia de sua amante. Pintinho voltou correndo, confirmando que lá estava o facínora. Serelepe entrou imediatamente em ação e meteu o pé na porta do casebre. Assustado, Vaca Braba apareceu desarmado, querendo se entregar. O bandido nem teve tempo de gritar. Serelepe ergueu a carabina e deu o primeiro tiro que ouvi. Depois os outros do grupo encheram de balas o corpo do maldito. O derradeiro tiro foi dado pelo Alferes Galinha que acabara de chegar.
- O herói que chega por último, disse Braz com uma risada debochada. Esse é o Galinha.
Alfredo continuou.
- Os volantes do outro grupo esperavam ansiosos, as ordens do Tenente Galinha, para iniciar a caça ao temível Antônio Canguçu. O pombeiro Manoel do Saco já trazia a informação de qual era o casebre da Rua Barão do Triunfo onde estava o outro alvo da chacina. A soldadesca fechou o cerco em torno da casa de Canguçu, o enorme negro com o apelido caipira de onça pintada. De longe o Alferes Galinha gritava com os homens de Isidoro incentivando-os.
- Pobre Isidoro, interrompeu Ordine, ele admirava o Alferes, apesar de saber que seu chefe não era muito valente. Era um fiel cumpridor de ordens e arriscava a vida pelo seu comandante.
- Então, continuou Alfredo, o obediente Isidoro se aproximou da porta e gritou para o bandido sair e se entregar. No interior do casebre, Canguçu se demorava em tomar alguma decisão. Devia estar querendo se vingar do traidor Manoel do Saco, bandido como ele, que mudara de lado. Podia acertar a cara daquele miserável, que via através de uma fresta, mas de que adiantaria? Resolveu tentar escapar. Abriu a janela e deu um grande pulo para fora da casa. Ouvi o grito de fogo, do Alferes. O bandoleiro caiu crivado de balas. Ali jazia manchando o chão com seu sangue, o bandido temido por todos. Foi esse o fim do famoso Canguçu.
- Um certo silêncio envolveu a fatídica madrugada de sexta-feira, dia quinze de fevereiro de 1901, que chegava trazendo uma fria brisa.
Era Antônio, voltando a falar com a voz dramática e impostada. Quase aliviados com o final da historia, todos sorriram e tomaram mais um gole da pinga boa que bebiam.
- Mas o Alfredo ainda não acabou, disse Braz. Vamos até o fim.
- O corpo do Vaca Braba já havia sido carregado até onde estava o Tenente Galinha, tão orgulhoso de seu feito, que até já montara seu belo cavalo. O outro grupo já trazia o pesado corpo do defunto Canguçu, que acabou sendo jogado na frente do Alferes. Os onze homens estavam contentes com o resultado de suas emboscadas. Riam-se entre si, cúmplices da mesma glória, mas sem fazer algazarra. A sensação era mais de alívio do que de júbilo. Todos sabiam do grande medo que todos sentiram e demonstraram durante a ação. Morreram somente os dois malfeitores. Só Serelepe falava alto em desabafo. Os dois corpos estavam ali, jogados na frente do Alferes Galinha. Era o hábito cortar as cabeças dos trucidados e mandar para o Quartel General da Capital. Mas as cabeças daqueles dois seriam um grande volume a transportar. Galinha então decidiu cortar somente as orelhas dos dois facínoras. Chamou o Serelepe e ordenou que ele cortasse as orelhas dos danados, para mandar para São Paulo, dentro de um vidro.
- Dizem que nem essas orelhas ele levou, falou Armentano. E que ele mesmo jogou o vidro, com elas dentro, no caminho para Jaboticabal. Será verdade isso?
- Não sei, respondeu Alfredo, só sei que aqui no nosso cemitério estão sepultados o Canguçu e o Vaca Braba, em valas comuns e sem orelhas.
Então Antônio começou a cantar uma modinha e logo foi seguido por todos:
“Na vida do Ribeirãozinho
Valentão não se acaba
Mataram Canguçu
Jesuíno Vaca Braba.
Triste sina destes homens
Fizeram uma morte feia
Depois de mortos no chão
Ficaram sem as oreia.
Canguçu era valente
E costumava pulá
No saltá de uma janela
Queimaram ele no á”.
Muitas versões e até modinhas de viola, imortalizaram essa história. Mas naquele momento o Braz ousou perguntar para Alfredo.
- Como é que deitado na grama e no escuro, você viu tudo isso, em detalhes, acontecer?
A pergunta pegou todos de surpresa e ninguém conseguiu deixar de rir da cara que Alfredo fez ante a zombaria contida na pergunta. Mas logo se refez, também riu e começou a explicar:
- Eu e o Alferes Tianinho levantamos juntos e quietos para sair correndo da cena do massacre. Mas no caminho fomos encontrando a vizinhança, ainda assustada, saindo de suas casas. Aos poucos todos começaram a comentar o que ouviram e viram. E ficaram contando e acrescentando pontos a cada conto. Até as amantes dos bandidos, em pranto, acabaram por vir falar. Em mais de uma hora, eu e Tianinho, ficamos sabendo de muito mais coisas que “quase” vimos e ouvimos deitados no chão.
Riam-se todos, mais pelos efeitos etílicos da boa cachaça que bebiam, do que pela graça do final da história.
- Mas, além disso, disse Alfredo, no início deste ano o Braz aqui, me deu pra ler uma série de reportagens do repórter Aderbal Figueiredo do jornal “Diário da Noite”, escritas depois de uma série de entrevistas, feitas aqui em nossa região. Pronto! Aí está. Minha versão da morte de Canguçu e Vaca Braba ficou, com isso, mais que completa.
- Foi esse o motivo do nosso amigo Braz insistir para o Alfredo contar novamente a emboscada do Galinha, concluiu Ordine.
- Foi isso mesmo, confessou Brás, rindo-se satisfeito.
Todos estavam satisfeitos e pediram mais comidinhas para acompanhar o que bebiam. A conversa domingueira era sempre agradável entre aqueles cinco rapazes. Mesmo que desta vez o assunto fosse sanguinolento. Mas naquela conversa de bar, nem Braz ou Antônio Cosentino, nem Nicola Ordine, José Armentano e nem mesmo Alfredo Prata poderiam imaginar que, em 1913, decorridos pouco mais de três anos daquele agradável encontro dominical, aos quarenta e um anos de idade, o Tenente Galinha estaria morto.
João Antônio de Oliveira, Oficial da Força Pública, Chefe do Serviço de Capturas, o famoso e temido Galinha “caçador de bandidos”, sobrevivente à numerosíssimas missões, milagrosamente escapando ileso de todas, veio a falecer no tranquilo bairro da Mooca em São Paulo, à Rua Ana Neri, 14. (Meus avós maternos e família morariam anos depois na Rua Almirante Brasil 210, a uma caminhada de vinte minutos dali.) Conforme atestado médico, morreu no dia 23 de abril de 1913, em sua cama residencial, tranquilamente dormindo. Causa mortis: Quatro tiros, dois na cabeça e dois no tórax.
Viveu na violência e morreu nela. Findou-se assassinado por um amante de sua mulher. Sempre estava envolvido em missões intermináveis fora do seu Quartel paulistano, portanto sempre ausente do lar, o Alferes Galinha mal deixava a esposa abandonada e esta se servia dos aquartelados. Dizem, que muito democrática e avessa à hierarquia, confraternizava-se com o soldado raso, assim como com o coronel. Era um caso sério que não poderia ter outro desfecho.
Mas o maior feito de Galinha em Taquaritinga teve um registro fotográfico, que ficou para o acervo da cidade. Poucos souberam disso e, certamente os cinco amigos que recontaram essa história nunca vieram a saber, ou souberam disso muitos anos depois.
Uns poucos dias depois da chacina aqui descrita, o então subdelegado Pepino, acompanhado do volante Serelepe, foram encarregados de irem à pertíssima vila de Itápolis, atrás de um fotógrafo para fazer uma foto oficial da “Capitura”. E assim foi feito. O fotógrafo convocado foi Domingos Morano, que em 1901, morava naquela pequena vila. Posteriormente mudou-se para Taquaritinga onde montou seu “studio” fotográfico.
Passados cerca de quarenta anos, nesse “atelier” seu filho, Nicolino Morano, tirou algumas fotos oficiais de minha família, entre outras, a do casamento de meus pais, em 1942, minhas primeiras fotos em 1943 e a foto de minha primeira comunhão, em 1952. Esta, por sinal, foi a ultima fotografia que tirei em Taquaritinga antes de minha família se mudar para a Capital de São Paulo.
Mateus Cosentino
Sampa – 21.07.2017
Licença Criativa
- Esta obra está
licenciada para Mateus Cosentino. Você
pode copiar distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor
original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar
obras derivadas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
O QUE VOCÊ ACHOU?